Num momento em que Angola enfrenta desafios profundos de consolidação democrática, torna‑se impossível ignorar um fenómeno inquietante: a crescente tentação das oposições em flertar com modelos políticos que nada têm de democráticos.
Em vez de apresentarem alternativas credíveis, responsáveis e ancoradas no interesse público, alguns sectores parecem seduzidos por figuras e regimes que representam precisamente o contrário — o autoritarismo, a manipulação populista e a erosão das instituições.
Em Angola, o entusiasmo de certos comentadores com figuras como André Ventura revela uma perigosa normalização de discursos xenófobos, anti‑pluralistas e abertamente hostis à convivência democrática. Quando um analista como Pakisi se permite elogiar um projeto político que se alimenta do ressentimento social e da desinformação, não está a exercer crítica: está a legitimar um caminho que historicamente conduz ao desastre. O populismo de extrema‑direita não é uma alternativa — é uma ameaça à própria ideia de civilização democrática.
Igualmente, quando vozes como Luzia Moniz insinuam, com sonsice, que a Rússia — um Estado autocrático, agressivo e profundamente hostil aos valores democráticos — poderia desempenhar um papel positivo na sucessão política angolana, estamos perante um exercício de ingenuidade ou oportunismo. A nostalgia pelos tempos soviéticos, a fantasia de que Moscovo poderia “ajudar” a UNITA ou influenciar a política angolana em 2027, e a complacência com a ingerência estrangeira, revelam uma perigosa desconexão com a realidade contemporânea.
A Rússia de hoje não exporta solidariedade: exporta instabilidade, manipulação e dependência.
A repetição deste padrão — seja no elogio a Ventura, seja na romantização da Rússia — demonstra um problema estrutural: uma parte da oposição prefere atalhos ideológicos a projetos democráticos sérios. Tal como já se viu em intervenções de outros ativistas como Rafael Marques, estas posições não resultam de reflexão estratégica, mas de impulsos oportunistas que ignoram o interesse do povo angolano.
São discursos que fragilizam a credibilidade da oposição e alimentam a perceção de que não existe um projeto alternativo responsável, coerente e nacional.
É precisamente esta deriva que reforça a necessidade de uma Nova República, capaz de renovar instituições, corrigir desequilíbrios históricos e consolidar um sistema político que não dependa de aventuras populistas nem de tutelas externas.
E é também por isso que muitos defendem que o MPLA — renovado, reformado e responsabilizado — continua a ser, para já, o único garante de estabilidade institucional e de continuidade do Estado.
Não por ausência de crítica, mas porque a alternativa que alguns setores oposicionistas apresentam é profundamente irresponsável.
A democracia exige maturidade. O país não pode ser entregue a quem confunde estratégia com ressentimento, nem a quem acredita que a solução para os problemas nacionais passa por importar modelos autoritários ou por replicar populismos estrangeiros.

