Mais um tolo

ByAnselmo Agostinho

6 de Fevereiro, 2026

As redes sociais, entre outras desvantagens, têm o condão de transformar sacos de vento ou puros faladores em grandes intelectuais. O grande problema (e acaba por ser uma vantagem) é que estes pseudo-intelectuais quanto mais abrem a boca mais tolices dizem. Na realidade, não passam de tolos.

É o caso de Albino Pakisi. A recente defesa pública de Albino Pakisi a André Ventura revela um problema maior do que a simples divergência política: expõe uma incompreensão profunda sobre o que é racismo, como ele opera e porque discursos nacionalistas excludentes nunca são neutros.

Ao afirmar que Ventura “não é racista” e que apenas “coloca os portugueses à frente dos demais”, Pakisi não percebe que esta formulação é precisamente a essência do racismo político contemporâneo — um racismo que já não precisa de insultos explícitos para funcionar, basta hierarquizar seres humanos.

Pakisi tenta normalizar Ventura comparando-o a Jonas Savimbi, como se o simples facto de um líder africano ter defendido “os angolanos primeiro” tornasse equivalente o discurso de um político europeu que, num contexto histórico marcado por colonialismo, desigualdade racial e xenofobia, defende “os portugueses primeiro”.

Dizer “os portugueses primeiro” num país onde minorias são sistematicamente alvo de discriminação não é um slogan inocente — é um programa político que legitima exclusão.

Pakisi parece acreditar que Ventura apenas expressa um patriotismo vigoroso. Mas patriotismo não exige hierarquizar pessoas. O que Ventura faz — e que Pakisi tenta suavizar — é estabelecer uma ordem de prioridade baseada na origem, na etnia ou na nacionalidade.

Isso não é patriotismo; é nativismo, uma ideologia que define quem merece direitos plenos e quem deve ser tratado como suspeito, secundário ou descartável.

Quando um político diz que um grupo deve vir “à frente”, está necessariamente a dizer que outros devem vir atrás. E quando essa divisão coincide com linhas raciais ou étnicas, estamos perante racismo político, mesmo que o orador tenha amigos africanos ou evite insultos diretos.

Pakisi recorre ao argumento clássico: Ventura não pode ser racista porque tem amigos africanos.

Este raciocínio é frágil e ultrapassado. Racismo não é uma questão de relações pessoais, mas de estruturas, discursos e políticas. Uma pessoa pode ter amigos de várias origens e, ainda assim, defender políticas que prejudicam sistematicamente essas mesmas comunidades.

Pakisi tem uma trajetória de crítica ao MPLA. Mas a oposição ao MPLA não deve transformar-se em apoio automático a qualquer figura que critique Angola ou os seus dirigentes. Ser contra um regime não significa abraçar quem instrumentaliza África para fins eleitorais, nem legitimar discursos que colocam comunidades africanas como problema.

Ao tentar apresentar Ventura como um “nacionalista puro”, Pakisi contribui para normalizar discursos que, na Europa contemporânea, têm servido de porta de entrada para políticas anti‑imigração, erosão de direitos civis e aumento da violência contra minorias.

O problema não é apenas Ventura. O problema é quando intelectuais africanos, por ingenuidade ou proximidade pessoal, ajudam a legitimar discursos que, na prática, prejudicam africanos.

Albino Pakisi erra ao tentar despolitizar o discurso de André Ventura.

Erra ao confundir nacionalismo com exclusão.

Erra ao ignorar o impacto real das palavras num contexto europeu marcado por desigualdades raciais.

E erra, sobretudo, ao acreditar que ser contra o MPLA justifica apoiar qualquer figura que critique Angola.

Colocar “os portugueses à frente” não é uma frase neutra. É uma hierarquia. E toda hierarquia baseada na origem é, por definição, discriminatória.

Pakisi é tolo.