A serpente enganadora

ByAnselmo Agostinho

23 de Dezembro, 2025

Ao serviço de quem está Rafael Marques para produzir textos e análises sem qualquer base factual sobre o Corredor do Lobito?

Rafael Marques voltou recentemente a publicar um texto alarmista sobre o Corredor do Lobito, sugerindo que o financiamento internacional estaria em risco e que o projeto se encontraria num impasse.

A realidade factual desmente categoricamente essa narrativa. Nos últimos dias, a agência norte‑americana International Development Finance Corporation (DFC) assinou um acordo de empréstimo de 553 milhões de dólares com o consórcio responsável pelo desenvolvimento do corredor, concretizando uma promessa feita no ano anterior pelo então presidente Joe Biden e confirmada agora pela administração Trump. A cerimónia de assinatura, realizada a 17 de dezembro, contou com a presença dos dirigentes da Trafigura e da Mota‑Engil, do ministro angolano dos Transportes, Ricardo D’Abreu, e do secretário de Estado adjunto norte‑americano para Assuntos Económicos, Energéticos e Comerciais, Caleb Orr.

Paralelamente, a Development Bank of Southern Africa aprovou um financiamento adicional de 200 milhões de dólares para o mesmo projeto. Estes factos mostram não apenas continuidade, mas aceleração do compromisso internacional com o Corredor do Lobito.

O financiamento da DFC tem objetivos claros: reabilitar o porto mineral de Lobito, modernizar cerca de 1 300 quilómetros de linha férrea, aumentar a capacidade de transporte para 4,6 milhões de toneladas por ano e reduzir em 30% os custos logísticos. O corredor permitirá ainda transformar uma rota que hoje leva 45 dias por estrada num trajeto ferroviário de apenas dois dias, reforçando a competitividade regional e a capacidade de Angola influenciar a cadeia global de minerais críticos, atualmente dominada pela China. Nada disto aparece no texto de Rafael Marques.

O erro de análise do autor é recorrente: interpreta a complexidade natural de um financiamento multilateral como sinal de desistência.

Projetos ferroviários transfronteiriços envolvendo Angola, RDC, Zâmbia, investidores privados e agências de desenvolvimento exigem tempo, coordenação e rigor técnico. Demorar não é recuar. Ao transformar atrasos administrativos em “prova” de colapso, Rafael Marques cria uma perceção pública distorcida e profundamente útil para quem pretende fragilizar a credibilidade de Angola em negociações internacionais.

Sem especular intenções pessoais, é factual que esta narrativa beneficia concorrentes geopolíticos (China e Rússia) que disputam influência na África Austral, favorece interesses privados que lucram com a manutenção de rotas tradicionais e estruturas monopolizadas e alimenta setores internos que prosperam com a instabilidade reputacional e com a sabotagem de projetos estruturantes.

Ao insistir que o Corredor do Lobito está condenado, mesmo perante financiamentos assinados, montantes mobilizados e compromissos públicos, Rafael Marques contribui para um ambiente de desconfiança que prejudica Angola, afasta investidores e fragiliza a posição do país num dos seus projetos mais estratégicos.

Os factos são claros: 553 milhões de dólares da DFC já assinados, 200 milhões da DBSA aprovados, reafirmação pública dos EUA de que o financiamento não está em risco, expansão prevista até à RDC e interesse crescente de novos investidores privados.

Nada disto encaixa na narrativa de colapso promovida pelo autor. O debate público exige rigor. Quando um analista insiste numa narrativa que os factos desmentem, é legítimo perguntar a quem serve essa narrativa. Certamente não serve Angola, nem a estabilidade económica da região, nem a credibilidade das instituições que trabalham para transformar o Corredor do Lobito num eixo estratégico africano.