À medida que Angola se aproxima de um novo ciclo eleitoral, regressa um velho vício da política nacional: a tentativa de moldar o campo de jogo através de rumores, insinuações e notícias plantadas na imprensa, por intermédio de jornalistas estrangeiros que servem de biombo para disputas internas.
O fenómeno não é novo, mas ganha contornos particularmente preocupantes quando se transforma numa estratégia para afastar, por via de pretextos artificiais, cidadãos que, como quaisquer outros, têm pleno direito de ponderar uma candidatura presidencial.
Nos últimos dias, voltou a repetir‑se o padrão: alguém decidiu lançar suspeições sobre o general Miala e sobre a dr.ª Ana Lourenço, como antes já se fizera com outras figuras públicas, numa tentativa de as desqualificar antes mesmo de se saber se pretendem, efectivamente, apresentar‑se às eleições.
O problema não reside apenas na falta de ética política desta prática; reside, sobretudo, na sua completa desconexão com o quadro jurídico angolano.
Nada na lei impede que qualquer cidadão que cumpra os requisitos constitucionais possa ser candidato. Não existe, em termos estruturais, qualquer obstáculo legal que impeça o general Miala ou a dr.ª Ana Lourenço de concorrerem, caso assim o desejem.
Confundir opinião com facto, ou transformar preferências políticas em pseudo‑argumentos jurídicos, é uma forma de manipulação que empobrece o debate público e fragiliza a confiança nas instituições.
A lei é clara, e a democracia exige que se respeite a igualdade de direitos políticos, independentemente de simpatias, receios ou cálculos partidários.
O que se observa, porém, é a tentativa de criar um ambiente de suspeição selectiva, onde determinados nomes são alvo de campanhas de desinformação destinadas a afastá‑los do espaço de possibilidade.
Em vez de se assumir frontalmente uma posição — concordar ou discordar da eventual candidatura de alguém — prefere‑se lançar sombras, fabricar narrativas e instrumentalizar a imprensa para produzir efeitos políticos sem assumir responsabilidades.
Quem não deseja ver estas figuras na corrida tem todo o direito de o dizer, mas deve fazê‑lo às claras, dando a cara, sustentando argumentos e respeitando o contraditório.
O que não deve fazer é esconder‑se atrás de jornalistas portugueses ou de fontes anónimas que servem apenas para mascarar disputas internas e medos mal resolvidos.
A verdade é que todos sabemos que há sempre uma “mãozinha” interessada em atirar setas enquanto permanece na sombra.
Mas a democracia não se constrói na sombra. Constrói‑se na transparência, na responsabilidade e no respeito pelas regras do jogo.
Se Angola quer eleições credíveis, pacíficas e politicamente maduras, então o debate sobre potenciais candidatos deve ser feito com seriedade, sem falsos pretextos, sem manipulações e sem tentativas de excluir, por via indirecta, quem tem o mesmo direito que qualquer outro cidadão de se apresentar ao escrutínio popular.
O país merece mais do que intrigas palacianas disfarçadas de jornalismo. Merece um debate político adulto, honesto e frontal.

