A obsessão do José Gama e a liberdade interna do MPLA

ByAnselmo Agostinho

24 de Abril, 2026

A figura de José Gama tornou‑se, nos últimos anos, um exemplo curioso do fenómeno do “guerrilheiro digital”: alguém que, a partir do exterior e sem responsabilidade institucional directa, tenta moldar o debate político angolano através de uma presença constante nas redes e de uma retórica que mistura denúncia, especulação , geralmente, falsas e desinformadas, e uma espécie de vigilância obsessiva sobre o funcionamento interno do MPLA.

A sua proximidade política à UNITA é conhecida e assumida, mas o que verdadeiramente surpreende é a insistência com que procura ditar ao MPLA aquilo que considera serem as regras de uma suposta abertura democrática, como se lhe coubesse, por direito próprio, definir os procedimentos internos de um partido que não integra e cujos estatutos não o vinculam. Absurdo.

Nos seus textos e intervenções, Gama afirma que o MPLA deve estimular a subscrição de candidaturas, que deve dar sinais de democratização autêntica, que João Lourenço deveria enfrentar um universo de delegados não controlado, como se estivesse perante uma organização tutelada por vontades externas e não perante um partido político com identidade própria, história própria e mecanismos internos definidos pelos seus membros.

A questão central é simples: quem é José Gama para impor ao MPLA qualquer modelo de funcionamento?

Num Estado de Direito, cada partido é uma entidade privada de natureza associativa, regida pela Constituição, pela lei e pelos seus estatutos.

Dentro desse quadro, tem plena liberdade para organizar congressos, definir critérios de elegibilidade, estabelecer procedimentos eleitorais internos e escolher a sua própria estratégia política.

Não é refém de agendas externas, nem tem de ajustar o seu funcionamento para satisfazer expectativas de actores que não pertencem à sua vida orgânica.

A tentativa de transformar o MPLA num objecto de escrutínio permanente por parte de quem não participa nas suas estruturas é uma estratégia de desgaste: uma forma de semear discórdia, de insinuar crises inexistentes e de projectar para dentro do partido tensões que pertencem ao campo político adversário. Cavalos de Tróia da UNITA.

É legítimo que qualquer cidadão critique partidos, governação ou processos internos.

O que não é legítimo é transformar essa crítica numa espécie de tutela moral, como se o MPLA tivesse de se justificar perante um comentador militante que, sob a capa de defensor da democracia, procura apenas fragilizar a coesão interna de um partido que não é o seu.

A obsessão de Gama com o MPLA é instrumental, visa interferir. Quer condicionar o adversário político da força que apoia. E é precisamente essa instrumentalização que torna o discurso tão previsível e, ao mesmo tempo, tão absurdo.

A vida interna de um partido não se organiza ao ritmo das exigências de quem o combate.

Organiza‑se segundo a vontade dos seus militantes, expressa nos órgãos próprios e nos momentos estatutariamente previstos.

Confundir isso com falta de democracia é desconhecer — ou fingir desconhecer — o que significa autonomia partidária.

A insistência de José Gama em ditar normas ao MPLA revela uma fixação política que, de tão repetida, perdeu qualquer capacidade de ser levada a sério.