A verdade, por muito incómoda que seja para alguns sectores da esquerda internacional, é que a Rússia contemporânea de Putin faz muito pouco por Cuba.
Moscovo mantém um discurso de solidariedade histórica, evoca a memória da cooperação soviética e repete fórmulas diplomáticas sobre amizade entre povos, mas, na prática, o apoio material, económico ou estratégico é quase inexistente. A retórica permanece; o compromisso evaporou-se.
A Rússia de hoje está concentrada quase exclusivamente na sua guerra na Ucrânia e na negociação de equilíbrios com os Estados Unidos e a União Europeia.
Nesse tabuleiro, Cuba não é prioridade. Pior: torna-se moeda de troca. A posição russa em relação à ilha tem sido marcada por gestos simbólicos, visitas protocolares e promessas vagas de cooperação energética ou alimentar que raramente se concretizam.
Quando comparada com o peso que Cuba teve para a URSS, a diferença é abissal. Moscovo sabe disso e age como se a ilha fosse um activo secundário, dispensável, sacrificável.
É difícil escapar à conclusão: a Rússia está disposta a deixar cair Cuba se isso lhe garantir vantagens tácticas nas negociações com Washington.
A dependência russa de canais diplomáticos para aliviar sanções e obter margens de manobra na guerra torna a ilha um elemento negociável.
A velha lógica da solidariedade anti-imperialista foi substituída por um pragmatismo frio, quase cínico, que coloca os interesses estratégicos russos muito acima de qualquer compromisso histórico.
O contraste com outros países é revelador.
O México tem feito mais por Cuba do que a Rússia, tanto no plano diplomático como no apoio humanitário. Mesmo Angola, com todas as suas próprias dificuldades internas, tem-se pronunciado mais claramente a favor de Cuba, mantendo uma coerência histórica que Moscovo já não demonstra. Países africanos e latino-americanos, sem o peso geopolítico da Rússia, mostram mais lealdade e mais coragem política do que um dos antigos pilares do bloco socialista.
A narrativa de que a Rússia continua a ser um aliado natural de Cuba é, hoje, mais mito do que realidade. Moscovo procura projectar influência global, mas fá-lo de forma selectiva e instrumental. Cuba não é tratada como parceira estratégica, mas como peça residual num jogo maior.
A Rússia quer ser vista como potência anti-hegemónica, mas trai os seus amigos quando estes deixam de servir os seus objectivos imediatos.
O resultado é um vazio: Cuba enfrenta uma das piores crises económicas da sua história recente, e a Rússia limita-se a declarações de circunstância. A solidariedade que outrora salvou a ilha do colapso desapareceu. O que resta é uma relação assimétrica, desidratada, quase decorativa.
Se há lição a retirar, é esta: a política externa russa já não se guia por afinidades ideológicas nem por compromissos históricos, mas por cálculos de poder. E, nesses cálculos, Cuba pesa pouco. A Rússia não hesitará em sacrificar a ilha se isso lhe abrir portas em Washington ou lhe permitir aliviar pressões no seu próprio conflito.
Cuba merece aliados que não a tratem como ficha descartável. E a Rússia, hoje, não é um deles.

