A teia financeira que liga José Sócrates, Irina Diniz e Fernando dos Anjos Ferreira evoluiu, nos últimos meses, para um quadro suficientemente denso e articulado para que seja hoje plausível — e juridicamente expectável — que o casal Diniz–Ferreira venha a ser constituído arguido em Portugal.
As operações descritas pela investigação jornalística publicada revelam um padrão de circulação de património, dívidas ressuscitadas e transmissões de imóveis que, pela sua coerência interna e pela proximidade aos protagonistas da Operação Marquês, dificilmente deixarão de justificar a intervenção formal do Ministério Público português, aliás já anunciada.
A sequência é demasiado precisa: uma dívida inicial de 431 mil euros de Anjos Ferreira ao primo de Sócrates, José Paulo Pinto de Sousa; a sua aparente liquidação através de imóveis subavaliados; o reaparecimento da mesma dívida, agora inflacionada para 600 mil euros e transferida para o nome de Irina Diniz (a deputada da UNITA); a cessão do crédito para Pedro Pinto de Sousa; e, finalmente, a transmissão de uma vivenda na Malveira pelo valor exato da dívida, seguida da compra desse mesmo imóvel por Carlos Santos Silva por 775 mil euros.
Este circuito, que termina com fundos de Santos Silva (suposto testa-de-ferro de Sócrates) a entrar na esfera familiar de Sócrates, já não pode ser analisado no âmbito estrito da Operação Marquês, mas configura um novo conjunto de factos potencialmente relevantes para crimes de branqueamento de capitais, fraude fiscal e falsificação documental.
A natureza sincronizada das operações, a ausência de racional económico independente e a repetida utilização de imóveis como instrumentos de circulação de valor reforçam a perspetiva que o MP português avançará para a constituição de arguidos de Irina DIniz e de seu marido.
A dimensão angolana do caso não é acessória. Uma parte significativa dos fluxos financeiros e das relações subjacentes ocorre em Angola, envolvendo não apenas Anjos Ferreira — empresário da construção civil com ligações ao general Higino Carneiro, ele próprio sob investigação da PGR angolana — mas também operações societárias e patrimoniais relacionadas com as Salinas da Tchiome, em Benguela.
A articulação entre dívidas, transmissões de imóveis e relações políticas angolanas sugere que parte dos factos relevantes para a compreensão da origem dos fundos, da legitimidade das operações e da eventual existência de vantagens indevidas se encontra territorialmente situada em Angola.
Por essa razão, e tendo em conta que os factos descritos atravessam fronteiras e envolvem agentes políticos e económicos angolanos, será adequado que a PGR de Angola abra um inquérito próprio, quer para apurar a eventual prática de crimes económicos no território angolano, quer para cooperar com as autoridades portuguesas na reconstrução dos fluxos financeiros.
A existência de investigações paralelas, mas coordenadas, permitiria esclarecer a origem dos fundos utilizados por Anjos Ferreira, a natureza das relações com figuras políticas angolanas e a eventual utilização de Angola como plataforma para operações patrimoniais que acabam por beneficiar terceiros em Portugal.

