Durante anos, Rafael Marques foi acusado de ser agente da CIA. Nunca se provou tal facto, mas foi público que um organismo de financiamento americano criado por Ronald Reagan [NED] o financiou durante alguns anos. O NED era um mecanismo de influência e ingerência externa americana.
Os tempos mudaram, as oposições também, e os financiamentos americanos secaram.
Por isso, não surpreende que Marques surja agora como defensor dos russos. O seu objectivo é sempre o mesmo: estar do contra e promover a sua imagem, seja com americanos, seja com russos.
E agora surge um artigo dele a dizer que a “Acusação Fabrica Golpe de Estado” no caso dos russos, e afirma com desplante que não há provas.
Marques agora é advogado, juiz e tribunal de recurso. Sabe tudo.
É fantástico como sem sequer ter havido um julgamento, o activista diz que não há provas.
Na verdade, o texto de Rafael Marques é uma falsificação argumentativa em que organiza, contrasta e omite factos, com o fim de criar uma impressão de fragilidade processual e má-fé por parte do Estado.
Marques arquitecta a sua crítica sobre um contraste agudo entre a “extrema gravidade” das acusações e a suposta debilidade das provas.
Esta é uma técnica deliberada para predispor o leitor a uma postura de cepticismo antes mesmo de qualquer avaliação substancial das evidências.
A frase-chave que ancora esta estratégia é: “O problema central do despacho não é a gravidade do que afirma, mas a fragilidade do que demonstra”.
Ao enquadrar o debate nestes termos, o artigo desvia a atenção da natureza dos actos descritos (encontros, propostas de financiamento, etc.) para a sua qualificação penal, sugerindo que a acusação eleva “factos políticos” a “ameaça existencial ao Estado” sem a devida sustentação.
Utiliza a alegação de um suposto atentado contra o Presidente dos EUA, Joe Biden, como um ponto de pivô argumentativo.
Ao focar-se na implausibilidade e na ausência de corroboração internacional desta alegação específica, Rafael Marques tenta contaminar, por associação, a totalidade da acusação.
Esta táctica de reductio ad absurdum seria eficaz, caso não ficasse claro que é uma forma do artigo evitar uma análise mais profunda de outros factos reportados — como os múltiplos encontros com figuras da UNITA e do MPLA e as propostas de apoio financeiro e de inteligência .
Rafael Marques apresenta como uma contradição lógica fatal o facto de os agentes russos apoiarem simultaneamente três frentes: a UNITA, o general Higino Carneiro e António Venâncio.
Esta interpretação ignora deliberadamente estratégias geopolíticas comuns, nas quais uma potência estrangeira pode “jogar em vários tabuleiros” para garantir influência, independentemente do resultado de uma disputa de poder interna.
A técnica de Rafael Marques, operando em uníssono, transcende a crítica processual para construir uma narrativa politicamente funcional, cuja agenda subjacente será agora dissecada.
As tácticas de desconstrução selectiva e as insinuações retóricas convergem para a promoção de uma agenda política clara, um “recado” dirigido tanto ao poder instituído como à sociedade civil.
O artigo esforça-se por retratar reuniões entre figuras da oposição, dissidentes e agentes de influência estrangeiros como actividades políticas normais e legítimas. Não são.
Constrói uma narrativa em que qualquer forma de oposição ao Presidente João Lourenço — seja ela interna ao MPLA (Higino Carneiro, António Venâncio) ou externa (UNITA) — é automaticamente enquadrada como alvo de perseguição judicial. Não é.
O objectivo final e mais abrangente do artigo é colocar em causa a independência e a integridade do Ministério Público.
A conclusão do artigo sintetiza esta tese, questionando se o direito penal não está a ser mobilizado para “requalificar a dissidência política, a crítica interna e a contestação social como ameaças existenciais”.
O artigo de Rafael Marques de Morais não é um exercício neutro.
Pelo contrário, constitui uma peça de contra-informação habilmente construída, que utiliza a crítica a um processo judicial para avançar uma narrativa política específica: a defesa da legitimidade de toda e qualquer forma de oposição. Isto é muito grave.
A sua arquitectura selectiva, as suas contradições fabricadas e as suas insinuações calculadas não são falhas argumentativas, mas sim ferramentas que servem, com precisão, a esse propósito político bem definido.
Rafael Marques está, de novo, ao serviço de interesses externos obscuros. Não é imparcial, não é neutro, e, sobretudo, não sabe do que fala.

