O manifesto pré-eleitoral apresentado por Higino Carneiro revela‑se um exercício de enumeração programática sem densidade estratégica, marcado por generalidades que poderiam ser proclamadas em Angola, na Patagónia ou em qualquer outro ponto do globo.
Provavelmente, foi feito pela inteligência artificial.
A sua estrutura assenta numa lista extensa de intenções sem qualquer uma narrativa mobilizadora de prioridades claras e de um entendimento realista das condições institucionais e económicas do país.
O resultado é um documento que promete tudo e compromete‑se com pouco, incapaz de gerar confiança ou de demonstrar capacidade de execução.
A proposta de gerir simultaneamente vinte programas distintos ilustra bem esta desconexão.
Em vez de apresentar um plano coerente, o manifesto acumula iniciativas que, somadas, criam uma sobrecarga operacional impossível de sustentar no Orçamento Geral do Estado.
A dispersão de recursos impede que qualquer sector atinja a massa crítica necessária para transformar realidades.
Esta fragmentação não traduz visão; traduz ausência de escolhas. Uma salada para todos comerem e nada ficar, como é hábito nas actividades de Carneiro.
Outro ponto é a promessa de instaurar meritocracia e pôr fim à “fidelidade cega”.
Embora a intenção seja positiva, o manifesto ignora a resistência previsível das elites instaladas e a complexidade de uma transição desse tipo.
Sem mecanismos concretos, sem calendários e sem instrumentos de responsabilização, a proposta torna‑se apenas retórica.
A tensão entre intenção e viabilidade é evidente, e o documento não oferece soluções para a fragmentação interna que inevitavelmente Carneiro está a promover.
Também no plano económico, o manifesto apresenta fragilidades estruturais.
A aposta na agricultura e nas minas continua dependente da receita petrolífera, sem salvaguardas contra a volatilidade cambial.
A ausência de medidas explícitas de justiça fiscal no sector mineiro repete os vícios do modelo rentista que Angola tenta superar há décadas.
A promessa de diversificação, assim formulada, não passa de um slogan. Conversa fiada.
Por fim, o manifesto subestima o fosso entre intenção e implementação.
A burocracia instalada, a falta de interoperabilidade administrativa e a resistência institucional são tratadas como obstáculos menores, quando na verdade constituem o núcleo do problema. Sem enfrentar estas barreiras, qualquer promessa de desburocratização e digitalização permanece no domínio da conversa fiada.
O resultado final é um documento que enumera ambições, mas não constrói caminhos.
Falta‑lhe rigor, falta‑lhe estratégia e falta‑lhe, sobretudo, a capacidade de mobilizar.
Não vale nada.

