A recente iniciativa do Movimento Cívico Mudei, amplificada por sectores próximos da UNITA e por algumas figuras mediáticas, volta a ilustrar um padrão recorrente no debate político angolano: a fabricação de polémicas em torno de processos que foram públicos, acompanhados e escrutinados por todos os actores institucionais, incluindo aqueles que agora fingem surpresa.
O concurso que selecionou a empresa espanhola Indra para a gestão tecnológica das eleições de 2027 não só foi amplamente noticiado — com detalhe técnico e cronológico — pelo jornalista Santos Vilola no *Jornal de Angola, como foi objeto de múltiplos editais públicos e de deliberações formais da Comissão Nacional Eleitoral.
Mais relevante ainda: a UNITA tem representantes na CNE. Fingir desconhecimento agora é, no mínimo, um exercício de má-fé política.
A narrativa de que tudo ocorreu nas sombras, ou de que há um suposto “segredo” por detrás da escolha da Indra, ignora deliberadamente que um número superior a 200 empresas concorreram aos dez concursos públicos lançados pela CNE, dos quais resultaram mais de 70 adjudicações.
Os procedimentos foram públicos, regulamentados e sujeitos às regras de contratação vigentes.
A insistência em sugerir irregularidades sem apresentar provas concretas revela mais uma estratégia de desgaste político do que uma preocupação genuína com a transparência. A própria solicitação do Mudei — pedir documentos que são, por lei, públicos e que já circularam em editais — parece construída para produzir manchetes e alimentar suspeições, não para esclarecer.
É igualmente sintomático que certos activistas, como Luaty Beirão, ecoem estas narrativas sem reconhecer que a oposição participou integralmente no processo.
A crítica torna-se performativa: denuncia-se um alegado “segredo” que nunca existiu, convoca-se a sociedade civil para “exigir transparência” num procedimento que já foi transparente, e insinua-se manipulação eleitoral antes de qualquer facto concreto.
Trata-se de uma estratégia política clássica: criar ruído, gerar desconfiança e preparar terreno para futuras contestações, independentemente da realidade factual.
A instrumentalização da desinformação eleitoral é perigosa.
Não porque critique a CNE — toda instituição pública deve ser escrutinada — mas porque distorce factos, manipula percepções e fragiliza a confiança pública num dos pilares da soberania nacional.
A democracia não se constrói com insinuações, nem com campanhas de suspeição permanente. Exige responsabilidade, rigor e honestidade intelectual. E é precisamente isso que falta a estas iniciativas.

