Carrego na saudade,
O caminho gentio,
Que rasgava o capim,
No meu chão ocre empoeirado,
Nos meus olhos tenho gravado,
A serra verdejante da Munda,
Que se estendia até ao rio Kanieko,
Com árvores de loengos, lombulas a maboques.
No pensamento está o meu Kimbo,
Em que os passarinhos rompem o silêncio chilreando, 
Na feliz bebedeira de azul da liberdade,
O mesmo céu que da minha Kubata,
De pau-a-pique coberta de capim,
Sem portas nem janelas,
Contemplo o pôr do sol ,
Que lá longe atrás do morro,
Pinta o céu da cor do fogo,
Na hora da despedida.
Nas lembranças ferram a noite,
Com danças e batuques à volta da fogueira,
Nos bancos feitos pelo tempo em pedra gasta,
Bebia-se kissangwa e catchipembe,
Contavam-se histórias ancestrais,
De cazumbili e sofrimento,
Enquanto nas brasas da fogueira,
Assava-se massarocas da Naka da tia Minga,
E se preparava a carne de golungo,
Que o velho Evaristo conseguira com a sua zagaia.
Já a lua embriagava com o seu feitiço,
Seduzia os amantes aplaudida pelas estrelas,
A minha Rosa Negra com sorriso de marfim,
Com vestido de xita e sandalete de plástico,
Sorria maldosamente debruçada sobre a janela,
A Kubata estava tudo arranjado,
Esteira no chão, colchão de palha de milho,
Almofada de chipipa, cambriquite de algodão,
Brilhantina no cabelo, cheiro de sabão macaco,
Aroma de amor livre sem compromisso.
Com o céu prateado pelo brilho exuberante da lua,
A prima Zeferina chegou enrolada na nanga de pintado,
 Lenço à cabeça de riscado e missangas coloridas,
Trouxe a sobrinha que chegou de Ombaka no comboio mala,
Mulata vaidosa de cabelo alisado, vestido de popeline,
Brinco de fantasia na orelha e loacos nos pés,
Os olhares gulosos anunciavam maka na noite,
A Custódia cheia de banga era o troféu da noite.
O Manecas chegou a trouxe o gramofone,
Deu-se a manivela e começou a merengada,
A poeira do pedaço substituiu o fumo da fogueira,
Já a noite desvirginava a madrugada,
A minha Rosa Negra num gesto insinuante,
Num impulso de sabedoria, 
Levou-me para a Kubata e com caniços,
Amarrados com londowe,
Fechou a porta e as janelas,
E começou o pricópó do paraíso,
Num pecapacapá no orintimbó, 
Até que o escarambachéu da porrada pintou,
A mulata e os seus caprichos,
Detiveram-se no namorado da vizinha,
Já era de manhã quando a maka terminou.
Nessa minha Sanzala, Ukuma, lá mesmo no Huambo,
Hoje mesmo tem rebita, muitas manias,
Meninas de peruca, kafecos com telemóvel,
Muita kizomba,
Cansado repouso a saudade da minha Rosa Negra,
À sombra de uma Mulemba que resistiu.

Kuma – Setembro de 2022