O teatro de Isabel dos Santos

ByAnselmo Agostinho

10 de Junho, 2026

A época do teatro de comédia acaba de ser inaugurada por Isabel dos Santos, que em traje vermelho sangue se apresta a mais uma manipulação da história típica do estalinismo onde cresceu.

A entrevista de Isabel dos Santos à sua rádio Essencial assenta numa narrativa cuidadosamente construída, mas que não resiste ao confronto com os factos documentados, com o enquadramento jurídico dos processos em curso e com a cronologia das operações financeiras que envolveram empresas públicas angolanas. É um repostório de falsidades.

Vejamos por partes, cada uma das mentiras:

1-A chamada “vitória judicial” no caso Efacec não é, de facto, uma absolvição nem uma validação da sua versão dos acontecimentos. O acórdão da Relação de Lisboa limitou‑se a apreciar um incidente técnico num processo executivo, concluindo que não estavam reunidos os requisitos para desconsiderar a personalidade jurídica de empresas suas. Não houve qualquer julgamento sobre fraude, branqueamento ou origem dos fundos, nem poderia haver, porque o processo não tinha essa natureza.

A decisão não reescreve a história da operação Efacec, não invalida o envolvimento da ENDE nem altera o facto essencial: recursos públicos angolanos foram mobilizados para viabilizar a aquisição da empresa através da Winterfell, um veículo privado sem substância económica.

2-Também não corresponde à verdade a afirmação de que a compra da Efacec foi feita exclusivamente com capitais próprios e crédito bancário. A documentação oficial mostra que a ENDE, empresa pública angolana, entrou no capital da Winterfell com 40 milhões de euros e serviu de garante dos empréstimos que financiaram a operação. Sem essa participação estatal, Isabel não teria passado nos filtros de compliance dos bancos portugueses, nem teria obtido crédito de 160 milhões de euros. A presença da ENDE foi determinante para legitimar a operação e para reduzir o risco percebido pelos financiadores. A insistência de Isabel dos Santos em apresentar a operação como um investimento puramente privado ignora estes elementos estruturais e tenta reescrever um processo que, desde 2015, foi amplamente documentado.

3-A crítica à nacionalização da Efacec em Portugal também carece de rigor. A intervenção do Estado português ocorreu em 2020, após a revelação do Luanda Leaks, quando a empresa enfrentava uma crise de governação, perda de clientes e risco de colapso. A nacionalização foi justificada com base no interesse público e na necessidade de preservar milhares de postos de trabalho. Não foi uma medida tomada com base em “rumores”, mas sim numa avaliação concreta da incapacidade da acionista maioritária — Isabel dos Santos — de assegurar a estabilidade financeira e reputacional da empresa. Quanto à alegação de prejuízos e falta de indemnização, trata‑se de uma questão vazia. A empresa Efacec tinha um valor negativo na época, portanto, nada é devido a Isabel dos Santos.

4-A narrativa de perseguição política movida pelo Presidente João Lourenço é igualmente insustentável. Os processos que envolvem Isabel dos Santos resultam de investigações iniciadas por autoridades angolanas, portuguesas, holandesas e britânicas, e não de uma iniciativa pessoal do Presidente. A cooperação internacional em matéria de combate ao branqueamento de capitais e corrupção é um mecanismo institucional, não um instrumento de vingança. A tentativa de reduzir tudo a um conflito familiar ou a um ajuste de contas político ignora a dimensão transnacional das operações financeiras sob escrutínio.

5-A crítica à justiça angolana como “frágil” e subordinada a “ordens superiores” é contraditória com a própria posição que Isabel dos Santos defendeu durante anos, quando beneficiava de um sistema judicial que raramente tocava nos interesses da elite no poder. A alegação de que não foi ouvida em três ocasiões também não corresponde ao quadro processual: a empresária foi notificada, teve oportunidade de constituir mandatários e apresentou múltiplos requerimentos. E fugiu A ausência física não resulta de impedimento judicial, mas de uma escolha sua de não regressar a Angola desde 2017. Duma fuga.

6-A defesa da sua gestão da Sonangol e a negação de desvios de fundos também não se sustenta. A contratação de consultores como a Boston Consulting Group e a PwC foi amplamente contestada devido à falta de transparência, aos valores pagos e à ausência de resultados proporcionais. A acusação de que é “mentira” que estes consultores não prestaram serviços ignora que o problema não é a existência de serviços, mas sim a forma como foram contratados, os montantes envolvidos e a ligação entre consultores e empresas do seu círculo empresarial.

7-A queixa sobre a “expropriação” da Unitel pelo Estado angolano também omite elementos essenciais. A Unitel não foi construída “do zero” sem apoio público: beneficiou de licenças atribuídas pelo Estado, de um mercado protegido e de decisões regulatórias que favoreceram os seus acionistas. Além disso, a disputa sobre dividendos não pagos à Sonangol — no valor de centenas de milhões de dólares — foi um dos fatores que motivou a intervenção estatal. A narrativa de que o Estado destrói a confiança dos investidores estrangeiros ignora que a própria estrutura acionista da Unitel era opaca e marcada por conflitos internos.

8-A crítica à governação económica de João Lourenço perde credibilidade quando usada por alguém cuja própria atuação empresarial contribuiu para a fragilidade económica de Angola. A referência ao IVA de 14% como causa de pobreza é simplista e ignora fatores estruturais como a queda do preço do petróleo, a dívida pública acumulada durante o período em que o seu pai governou e a necessidade de reformas fiscais para estabilizar as contas do Estado.

9-Quanto ao futuro do MPLA e às eleições de 2027, a defesa de múltiplas candidaturas no congresso é uma posição política legítima, mas a ameaça de não apoiar o partido se a liderança atual se mantiver revela mais uma tentativa de reposicionamento pessoal do que uma reflexão sobre a democratização interna do partido. A crítica só surge quando o partido deixa de servir os seus interesses.

10-Finalmente, a visão que apresenta para Angola — menos impostos, justiça independente, plano económico claro — é paradoxal. Durante décadas, Isabel dos Santos beneficiou de um sistema económico fechado, de decisões administrativas favoráveis e de um ambiente judicial que não questionava a origem dos seus ativos. A súbita defesa de reformas estruturais coincide com o momento em que deixou de beneficiar desse sistema.

No conjunto, a entrevista de Isabel dos Santos é uma tentativa de reconstruir a sua imagem pública e de reescrever processos que estão amplamente documentados.

A narrativa apresentada não resiste ao confronto com os factos, com a cronologia das operações financeiras e com a realidade institucional de Angola e Portugal. É uma pura farsa mentirosa.