SAVIMBI ORDENOU A MORTE DO GENERAL BEN BEN

ByMax Tchipuso

2 de Junho, 2026

Arlindo Chenda Pena, o homem que a história militar passou a conhecer como General Ben Ben, foi uma das figuras mais notáveis e carismáticas de toda a luta armada em Angola. O seu apelido foi uma homenagem ao líder revolucionário argelino Ahmed Ben Bella, uma referência mundial na busca pela liberdade e autodeterminação. Com apenas 13 anos de idade, motivado por ideais que acreditava serem de justiça, aderiu à UNITA — movimento fundado pelo seu próprio tio, Jonas Malheiro Savimbi — onde rapidamente se destacou pela inteligência, coragem e capacidade de liderança, ascendendo na hierarquia militar até se tornar um comandante de inspiração para todos os que com ele serviam.

A sua competência levou-o a receber formação especializada na Europa e, posteriormente, a qualificar-se como instrutor de artilharia na prestigiada Academia Real de Guerra de Marrocos, demonstrando o elevado nível técnico e estratégico que possuía.

Em 1985, já com o posto de Coronel, assumiu a chefia do Estado-Maior da Frente “Estamos a Voltar”, das Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA). Nesse mesmo ano, numa das suas façanhas mais lendárias, quando as forças do governo pressionavam fortemente a UNITA na região sul de Mavinga, Arlindo Pena e os seus homens marcharam a pé, partindo de Malange, percorrendo centenas de quilómetros durante duas semanas em terreno difícil, para montar uma operação de socorro e defender as posições do movimento. A sua determinação foi tal que, no espaço de um ano, foi promovido a General de Divisão e, em Dezembro de 1989, com apenas 34 anos de idade, assumiu o cargo máximo de Chefe do Estado-Maior-General das FALA, substituindo o General Demóstenes Chilingutila. Era, sem dúvida, o rosto mais forte e promissor da estrutura militar da UNITA.

Com o processo de paz e os Acordos de Bicesse, em 1991, integrou o processo de junção militar entre as FALA e as FAPLA, que deu origem às Forças Armadas Angolanas (FAA), onde integrou o grupo de generais do movimento que passaram a servir as instituições do Estado. Contudo, na sequência das eleições gerais de 1992, alegando não concordar com o resultado e apontando para supostas fraudes, o General Ben Ben foi um dos 11 generais da UNITA que deixaram as FAA para regressar à base militar.

Durante os confrontos que se seguiram em Luanda, em Setembro desse ano, houve mesmo a notícia difundida pela Televisão Pública de Angola (TPA) de que ele teria sido morto, tendo inclusivamente sido apresentado um corpo como sendo o seu. Mas a verdade é que o General escapou ileso e refugiou-se na província do Bengo, onde foi acolhido por outros altos quadros do movimento, como os generais Galiano da Silva, conhecido por Bula Matadi, e Abílio Kamalata Numa, que também tinham abandonado a capital.

O General Ben Ben era respeitado e temido por todos como um dos melhores estrategas que a UNITA alguma vez teve. Porém, o ponto de viragem que selou o seu destino aconteceu em 1995, após a perda trágica do seu irmão, Salupeto Pena — também uma figura de grande relevo na organização. Profundamente abalado e desiludido com o rumo que a guerra tomava, numa reunião de direcção estratégica, Ben Ben confrontou abertamente o seu tio e líder, Jonas Savimbi. Disse, com firmeza, que já não via sentido em continuar a guerra, que estava cansado de ver o seu povo sofrer e os seus irmãos morrerem, e que já não tinha moral para continuar a lutar contra o MPLA, defendendo publicamente que era chegada a hora de procurar caminhos de negociação e paz definitiva.

Savimbi, vendo isto como uma afronta à sua autoridade e uma traição às suas ordens, terá reagido com fúria, proferindo palavras que se tornaram sombrias profecias: “Vais morrer como os teus irmãos!”. Naquele momento, destituiu-o do cargo de Chefe do Estado-Maior, passou a tratá-lo apenas por “Bock” — um termo depreciativo, significando que deixava de ser comandante para ser um simples soldado — e ordenou o seu regresso a Luanda.

Mas a decisão já estava tomada antes mesmo da discussão. Savimbi já havia dado instruções secretas aos seus homens de confiança, os chamados Katchatchas, em Luanda, para eliminá-lo. Numa festa que parecia ser de confraternização entre quadros do movimento, o General Ben Ben foi envenenado. Ainda foi levado com vida para a África do Sul na esperança de tratamento, mas já era tarde: a acção letal tinha cumprido o seu desígnio, e um dos maiores militares que Angola conheceu perdeu a vida, vítima daquilo que ele próprio quis combater: a continuação da guerra e a falta de liberdade de opinião dentro da sua própria organização.

Este é um episódio histórico que revela, de forma clara e dolorosa, a cultura que imperou durante muito tempo na UNITA: a prática de silenciar, eliminar e perseguir todos aqueles que, em dado momento, ousavam pensar diferente, defender a paz ou questionar o poder absoluto. Até aos dias de hoje, a história regista que todos os que, dentro das fileiras daquele movimento, contrariaram a linha dos seus líderes acabaram por ter destinos semelhantes, em circunstâncias misteriosas ou trágicas.

É com base nestas lições da nossa história que fazemos um apelo consciente aos cidadãos: a memória destes acontecimentos deve guiar as nossas escolhas. Votar na UNITA é, infelizmente, votar num passado marcado por divisão, perseguição e desgraça. O caminho de paz, de reconciliação nacional e de respeito pela vida humana é construído com quem defende a unidade, o diálogo e a dignidade de todos os angolanos.