A BBC noticia as aventuras dos russos em Angola.

ByAnselmo Agostinho

14 de Março, 2026

Uma notícia do serviço russo da BBC, a prestigiada emissora britânica, relata de forma muito objetiva um dos episódios mais enigmáticos e politicamente reveladores da relação entre Angola e a Rússia.

No dia 28 de julho de 2025, Luanda viveu a sua jornada mais violenta desde o fim da guerra civil: uma greve de taxistas contra o aumento do preço dos combustíveis degenerou numa onda de protestos que bloqueou estradas, enfrentou as forças de segurança e terminou com 29 mortos e mais de 1.200 detenções.

Tal evento ocasionou a detenção de dois cidadãos russos — Igor Ratchin, apresentado como um turista de Ryazan, e Lev Lakshtanov, um tradutor veterano — cuja presença no epicentro da convulsão social levantou suspeitas imediatas.

O que poderia parecer um equívoco ou um azar geográfico revelou‑se, segundo a investigação das autoridades angolanas, a face visível de um realinhamento estratégico de Angola rumo ao eixo transatlântico e de uma crescente intolerância do governo de João Lourenço perante interferências russas no seu novo percurso diplomático e económico.

A Procuradoria angolana imputa aso russos 11 crimes graves, incluindo espionagem, corrupção ativa de funcionários e organização de um grupo terrorista.

O julgamento está marcado para 24 de março de 2026 e promete tornar‑se um marco na justiça angolana.

A acusação sustenta que ambos integravam um esquema de desinformação digital destinado a incitar o caos, fabricando e disseminando notícias falsas, entre elas supostas ordens governamentais para a “neutralização imediata” de manifestantes — expressão que, no contexto angolano, remete para execuções sumárias.

Para a lei angolana, a mera intenção de causar danos à integridade e independência nacional ou de minar as instituições do Estado basta para enquadrar o crime de terrorismo.

A figura de Igor Ratchin é particularmente reveladora da sofisticação — e excentricidade — da chamada “tecnologia política” russa.

Antes de chegar a Luanda, Ratchin tinha sido estratega de bastidores da Rússia Unida e fora premiado em 2024 pela campanha “Desembarque de Xamãs e Lamas”, na Sibéria, onde utilizou líderes espirituais para mobilizar eleitores de forma heterodoxa.

Era especialista em “mimetismo de mobilização”, uma técnica que consiste em fazer agentes oficiais passarem‑se por ativistas independentes para contornar a rejeição popular.

 Em Angola, este método terá sido replicado através de intermediários locais, como o jornalista desportivo Amor Karlo Tomé e o político Oliveira Francisco, que funcionariam como rostos angolanos de uma operação destinada a organizar protestos e a construir uma narrativa de revolta sob o pretexto de atividades culturais associadas ao futuro — e nunca inaugurado — “Centro Russo”.

A investigação angolana expôs ainda a rede “Ciência Política Africana”, um projeto que sobreviveu à morte de Yevgeny Prigozhin em 2023.

Após a queda do líder do Grupo Wagner, as operações de influência passaram para o controlo do SVR, o Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia.

A ironia geopolítica é evidente: a inteligência formal russa herdou a informalidade caótica das operações psicológicas de Prigozhin, integrando antigos consultores do mercenário em estruturas estatais como a Rossotrudnichestvo.

A operação em Angola decorreu em duas vagas: a primeira, liderada por Olga Smirnova, que atuou no terreno a partir de julho de 2024; a segunda, sob comando de Igor Ratchin, iniciada em outubro do mesmo ano.

A rede incluía ainda figuras conhecidas como Maxim Shugaley e Samer Sueifan, especialistas em operações de influência que já tinham passado por prisões na Líbia e no Chade.

Este caso surge num momento em que Angola realiza uma transição profunda, afastando‑se da dependência histórica de Moscovo para consolidar a sua posição na esfera ocidental.

 A antiga relação militar — que incluiu contratos de mil milhões de dólares em armamento em 2013 — deu lugar à visita histórica de Joe Biden e ao reforço da cooperação com os Estados Unidos.

No setor dos diamantes, a gigante russa Alrosa foi obrigada a abandonar a sua participação na mina de Catoca, cuja quota passou para fundos de Omã, num gesto que simboliza a substituição pragmática da Rússia por novos parceiros. [N.do Editor: entretanto já denunciámos na Tribuna como sendo uma mera operação de fachada. Os Russos continuam a tentar controlar a Catoca].

A rede russa terá também tentado sabotar o Corredor do Lobito, um projeto ferroviário financiado pelo Ocidente, criando um site clone com um erro tipográfico propositado — “coridor” — para disseminar falsos relatórios sobre alegados danos ambientais.

O elemento mais intrigante deste caso é, porém, o silêncio absoluto do Kremlin.

Ao contrário do que aconteceu no Chade, onde a intervenção diplomática russa foi rápida e eficaz, em Angola Moscovo mantém‑se calada há mais de sete meses.

 Segundo fontes próximas do corpo diplomático russo em Luanda, a lógica é simples: estes agentes falharam e tornaram‑se um fardo para a diplomacia oficial. O silêncio funciona, assim, como uma mensagem política: a Rússia não garante imunidade aos seus estrategistas quando estes comprometem os seus interesses ou fracassam em operações de desestabilização.

O caso de Ratchin e Lakshtanov é, por isso, mais do que um episódio policial.

É um aviso para a rede de estrategistas russos que ainda tentam replicar em África os métodos da era Prigozhin e um sinal de que Luanda está disposta a impor limites claros às ferramentas de manipulação digital e ao mimetismo político.

A grande questão que se coloca agora é se a influência russa conseguirá sobreviver no continente apenas através de operações psicológicas e desinformação, ou se a economia real — traduzida em infraestruturas ferroviárias, exploração de diamantes e financiamento ocidental — já venceu definitivamente a batalha estratégica em Angola. Com o julgamento marcado para março de 2026, o destino dos dois russos será o barómetro final desta nova era.