A estratégia russa de reentrada em Angola está hoje mais avançada do que aparenta, e o seu sucesso não se explica apenas pela capacidade de Moscovo em operar através de intermediários.
Explica‑se, sobretudo, porque dentro do aparelho de Estado angolano existe quem esteja disposto a facilitar essa agenda (de reentrada russa) — mesmo quando ela colide frontalmente com os interesses estratégicos e a segurança nacional do país.
A combinação entre o African Bank of Oman, que funciona como plataforma financeira de fachada, e a Sociedade Mineira de Catoca, onde antigos quadros da Alrosa estão a ser reintroduzidos sob cobertura omanita, revela um padrão demasiado consistente para ser ignorado: a Rússia está a regressar pela porta da frente, mas com um passaporte emprestado.
A sucessão de decisões que permitiram esta reaproximação não é fruto de ingenuidade. É fruto de alinhamento. O ABO surge precisamente no vazio deixado pelo VTB, replicando a arquitectura de controlo financeiro que Moscovo perdeu após as sanções. Em paralelo, o novo proprietário omanita da Catoca propõe a reintegração de técnicos russos em posições‑chave — desde a direcção financeira até à avaliação e comercialização de diamantes — reconstruindo, peça a peça, o ecossistema operacional que antes garantia à Rússia influência directa sobre um dos sectores mais sensíveis da economia angolana.
Nada disto seria possível sem facilitação interna.
Alguém, ao nível do governo, está a abrir caminho a esta operação.
Alguém, ao nível do governo, está a permitir que estruturas críticas do Estado sejam reocupadas por interesses estrangeiros que Angola já tinha afastado por razões de risco reputacional, financeiro e geopolítico.
Alguém, ao nível do governo, está a colocar a agenda russa acima da soberania económica do país.
E quando decisões desta magnitude são tomadas sem escrutínio, sem transparência e contra o interesse nacional, não se trata apenas de má governação — trata‑se de comprometimento estratégico.
O que está em causa não é apenas a reentrada de quadros russos.
É a reconstituição de um corredor de influência que Angola já tinha desmantelado.
É a cedência de sectores estratégicos a actores que operam através de intermediários precisamente para evitar sanções e vigilância internacional.
É a vulnerabilidade de um Estado que, ao permitir estas operações, abdica de controlar os seus próprios activos críticos.
E é, acima de tudo, a constatação de que dentro do governo há quem esteja disposto a sacrificar a segurança nacional em nome de interesses externos.
Há um traidor da nação (ou vários) no governo!

