Há uns meses, o conhecido jornalista israelita Yonah Jeremy Bob publicou um extenso artigo no reputado jornal Jerusalem Post em que explicava a forma como ex-agentes da Mossad interferiam nos processos democráticos africanos.

Nessa peça ocupava especial relevo a consultora israelita da UNITA e de Adalberto Costa Júnior, Adi Timor.

Bob começa por contar a história da intervenção de um grupo de israelitas no Gana. Conta que em Agosto de 2020, 14 israelitas chegaram num jacto privado a Accra, capital do Gana. Afirmavam-se “especialistas em tecnologia da informação”, trabalhadores de tecnologia que vinham ajudar a indústria local. Contudo, de acordo com relatos posteriores, esse grupo não teria ido ao Gana para reuniões de negócios comuns. Viria com uma agenda para influenciar uma eleição nacional no Gana de Dezembro 2020. De facto, dois deles foram identificados como Amit Waisal e Adi Danino, ex-oficiais de inteligência israelitas da Mossad. Os outros membros do grupo poderiam ter origens semelhantes. Aparentemente o grupo entrou no país para ajudar o presidente em exercício Nana Akufo-Addo na eleição de 7 de Dezembro de 2020. Este foi eleito com uma margem mínima, o que levou o seu oponente, o ex-presidente John Mahama a pedir ao Supremo Tribunal local que invalidasse o resultado da eleição como ilegítimo devido a irregularidades.

Ainda hoje não é claro o papel que os israelitas tiveram nessa eleição. O que é certo é que ex-funcionários de inteligência israelitas estão cada vez mais e discretamente envolvidos em eleições e actividades governamentais em toda a África.

Se ter estrategas políticos de Israel a trabalhar em países em desenvolvimento pode ser política e economicamente lucrativo e não ser ilegal, já é estranho quando esses estrategas sejam ex-funcionários da inteligência israelita que usam as técnicas obscuras que aprenderam no Mossad ou na Unidade 8200 (unidade de espionagem cibernética de Israel) em campanhas eleitorais africanas.

A verdade é que nos últimos anos, tem havido um número crescente de relatórios públicos alegando tais actividades, sobretudo na área das campanhas digitais, por empresas israelitas compostas por ex-funcionários da Mossad.

O PAPEL DE ADI TIMOR

Neste âmbito assume destaque Adi Timor, agora conhecida em Angola como consultora de Adalberto da Costa Júnior e da Unita. Em declarações ao Jerusalem Post, Adi Timor, apresentada como conselheira política com mais de 10 anos de experiência em África, disse que a propagação da Internet de alta velocidade mudou o continente. Ela explicou, que entre 2012 e 2017, as pessoas que recebem notícias usando uma ligação com a Internet passaram de cerca 10% para 90% na Serra Leoa, por exemplo. “Agora todos têm um smartphone. Há muito Wi-Fi disponível. O mundo está aberto”, afirmou.

No Malawi, Adi Timor trabalhou como conselheira do presidente Lazarus Chakwera, que foi eleito em Junho de 2020. O que Timor considerou mais significativo foi que Chakwera foi eleito após o tribunal constitucional do Malawi ter anulado a primeira eleição em Maio de 2019 devido a adulteração de votos.

A ESTRATÉGIA DA UNITA

O que é curioso é que a estratégia aparente de Adi Timor usada no Malawi parece ser a que está a querer utilizar com a Unita em Angola. Uma forte barragem digital com uma intensidade e ataque nunca vista no passado, a que acrescerá a contestação judicial de resultados que não lhe sejam favoráveis.

Várias fontes explicaram ao Jerusalem Post que a tecnologia sofisticada israelita está agora disponível em quase todos os lugares para campanhas de desinformação nas redes sociais que visam manipular a opinião pública e os resultados das eleições.

Nas democracias ocidentais, esses tipos de métodos são mais propensos a serem descobertos do que na África, onde a supervisão é mais fraca.

Parte do problema é que algumas empresas israelitas foram flagradas supostamente envolvidas em operações ilegais ou sombrias na África, às vezes relacionadas a eleições e às vezes com autoridades locais.

Os factos estão aqui e devem ser do conhecimento de todos os angolanos: Adalberto da Costa Júnior contratou Adi Timor, uma israelita especialista em campanhas eleitorais digitais. Há uma intervenção crescente de antigos agentes da Mossad nas eleições africanas, de forma pouco transparente e não condicente com os parâmetros de transparência exigidos.

A agitação e subversão digital são marca das capacidades dos ex-funcionários da Mossad, por isso não admira, a intensidade da actividade digital a favor da Unita e Adalberto que está a ocorrer nas redes sociais angolanas. São os ex-espiões israelitas em acção, como já estiveram noutros países africanos.