UM recente texto da prestigiada revista Jeune Afrique ( 7 de Maio de 2026)descreve a mudança profunda que a economia angolana tem vivido desde 2017, argumentando que o país regressa ao radar dos investidores não por um acaso conjuntural, mas porque está a construir, de forma gradual, um quadro de estabilidade macroeconómica que não existia nas duas décadas anteriores.
Depois de anos marcados por ciclos violentos de expansão e colapso ligados ao petróleo, por uma recessão prolongada e por uma forte erosão do rendimento per capita, Angola começa a demonstrar capacidade para gerir o risco em vez de ser dominada por ele.
A flexibilização do regime cambial desde 2018, apesar de episódios de volatilidade como a forte depreciação de 2023, permitiu aproximar o kwanza dos seus fundamentos e reduzir a distorção entre mercados oficial e paralelo, tornando o câmbio um verdadeiro amortecedor de choques externos. Paralelamente, as reservas internacionais mantêm-se estáveis, entre sete e oito meses de importações, um nível que reforça a resiliência num contexto de condições financeiras globais mais duras e de maior pressão sobre o serviço da dívida.
A inflação, historicamente elevada e errática, entrou numa trajectória de desaceleração visível: depois de ultrapassar 30% em meados de 2024, caiu para a zona dos 10% no final de 2025, apoiada por uma política monetária inicialmente restritiva e depois gradualmente mais acomodatícia, sinalizando que a arquitectura institucional de controlo de preços começa a ganhar credibilidade.
No plano fiscal, o país abandona a lógica de gastos pró‑cíclicos e ajustamentos abruptos, adoptando regras ancoradas na Lei da Sustentabilidade Orçamental de 2020.
A dívida pública, que atingiu cerca de 120% do PIB em 2020 e voltou a subir com a depreciação cambial de 2023, segue agora uma trajectória descendente graças a uma gestão mais activa, substituindo dívida comercial cara por instrumentos mais longos e baratos, reduzindo passivos indexados a moeda estrangeira e eliminando gradualmente empréstimos colateralizados em petróleo.
Contudo, a transformação estrutural exigirá um esforço colossal: segundo o Banco Africano de Desenvolvimento, Angola terá de mobilizar cerca de 14 mil milhões de dólares anuais até 2030, sobretudo para infra‑estruturas e capital humano, montante impossível de alcançar sem investimento privado e externo.
É neste quadro que o corredor do Lobito assume centralidade estratégica.
A ligação ferroviária entre a Zâmbia, a RDC e o porto angolano pode reduzir custos logísticos, consolidar o excedente externo, atrair investimento directo e servir de plataforma para diversificação produtiva e criação de emprego, articulando‑se com programas como o desenvolvimento de cidades secundárias, a diversificação económica e o futuro AgriConnect.
Para os investidores, três mensagens emergem: Angola está a substituir volatilidade por gestão de risco; a política económica, e não o preço do petróleo, começa a ditar o rumo macroeconómico; e, apesar de desafios persistentes — inflação ainda elevada, sensibilidade cambial, riscos de concentração —, o país dispõe hoje de reservas mais robustas, dívida em queda e um conjunto de reformas coerentes.
Num contexto internacional marcado por incertezas energéticas, a estabilidade relativa de Angola e o seu compromisso reformista tornam‑se ainda mais atractivos.
O país, conclui o texto, não oferece uma solução instantânea, mas uma tendência: a de uma economia que reconstrói credibilidade, inova nos instrumentos financeiros — como o recente modelo “dívida por desenvolvimento” apoiado pelo Banco Mundial — e avança, de forma gradual mas firme, para uma estabilidade macroeconómica mais sólida.

