O activismo mercenário em Angola

ByAnselmo Agostinho

18 de Janeiro, 2026

A trajectória do activismo em Angola é, ao mesmo tempo, um espelho das aspirações de liberdade do país e um retrato das suas contradições mais profundas.

Durante os primeiros anos em que ganhou visibilidade pública, o activismo surgiu como uma força renovadora: jovens, intelectuais, trabalhadores e cidadãos comuns encontraram nele um espaço de expressão política num ambiente marcado por décadas de silêncio imposto, medo social e controlo institucional. Era, acima de tudo, uma afirmação de cidadania. Representava a possibilidade de exigir transparência, denunciar abusos e reivindicar direitos fundamentais num país que procurava reinventar-se após longos períodos de conflito e autoritarismo.

Com o tempo, porém, esse impulso inicial começou a fragmentar-se.

A profissionalização informal do activismo, a crescente mediatização das figuras mais visíveis e a entrada de interesses económicos e políticos no espaço público transformaram profundamente o campo.

Muitos activistas, sobretudo os mais conhecidos (Marques, Gama, Campos e outros), passaram a operar num ambiente onde a independência se tornou difícil de sustentar. A proximidade a grupos económicos, redes de influência e oligarquias políticas corroeu a credibilidade de vozes que antes se apresentavam como guardiãs da integridade cívica. Em vez de agentes de mudança, alguns activistas tornaram-se instrumentos de agendas particulares, frequentemente alheias ao interesse público.

Activistas que antes denunciavam abusos passaram, em certos casos, a reproduzir lógicas de manipulação, difamação e polarização. A crítica deixou de ser um exercício de rigor e passou a ser, demasiadas vezes, um instrumento de ataque selectivo. A má-língua, a acusação fácil e a ausência de verificação factual substituíram o debate sério e a construção de alternativas.

O resultado é um paradoxo: em vez de contribuírem para o aprofundamento da democracia, alguns sectores do activismo acabam por reforçar a má governação que dizem combater. Ao alinharem-se com facções de poder, tornam-se peças de um jogo que perpetua a instabilidade, o descrédito institucional e a desconfiança pública. A sua actuação, longe de fortalecer a sociedade civil, fragiliza-a, porque transforma o espaço cívico num campo de disputa instrumentalizado, onde a verdade é secundária e a coerência ética é sacrificada em nome de alianças oportunistas.

Este cenário tem consequências profundas. A população, já marcada por décadas de desilusão política, vê-se confrontada com um activismo que perdeu parte da sua autoridade moral. A crítica pública torna-se ruidosa, mas pouco transformadora. A denúncia existe, mas raramente se traduz em propostas consistentes.

O verdadeiro activismo morreu.