África, Angola e João Lourenço

ByKuma

24 de Setembro, 2026

A intervenção do Presidente João Lourenço na 81.ª Assembleia Geral das Nações Unidas revela-se profundamente alinhada com as preocupações sobre a desordem global, a erosão do direito internacional e o ressurgimento da “lógica da força” nas relações entre Estados.

Principais Aspetos e Tónicos da Intervenção

Alerta Contra a “Anarquia Mundial”: O Chefe de Estado angolano foi contundente ao afirmar que o mundo se aproxima “assustadoramente” de uma conflagração global devido à subalternização das regras internacionais e à imposição de visões unilaterais de potências em benefício próprio.

A Urgência da Reforma da ONU: Num momento em que o multilateralismo cambaleia face aos conflitos no Médio Oriente, na Ucrânia e em várias zonas do continente africano, enfatizou a necessidade imperativa de dotar as Nações Unidas, e em particular o Conselho de Segurança, de maior eficácia, representatividade e capacidade de resposta.

A Diplomacia como Arma Suprema: Numa altura em que os ventos sopram fortemente para o militarismo e para a especulação geopolítica, o apelo de que “nenhuma arma é mais poderosa que a diplomacia” serve como um lembrete sóbrio para a comunidade internacional.

Solidariedade Internacional e Soberania: O discurso destacou igualmente a rejeição de bloqueios e sanções unilaterais, dando o exemplo de Cuba, e relembrou o percurso de Angola na busca pela paz e reconciliação, num ano em que o país assinala marcos importantes na sua afirmação diplomática regional e global.

Em suma, foi uma intervenção realista e de forte exortação ética. Num cenário internacional dominado por interesses obscuros e pela desregulação informativa e económica que afeta os Estados em desenvolvimento, o discurso colocou o dedo na ferida: sem uma arquitetura multilateral genuinamente justa e instituições internacionais fortes, os países mais vulneráveis continuarão a ser os principais alvos da instabilidade global.

Infelizmente a UNITA, como maior Partido da Oposição parlamentar, insiste no isolamento pretensamente vitorioso, e ignora os desafios nacionais, cedendo aos poderes especulativos obscuros que hoje se instalaram no xadrez global.
Bençãos dos bispos, seminários teóricos de economia, dependências externas factuais, são muros erguidos que vedam o diálogo construtivo. O País cresce, o desenvolvimento é visível, existe um rumo, mas há necessidade de uma reestruturação do Estado para dar resposta aos desafios da desburocratização e respostas mais céleres ao investimento estrangeiro, primordial para a alavancagem da Nação angolana.

Há percepção cada vez mais enraizada que o MPLA vai liderar a marcha iniciada em 2017, escrutinada em 2022, e com realismo assumir a responsabilidade de concretizar uma profunda Revisão Constitucional em 2027.

A Nova Arquitetura da Soberania: Como os Estados Africanos Podem Superar a Geopolítica da Desestabilização

A promessa de um “fim da História” e de um mundo globalizado e pacífico após a Guerra Fria revelou-se uma miragem. Onde antes existiam linhas vermelhas claras e confrontos ideológicos estruturados, assistimos hoje à ascensão de uma geopolítica fragmentada, dominada por interesses especulativos opacos, guerras híbridas e a instrumentalização digital.

Para países como Angola, que carregam as cicatrizes profundas de conflitos prolongados e buscam consolidar a sua reconstrução e desenvolvimento, este cenário manifesta-se através de oposições e movimentos frequentemente manipulados por forças externas e redes de poder opacas. O objetivo destas agendas não é a construção democrática, mas sim a erosão institucional, o bloqueio socioeconómico e a perpetuação de uma vulnerabilidade que serve apenas interesses particulares.

As redes sociais, na sua atual fase de desregulação transnacional, tornaram-se o teatro principal desta guerra psicológica e informacional, amplificando o divisionismo e fabricando crises artificiais.
Neste contexto adverso, como podem os Estados jovens de África defender-se deste pesadelo e proteger as suas gentes? A resposta exige uma estratégia multifacetada, firme e ancorada na soberania moderna.

Reforço Institucional e Resiliência do Estado de Direito

A melhor defesa contra a instabilidade externa é a robustez interna.

Legitimidade pela transparência: Os Estados devem combater ativamente a corrupção e garantir que os recursos naturais e financeiros beneficiem diretamente as populações, reduzindo o fosso social que serve de terreno fértil para a manipulação política.

Instituições à prova de choque: O poder judicial, os órgãos de regulação e os sistemas de segurança precisam de autonomia e capacitação técnica para agir de forma célere contra tentativas de subversão institucional e branqueamento de capitais.

Soberania Digital e Regulação da Informação

A desinformação algorítmica é hoje uma arma de destruição de democracias.

Educação para os Média e Literacia Digital: É urgente capacitar os cidadãos, em especial as gerações mais jovens, para identificar notícias falsas, manipulações emocionais e campanhas de ódio orquestradas digitalmente.

Parcerias Estratégicas Tecnológicas: Os Estados africanos devem cooperar na criação de marcos regulatórios soberanos para as plataformas digitais, exigindo maior transparência aos gigantes tecnológicos e combatendo a impunidade de contas falsas e redes de desestabilização importadas.

Diversificação Económica e Autonomia Estratégica

A dependência económica de fatores externos torna os países vulneráveis à chantagem geopolítica e à especulação financeira global.

Foco na Produção Local e Segurança Alimentar: Reduzir a dependência de importações essenciais fortalece a resiliência nacional face a crises globais.

Industrialização e Emprego Jovem: Criar oportunidades reais para a juventude é a única forma de esvaziar o discurso inflamado e radical que alimenta a contestação destrutiva.

Diplomacia Ativa e Solidariedade Regional (SADC e União Africana)

Nenhum Estado africano conseguirá vencer esta guerra híbrido-informacional isolado.

Frente Comum contra a Interferência: Os blocos regionais devem intensificar a partilha de inteligência estratégica para identificar fluxos financeiros ilícitos e redes transnacionais de desestabilização.

Voz Ativa no Plano Internacional: África tem de exigir respeito pelas suas soberanias nos fóruns multilaterais, recusando servir de tabuleiro de xadrez para potências rivais ou fundos especulativos globais.
O trauma histórico não pode transformar-se numa condenação eterna à instabilidade. Angola e os demais Estados jovens de África possuem a resiliência e a riqueza humana necessárias para transformar este momento de desafio global num ponto de viragem.

A defesa da soberania no século XXI já não se faz apenas com trincheiras físicas, mas com a solidez das instituições, a verdade da informação e a justiça social. Só assim o futuro deixará de ser refém das sombras do passado e dos interesses obscuros do presente.

Milhares de escolas, milhões de alunos, formação profissional, transformação do produto, industrialização, hospitais de referência, portos, ferrovias, parques industriais, novas tecnologias, turismo, privatizações, finanças controladas, estabilidade cambial, segurança, muito do que foi conquistado desde 2017, havendo a consciência do muito que há para fazer, são necessários meios e que haja quem o faça, é esse o caminho que falta percorrer para que democraticamente como adultos possamos dar as boas vindas à Nova República.