Microfísica do Quotidiano

ByKuma

6 de Novembro, 2026

Hoje a democracia rege-se cada vez menos pelo modelo filosófico, o desafio reside no pragmatismo pessoal das lideranças, baseadas na confiança, na segurança, no prestígio e na obra feita.

As disputas deixaram de ser programáticas, os confrontos assemelham-se a um jogo com equipas identificadas pelas suas cores e, a realidade dita-nos que elas não querem marcar golo, apenas querem ter razão e aspiram a que a outra não exista. É assim em Angola, é assim em todas as democracias no mundo.

A crueldade, na microfísica do dia a dia, reside no facto de se criarem afetos identitários assentes na razão, a divisão é visceral, o outro nunca tem razão nem sequer deve existir. É aqui que se instala a irracionalidade do debate: o essencial deixa de ser a saúde, o ensino ou a habitação, dando lugar ao ruído do TikTok e aos cânticos de rua, onde desfilam grupos devidamente uniformizados que tentam abafar a grande maioria silenciosa.

Em 1989 caiu o Muro de Berlim, marcando a grande vitória da democracia e da liberdade. Contudo, ergueram-se outros muros e ficamos cada vez mais dependentes da macrofísica do Estado. No início deste século surgiram as redes sociais que, com a sua penetração maciça, esbateu a razão (ou a falta dela) e criou um mundo de ilusão moldado à nossa medida.

Há valores e vivências que transformaram as sociedades, e Angola não é exceção. A liberdade abre caminho às opções de escolha: consomem-se cada vez mais iogurtes, fiambre e carne bovina, vendem-se mais televisores, frigoríficos, viaturas, computadores e telemóveis. Isto é consequência de um rumo de desenvolvimento que não é veiculado pela propaganda das redes sociais digitais, mas que constitui uma realidade palpável que os agitadores tentam escamotear.

Há cada vez mais crédito bancário ao consumo e ao investimento, planos de empreendedorismo financiados pelo Governo e um sem-número de obras que escapam à vista dos avençados da capital. No entanto, há um interior do País que sente a proximidade da governação, traduzindo-se numa estabilidade alcançada através de ciclos de decisão cada vez mais curtos e eficazes.

A diferença substancial na política atual já não se cinge ao eixo entre a esquerda e a direita, nem às preocupações básicas com a habitação, o saneamento, o ensino e a saúde, reside antes no fosso entre a realidade governativa e o ruído demagógico de quem apenas aspira ao poder. João Manuel Gonçalves Lourenço desenhou habilmente uma estratégia de médio e longo prazo, projetada muito para além do seu mandato, enquanto a oposição age no imediatismo efémero do curto prazo.

Angola tem de ser pensada e governada com uma perspetiva de 30 a 50 anos. Contudo, o jornalismo, funcionando como correia de transmissão entre muros, limita-se a discutir o imediatismo. O Senhor Presidente da República é um homem informado, preparado e com uma vivência internacional ímpar, perfeitamente integrado nos grandes desafios globais, razão pela qual o País não pode prescindir da sua liderança e visão.

Hoje, entra-se no WhatsApp como quem empunha uma arma para difundir ideias, carregamos o comício no bolso. Mas, ao mesmo tempo, na mesma mesa de restaurante ou no mesmo meio de transporte, está outro cidadão a veicular a sua própria narrativa. Contudo, o mundo é muito mais do que isso e está em permanente evolução. Existe o algoritmo que se molda aos nossos desejos: se demonstrar interesse em comprar uma camisola do 1º de Agosto, surgem de imediato propostas comerciais, tal como acontece para quem procura do Petro, do Benfica ou do Real Madrid.

A maioria silenciosa já não se deixa enredar por promessas vazias nem se deixa influenciar por aqueles que, comodamente, vivem em cima do muro da divisão. Estes últimos, sim, vivem exclusivamente da política. Assistimos hoje a uma metamorfose factual: já não se fazem promessas, geram-se dúvidas e incertezas, acenando-se com uma vaga vontade de vencer e de ir tão longe quanto possível, esquecendo que o futuro constrói-se com o contributo de todos.

No entanto, há um caminho estrutural que Angola ainda precisa de percorrer, o qual poderá constituir a matriz da próxima Revisão Constitucional: a superação político-histórica das antigas siglas fundadoras, concebendo um memorial que encerre o seu ciclo como divisores da Identidade Nacional. Elas representam hoje fronteiras intransponíveis de uma herança enraizada a que urge pôr termo, constituindo um bloqueio inultrapassável à consolidação de uma verdadeira democracia de cidadãos. Sempre acreditei que João Manuel Gonçalves Lourenço estivesse talhado para ser o precursor deste desiderato histórico.
Segundo a filosofia aristotélica, o Povo vive politicamente uma dupla realidade, um fenómeno que também se observou nos Estados Unidos da América. Nixon disse certa vez aos seus assessores, com o seu habitual ar circunspecto, que Kennedy era bonito, bem falante, rico e vivia num mundo poderoso, enquanto ele próprio representava o oposto. No entanto, os sociólogos constataram que Kennedy simbolizava aquilo que os americanos gostariam de ser, ao passo que Nixon representava aquilo que eles eram. Nixon venceu.

Angola conta hoje com mais escolas e mais alunos em idade escolar, constituindo este o maior avanço na construção do futuro. Em cada escola serve-se uma refeição equilibrada em proteínas e calorias, e são estas realizações concretas que distinguem Angola no contexto africano perante as estatísticas internacionais.

“O verdadeiro desenvolvimento de uma nação não se mede apenas pelos quilómetros de estrada asfaltada ou pelas toneladas escoadas, mas pela capacidade de transformar o capital humano numa força autónoma e consciente. Quando o Estado investe na formação integral das novas gerações e na valorização do mérito, desarma os radicalismos e constrói uma cidadania imune à demagogia digital.  

O ano de 2027 será um marco de continuidade do rumo traçado. Já não se trata apenas de uma perceção: os indicadores revelam a esperança da cidadania no MPLA como matriz da mudança com estabilidade. Não haverá lugar para aventureiros oportunistas que se revelam, a cada dia que passa, como agentes hipotecários desta terra que a todos pertence. Este é o caminho do futuro, a certeza da democracia, da liberdade e do pragmatismo que nos conduzirá, em definitivo, à Nova República.