O Dilema da UNITA Rumo a 2027

ByKuma

6 de Agosto, 2026

As comemorações do aniversário do fundador Jonas Savimbi escancararam uma fratura geracional profundamente desequilibrada pelo conservadorismo. 

A UNITA debate-se com a herança de um passado inquisitorial e métodos arbitrários que colidem com as exigências da modernidade política.

O partido continua refém de uma teia oligárquica e familiar que resiste à evolução democrática, gerando um fosso intransponível entre a liderança e os anseios das novas gerações de angolanos.

A ascensão de Adalberto Costa Júnior (ACJ) fez-se sob a tutela e o apoio estratégico do núcleo duro liderado pelo presunçoso racista e separatista, anti-lusófono, Paulo Lukamba “Miau” Gato. 

Esta aliança condicionou a governação interna do partido. Ao colocar familiares e aliados em lugares-chave, a ala belicista perpetuou práticas de nepotismo, agravou a herança do ditador Jonas Savimbi, as mesmas que a base militante já havia rejeitado frogorosamente ao votar por duas vezes em Isaías Samakuva.

O resultado é uma liderança manietada por correntes que, sem credibilidade política genuína, flertam perigosamente com o belicismo e a insurreição popular como atalhos para o poder.Historicamente ancorada num vasto território rural, odiada na urbe, a UNITA encolheu geograficamente, circunscrita hoje a Luanda e a pontuais bastiões como Huambo, Bié e Benguela, virando as costas ao resto de Angola.

Ao fazer política “de fora para dentro”, o partido transformou-se numa estrutura dependente de conveniências oscilantes, incapaz de dialogar com a verdadeira cidadania e alheia aos problemas reais das populações, também, fora dos grandes centros urbanos.A UNITA confunde o desejo legítimo de alternância política com a construção de uma alternativa credível.

Ao alimentar-se de ruído estéril e de estratégias que roçam interesses obscuros, o partido afasta-se do papel essencial de força democrática construtiva, revelando-se incapaz de se adaptar aos cânones do Estado de Direito e perdendo a oportunidade histórica de liderar o futuro de Angola.

Ao invocar o fundador e Muangai, desperta os horrores de uma Jamba assassina, fundamentalista, apadrinha uma liderança vitalícia, e assume os desígnios da luta armada pelo poder.

Quando um partido político se esvazia na sua missão essencial e se converte numa mera “agência de emprego partidária”, onde os mandatos parlamentares e os lugares orgânicos servem apenas para a subsistência de uma elite e de redes de apadrinhamento, o fosso entre a direção e o país real torna-se intransponível.

Para inverter o ciclo de erosão e estagnação, o caminho a seguir exige uma cirurgia profunda de regeneração e o repensar absoluto da estratégia política que só se atinge em democracia verdadeira, transparente, o que atualmente nenhum dos fragmentos do Galo Negro desfruta. 

O partido tem de banir a prática de distribuir lugares com base em laços familiares, fidelidades a clãs militares ou favores de aparelho. A seleção de candidatos a cargos públicos e orgânicos deve passar por critérios estritos de competência técnica, idoneidade moral e provas dadas na sociedade civil, afastando definitivamente a sombra de qualquer tutela oligárquica.É urgente abandonar o conforto dos gabinetes na capital e das polémicas estéreis de redes sociais.

O partido tem de regressar fisicamente aos campos, às comunas e às províncias do interior (do Huambo ao Bié, de Benguela ao Cunene e ao Leste), seria um tributo à consolidação da democracia em Angola. 

A mensagem política não pode basear-se apenas no grito contra o regime, tem de apresentar soluções concretas para a agricultura, para o desemprego jovem nas províncias e para o desenvolvimento local descentralizado.Os eleitores não votam na mudança se perceberem que a oposição é um “vazio programático”.

A UNITA precisa de se dotar de governos sombra credíveis, compostos por especialistas técnicos capazes de apresentar políticas públicas viáveis para a saúde, educação, diversificação económica e combate à corrupção, precisa de uma identidade, mostrar aos angolanos que o partido não sabe apenas criticar o Executivo, mas que possui quadros preparados para gerir o Estado com rigor, transparência e respeito pelas instituições democráticas.Os militantes e dirigentes têm de compreender que a alternância democrática não se alcança por via do ressentimento ou de atalhos insurrecionais, mas sim pela conquista gradual, limpa e persuasiva da confiança da maioria dos cidadãos. 

Abandonar os discursos inflamados de cariz belicista ou demagógico que assustam o eleitorado moderado, consolidando a imagem de uma força política previsível, madura e fiável no plano interno e internacional.Será que o exemplo de João Manuel Gonçalves Lourenço, que como fez Mikhail Gorbachev que colocou fim à União Soviética, implementou uma mudança iniciada em 2017 e reforçada em 2022 no MPLA e no Sistema que gere o Regime Repúblicano em Angola, não serve de lição?

A UNITA ainda não entendeu que Angola mudou e está a queimar etapas irreversíveis que estão a mudar o panorama político, social e económico, modernizando o País, dignificando a cidadania, e consolidando a democracia? Ou será que a Nação angolana terá, definitivamente, de fazer o seu caminho sem a UNITA, que persiste na cegueira que a colocou na escuridão, numa depressão de corrente da ira do que não foi nem nunca será, se continuar a alhear-se dos amanhãs da Nova República?