Consciencialização

ByTribuna

15 de Julho, 2026
Angola Xiua.  Um Grupo de Ovimbundos das Províncias do Huambo e Benguela Rio Cunene 1973

O Legado da Rutura: Como João Lourenço Reconstruiu a Credibilidade de Angola
A história recente das transições políticas em África raramente é escrita com gestos de rutura drástica dentro do próprio partido do poder. Quando João Lourenço assumiu a presidência de Angola em 2017, poucos previam que o pacato antigo ministro da Defesa se tornaria o arquiteto de uma desmontagem cirúrgica do “status quo” que governou o país durante quase quatro décadas. Hoje, o veredicto das organizações internacionais é claro: Angola progrediu em aspectos estruturais fundamentais. No entanto, o verdadeiro feito de Lourenço não se mede apenas pelos números macroeconómicos, mas sim pela coragem política de liderar uma transição interna sem precedentes.
O Feito da Coragem Política: Romper com o Intocável
O principal mérito histórico de João Lourenço reside na quebra de um dogma político. Ao eleger o combate à corrupção e ao nepotismo como a bandeira do seu mandato, o presidente não hesitou em atingir os círculos de influência mais íntimos do regime anterior. O desmantelamento de monopólios que sufocavam o erário público e a recuperação de milhares de milhões de dólares de capitais desviados enviaram um sinal inequívoco aos mercados financeiros: Angola estava finalmente aberta a regras de jogo transparentes.
Essa postura exigiu um capital de risco político imenso. Ao avançar contra interesses instalados dentro do seu próprio partido, Lourenço forçou uma transição dolorosa, mas necessária, que substituiu o capitalismo de compadrio por uma abertura económica assente na atração de investimento estrangeiro direto e na privatização de ativos do Estado.
A Grande Jogada Diplomática: O Corredor do Lobito e o Reposicionamento Global
Se internamente as reformas foram disruptivas, externamente o feito de João Lourenço confina-se à genialidade diplomática. Angola conseguiu distanciar-se da imagem de um petroestado dependente e opaco para se afirmar como um parceiro estratégico e fiável tanto para o Ocidente como para o Oriente.
O exemplo mais flagrante deste sucesso é o Corredor do Lobito — a infraestrutura ferroviária transcontinental apoiada financeiramente pelos Estados Unidos e pela União Europeia para escoar os minerais críticos da República Democrática do Congo e da Zâmbia. Sob a sua liderança, Angola não só atraiu este colossal investimento ocidental, como manteve as suas históricas e robustas relações económicas com a China. Lourenço operou um verdadeiro golpe de mestre ao transformar o país num pivô de estabilidade e cooperação na África Subsariana. 
O Paradoxo do Reformador: O Custo Social da Austeridade
Contudo, o veredicto sobre este feito histórico depara-se com um paradoxo profundo. A própria natureza das reformas macroeconómicas exigidas pelas instâncias internacionais — como o Fundo Monetário Internacional (FMI) — impôs um preço elevado à população. A desvalorização cambial necessária para estabilizar o Kwanza, o fim gradual dos subsídios aos combustíveis e a consolidação fiscal traduziram-se numa inflação severa e na perda do poder de compra dos angolanos no dia a dia. Destruiu-se durante quatro décadas o país, as suas gentes foram sistematicamente esquecidas, guerra, corrupção, nepotismo, deixaram um rasto de desigualdade e uma centralização demográfica na capital e periferia, porque Angola sitiou-se em Luanda. 
Este é o grande teste ao legado do presidente. A credibilidade internacional e a robustez fiscal alcançadas nos gabinetes de Luanda e Washington ainda não se refletiram plenamente na melhoria das condições de vida, no emprego e no combate à pobreza extrema que fustiga as grandes periferias urbanas e as zonas rurais. A herança foi pesada, dramática, José Eduardo dos Santos concertou uma estratégia com a oposição da UNITA, silenciou-a a troco de benesses, e hoje vivem latindo como uma matilha raivosa porque nunca conseguiram apresentar-se como alternativa.
Veredicto: Um Estadista para Fora, um Desafio para Dentro
O feito de João Lourenço é inegável: ele resgatou Angola do isolamento institucional, limpou a face do Estado perante os credores internacionais e colocou o país na vanguarda da geopolítica regional africana. O “novo modelo angolano” é hoje elogiado de Genebra a Nova Iorque.
Porém, a verdadeira consagração deste feito histórico dependerá da sua capacidade de converter o prestígio diplomático e o equilíbrio macroeconómico em desenvolvimento humano real. O estadista que convenceu o mundo de que Angola mudou tem agora o desafio doméstico mais complexo da sua governação: convencer os próprios angolanos de que essa mudança também lhes pertence.
Faltam quadros qualificados em Angola, a cidadania avança lentamente para a consciencialização de uma mudança que levará anos a concretizar-se, irá culminar com a criação de autarquias, um impulso impossível atualmente, seria desastrosa a criação de autonomias concretas autárquicas até que que seja revista a atual Constituição da República.
Avizinha-se um novo ciclo que não obstante estarem forças idiossincráticas políticas e partidárias, tudo aponta para uma continuidade que a consciencialização da cidadania sabe não poder ser interrompida, uma aventura ou um regresso ao passado representados pela enferrujada UNITA, velha e deprimida, e de Higino Carneiro empurrado pelos corruptos saudosistas, seria um bloqueio catastrófico à responsabilidade do MPLA concretizar a Nova República.