Muito habilmente, as forças russas encontraram um novo instrumento financeiro em Angola, capaz de operar indiretamente, contornar sanções e retomar as tentativas de domínio político e económico do país.
Trata-se do African Bank of Oman (ABO) cujos beneficiários últimos são russos ou pessoas que actuam debaixo da influência russa.
A criação do African Bank of Oman em Angola ocorre num momento de reconfiguração geopolítica profunda.
A retirada acelerada de actores russos — tanto no sistema financeiro como no sector diamantífero — abriu um vazio estratégico que Omã surge, aparentemente, disposto a preencher.
Para compreender este movimento, é necessário reconstruir o que foi o chamado “espaço russo” em Angola, como se consolidou ao longo de duas décadas, porque colapsou de forma tão rápida e de que modo o ABO emerge como seu herdeiro funcional. Importa, contudo, sublinhar que esta reposição não é apenas funcional: apesar da fachada omanita, o controlo final do banco mantém ligações russas, o que transforma o projecto num exercício de window dressing (maquilhagem).
Durante anos, a presença russa assentou em três pilares centrais.
No sistema financeiro, o VTB África funcionou como plataforma de financiamento para projectos ligados a empresas russas, instrumento de projecção geoeconómica de Moscovo e ponto de contacto privilegiado entre elites angolanas e redes financeiras russas. A sua liquidação, precipitada por sanções internacionais e pela impossibilidade de operar em dólares e euros, deixou um vazio institucional significativo.
No sector diamantífero, a Alrosa desempenhou papel equivalente: accionista central da Sociedade Mineira de Catoca, parceira estratégica do Estado angolano e veículo de influência russa num dos sectores mais sensíveis da economia. A sua saída, igualmente acelerada por sanções e constrangimentos reputacionais, retirou à Rússia um dos seus principais instrumentos de soft power económico em África.
A estes dois eixos somava-se uma diplomacia económica assente em formação militar e técnica, cooperação energética e redes históricas herdadas do período soviético.
Este conjunto articulado de posições formava o que se pode designar como “espaço russo”: uma arquitectura de influência que assegurava a Moscovo relevância económica e política em Angola.
O colapso desse espaço, a partir de 2022, resultou da convergência de três factores: o impacto directo das sanções internacionais, que tornou inviável a operação de bancos e empresas russas; a necessidade de Angola se reposicionar como parceiro previsível e financeiramente estável, reduzindo riscos reputacionais; e a reorientação estratégica do país, marcada pela diversificação de alianças e pela diminuição de dependências geopolíticas.
O resultado foi um desmantelamento rápido e quase total da presença russa em sectores-chave.
É neste contexto que Omã entra em cena. A substituição não representa continuidade ideológica, mas sim reposição estrutural.
O African Bank of Oman surge precisamente no momento em que o VTB África desaparece, pedindo autorização do Banco Nacional de Angola para ocupar o espaço deixado por um banco estrangeiro de grande porte e integrando um pacote mais amplo de investimentos omanitas.
À superfície, trata-se de uma transição limpa e tecnicamente justificada.
Contudo, a arquitectura accionista e os mecanismos de controlo revelam que o ABO funciona, na prática, como sucessor do VTB — não apenas no nicho financeiro que ocupa, mas também na manutenção de interesses russos sob uma nova bandeira. A operação, assim, configura um caso clássico de window dressing (maquilhagem): uma substituição formal que preserva, por vias indirectas, a continuidade de influência russa num sector estratégico, iludindo as sanções internacionais.

