Há fenómenos mediáticos que dispensam explicação sociológica: bastam meia dúzia de títulos histéricos, dois “especialistas” improvisados e um punhado de colunistas com excesso de tempo livre para transformar boatos em manchetes.
O caso das tentativas de denegrir o General Miala é um desses episódios em que a desinformação se veste de gala, tropeça nos próprios sapatos e ainda exige aplausos.
Nos últimos meses, multiplicaram‑se artigos que garantem, com a convicção típica de quem não leu a Constituição nem por engano, que Miala estaria “inelegível” para Presidente da República.
A palavra repete‑se como um mantra, embora ninguém consiga explicar de onde veio, quem a inventou ou que artigo legal a sustenta.
Mas isso nunca impediu o jornalismo de recreio: basta um título alarmista, uma fotografia mal escolhida e um parágrafo cheio de condicionalismos — “poderá”, “eventualmente”, “segundo fontes que preferem não ser identificadas” — e pronto, está feito o escândalo.
Depois vêm os livros. Livros que ninguém lê, ninguém cita e ninguém encontra nas livrarias, mas que aparecem sempre mencionados como “obras fundamentais” para compreender a “verdadeira história” do general.
São volumes recheados de teorias alucinadas, escritas com a leveza de quem acredita que factos são meras sugestões. Há capítulos que parecem ter sido redigidos durante um delírio febril, outros que soam a vingança pessoal mal disfarçada. Mas todos partilham a mesma característica: a absoluta ausência de leitores.
E como não podia faltar, surgem as entrevistas de falso jornalismo — aquelas conversas em que o entrevistador finge neutralidade enquanto tenta empurrar o entrevistado para conclusões pré‑fabricadas. São perguntas que já trazem a resposta embutida, comentários travestidos de questões e uma coreografia previsível: insinua-se, repete-se, dramatiza-se.
No fim, o entrevistador sorri com ar triunfal, como se tivesse acabado de revelar um segredo de Estado, quando na verdade apenas reciclou rumores de WhatsApp.
O mais curioso é que, apesar de toda esta produção frenética, o resultado é sempre o mesmo: um conjunto de pessoas a falar umas com as outras dentro de uma bolha, convencidas de que estão a influenciar o país quando, na verdade, apenas ecoam as próprias obsessões.
É um teatro de sombras onde cada ator interpreta simultaneamente o papel de crítico, vítima e herói — tudo sem sair do mesmo círculo de desinformação.
E assim, no final, quando se apagam as luzes e se fecha o pano, sobra apenas uma imagem: um grupo inteiro de tolos a olhar-se ao espelho, convencido de estar a olhar para o General Miala.
Que engano enganoso!

