A teia paralela que une Sócrates, Anjos Ferreira, Irina Diniz e Higino Carneiro

ByAnselmo Agostinho

15 de Fevereiro, 2026


O enredo que liga José Sócrates ( o antigo primeiro-ministro português acusado de imensos crimes financeiros), a sua família Pinto de Sousa, o empresário angolano Anjos Ferreira, a deputada Irina Diniz e o general Higino Carneiro compõe um mosaico de transações cruzadas, dívidas ressuscitadas e imóveis usados como fichas de um jogo financeiro corrupto que atravessa fronteiras.

O que à primeira vista parece uma sucessão de negócios privados ganha contornos de rede horizontal, onde cada interveniente desempenha um papel preciso na circulação ilícita de património entre Portugal e Angola

O ponto de partida é a entrada em cena de Anjos Ferreira, empresário da construção civil em Angola e figura próxima do influente general Higino Carneiro, antigo ministro das Obras Públicas e governador de Luanda, que está neste momento a ser investigado pela PGR Angolana.

É este empresário quem surge como comprador da firma concessionária das Salinas da Tchiome, operação que gera uma alegada dívida de 431 mil euros ao primo de Sócrates, José Paulo Pinto de Sousa. A dívida não é paga em dinheiro, mas em imóveis: um apartamento na Ericeira — hoje ocupado por Sócrates — e outro no Porto, entregue a Miguel Bataglia.

Os valores declarados em escritura ficam abaixo das avaliações de mercado, mas servem para justificar a transferência de bens sem garantias bancárias, num ambiente de confiança total entre as partes.

Quando parecia que a dívida estava praticamente saldada em 2018, ela reaparece em 2022, agora com um novo protagonista: Irina Diniz Ferreira, deputada da UNITA e mulher de Anjos Ferreira.

A dívida, agora de 600 mil euros, muda de mãos entre marido e mulher num movimento pouco habitual. Quase em simultâneo, José Paulo cede o crédito ao irmão Pedro Pinto de Sousa, vizinho de Sócrates na Ericeira.

Poucas semanas depois, Irina transfere para Pedro uma vivenda na Malveira pelo valor exato da dívida. A sequência — dívida cedida, crédito cedido, imóvel transferido — compõe uma coreografia financeira demasiado sincronizada para ser casual.

Mas o circuito não termina aqui. Em 2023, entra em cena Carlos Santos Silva, o amigo de longa data de Sócrates, que compra a Pedro a mesma vivenda por 775 mil euros, recorrendo a uma mediadora imobiliária para dar aparência de distância entre os intervenientes.

O pagamento é faseado, algo raro em transações entre desconhecidos, mas aparentemente aceite sem reservas. O resultado final é simples: 775 mil euros saem da esfera de Santos Silva e entram na esfera familiar de Sócrates, numa operação que já não poderá ser analisada no âmbito da Operação Marquês.

O pano de fundo destas transações é a história societária das Salinas da Tchiome, onde José Paulo Pinto de Sousa e Miguel Bataglia eram sócios até que, cinco meses após a constituição da empresa, a quota de Bataglia é adquirida por duas sociedades-fantasma controladas por Hélder Bataglia. O empresário é acusado de ter canalizado cerca de 30 milhões de euros para contas suíças que o Ministério Público acredita beneficiarem Sócrates.

A atribuição de imóveis a José Paulo e Miguel Bataglia por valores muito distintos reforça a perceção de que as dívidas e pagamentos funcionavam como instrumentos ajustáveis, moldados às necessidades de cada momento.

No conjunto, o que emerge é uma rede de conveniência, não vertical mas horizontal, onde empresários angolanos, figuras políticas portuguesas, familiares próximos e intermediários financeiros se articulam para movimentar património através de dívidas simuladas, imóveis subavaliados e empresas sem atividade real.

As ligações entre Anjos Ferreira, Irina Diniz e Higino Carneiro colocam o eixo angolano no centro da engrenagem; as ligações entre José Paulo, Pedro Pinto de Sousa, Santos Silva e Sócrates fecham o circuito do lado português. Entre ambos, circulam imóveis, dívidas e quotas societárias como peças de um tabuleiro transnacional onde a opacidade é regra e a coincidência é exceção.