Samuel Piedoso Chitunda Chingunji
Há um ditado sobre reinos e países governados por ditadores, que diz que, mesmo depois da sua morte, as consequências do impacto dos seus actos destrutivos nas sociedades durante o seu reinado, ainda se fazem sentir, 20 a 100 anos depois.
Portanto, os danos materiais e físicos podem ser ultrapassados mais rapidamente, mas as consequências mentais ou psicológicas podem durar muitas gerações.
Conheci o Jardo pela primeira vez no Aeroporto de Heathrow, depois de lá ter passado uma noite após a minha chegada de Lisboa, onde estive seis meses desde que cheguei de Jamba, numa viagem que deveria ser tranquila até Washington D.C., para eu estudar Engenharia Civil na universidade.
Mas a nova e complexa relação entre Savimbi e a família Chingunji, desde 1979, transformou a viagem para os Estados Unidos numa viagem traiçoeira e mais longa do que as antigas viagens de navio que levavam os marinheiros da Europa para outros continentes.
Do aeroporto, fomos para casa do Jardo, zona de Maida Vale, onde depois das formalidades, fui viver com o falecido Jerry Chikoti e Sousa Jamba, gente que conhecia como familiares na Zâmbia, antes e depois da independência.
A minha estadia em Londres, era para mim, apenas mais uma escala, tendo como destino final Washington D.C..
Mas Savimbi, que tentara fazer com que eu ficasse em Lisboa, tinha outros planos.
Portanto, logo a seguir, nas minhas conversas constantes com o Jardo, tentei convencê-lo durante algumas semanas de que devia ter havido um engano ou um mal-entendido e que precisava de me enviar para Washington D.C., onde tinha de estar antes do final do verão para me adaptar à vida de estudante após dois anos de pausa, num novo país e ao sistema americano.
A situação tornar-se-ia mais difícil do que eu imaginava. O Jardo, simplesmente discordou de mim e disse que Savimbi o tinha instruído para me manter em Londres e que, em circunstância alguma, eu deveria ir para os Estados Unidos.
Informei ao Tito que parecia evidente que JMS me tinha desviado dos EUA depois de não me ter conseguido fazer ficar em Lisboa. Tito entrou então em contacto com JMS, e a sua resposta foi dura e repleta de ameaças veladas e acusações de que era ele quem me estava a influenciar a viver nos EUA com ele, com base em interesses pessoais suspeitos.
A reação do JMS fez com que o Tito e eu optássemos pelo meu plano original de ir com o patrocínio dos nossos amigos afro-americanos.
Como Jardo se revelou sendo o último obstáculo à minha viagem para os EUA, decidi mantê-lo na ignorância sobre essa iniciativa até chegar à América.
Assim, tentei obter o visto de estudante no anonimato, munido de toda a documentação aprovada pela universidade e os comprovativos financeiros dos patrocinadores. Mas quando me dirigi à Embaixada para tratar do meu visto, fui interrogado durante todo o dia até ao encerramento. No fim, acabaram por decidir não o emitir, aparentemente depois de falarem com alguém da UNITA em Londres.
Eu e o Tito ficamos muito desiludidos. Ele havia preparado o meu quarto na sua casa durante meses, mas com a negação do visto, concordamos em adiar a viagem, pois o Savimbi tinha ficado paranóico com tudo, baseado nos seus próprios interesses, que acreditávamos serem diabólicos.
Assim, como o Tito se encontrava agora no meio das fases cruciais das negociações de paz e reconciliação nacional com o governo do MPLA, na sequência da histórica recepção de JMS na Casa Branca no ano anterior, ambos concordamos que o sonho de Paz para os Angolanos não deveria ser prejudicado pelo interesse individual de querer estudar na América.
Assim sendo, concordamos em adiar o meu sonho por mais dois anos. Um prazo que Tito acreditava ser suficiente para que os adversários na guerra civil — soviéticos, cubanos, países do bloco de Leste, Angola e África do Sul — com a ajuda dos EUA, se aproximassem da paz e do fim da guerra, culminando com a entrada da UNITA em pé de igualdade.
Portanto, não me opus; pareceu-me uma boa e altruísta proposta, pelo que suspendemos a ideia e procurei uma faculdade para tirar um curso técnico de dois anos em construção civil e planeamento urbano.
Em suma, Jardo conseguiu impedir-me de ir aos EUA, conforme instruído por Savimbi.
É curioso que, quando voltei a me encontrar com Jardo, a sua linguagem corporal praticamente revelou tudo e a nossa conversa acabou por ficar desconexa.
Eu sabia que era com ele que a Embaixada tinha falado para pedir conselhos sobre a minha viagem, e ele sabia que eu sabia que ele tinha descoberto a minha tentativa de ir sozinho para a América, mas nenhum de nós quis abordar o assunto abertamente.
Isto manteve-se assim até pouco antes de Savimbi ser assassinado, quando nos reencontramos em Washington no final de 2003, quando eu estava em Washington a representar uma nova facção da Unita desde 2000.
Após a viagem falhada, Tito aconselhou-me a cultivar uma amizade próxima com ele, alegando que, embora Jardo fosse um agente de grande confiança de Savimbi, sobretudo depois de do Tito ter o colocado na sua equipa que trabalhou incansavelmente para que a administração Reagan revogasse a Emenda Clark, o que reabriu as portas para os EUA retomarem o apoio milionário financeiro, material e diplomático à UNITA, com o objectivo de criar um verdadeiro impasse na guerra civil Angolana, para obrigar o governo do MPLA a optar por uma solução negociada ou arriscar um eventual colapso militar.
Jardo tornara-se muito próximo do Tito, como um irmão, e também se solidarizava com a dor e a perda sofrida pela família Chingunji às mãos de JMS. Coisa que o próprio Jardo disse que contrariava os objectivos e a razão que a UNITA alegava para fazer a sua guerra.
Por conseguinte, Jardo tornou-se também um porto seguro sempre que Tito se sentia deprimido por causa dos maus-tratos de Savimbi aos Chingunji e, em particular, à sua jovem família que acabara de formar com Romy, que, essa que ironicamente, era sobrinha do Presidente.
Tito acabou por se tornar o embaixador mais proeminente da UNITA a quem foi negado o direito de viver com a sua família no estrangeiro, como moeda de troca, caso o sofrimento da família Chingunji o fizesse abandonar a UNITA.
Eu, por minha vez, após a minha breve experiência com Jardo, disse ao Tito que não era uma pessoa em quem pudesse confiar plenamente, pois algo nas nossas conversas me deixou desconfortável em contar-lhe tudo. Ironicamente, a mulher de Jardo, Bela, era alguém que eu considerava mais digna de confiança e com uma mente mais aberta.
Por isso, a minha amizade com o casal centrava-se principalmente na Bela. Com ela, podíamos conversar sobre qualquer coisa na vida, incluindo a sociedade que JMS tinha criado na Jamba, que contradizia totalmente as razões que os Estados Unidos e a Europa Ocidental acreditavam que ele e a UNITA representavam. Em particular, a obsessão de JMS com o assassinato de colegas brilhantes e inocentes, as mulheres de outros colegas, o abuso de mulheres e o infanticídio.
Muitas vezes, quando eu e a Bela falávamos de assuntos sensíveis, mudávamos de assunto assim que o Jardo entrava na sala. Chegámos a inventar uma alcunha para JMS: “Sebastião”.
Passado um tempo, o casal Muekalia teve uma filha chamada Panda. A nossa amizade pareceu ainda mais forte. Assim, tive a ideia de, de vez em quando, cuidar da bebé para que também eles pudessem aproveitar para fazer coisas que os jovens casais costumam fazer à noite no famoso West End de Londres: jantar, cinema, passeios etc. Eu dava-me bem com bebés, por isso não era problema para mim.
Algum tempo depois, fiquei chocada ao ouvir o Jardo queixar-se de como o seus gastos haviam aumentado com a chegada do bebé. Portanto, eu não conseguia compreender como é que um homem que geria a conta central dos fundos da UNITA no estrangeiro, não tinha direito a um aumento do seu subsídio mensal. Ele, como se esperava de grandes revolucionários, também não levaria o assunto ao Presidente. Para eles os ditos putos revolucionários, seria um grande sinal de fraqueza, contra o espírito de sacrifício patriótico. Por isso, senti-me na obrigação de revelar a situação delicada ao Tito, pois eu acreditava que isso também poderia afectar o desempenho de Jardo no trabalho.
O Tito prometeu pressionar o Presidente, mas, entretanto, dar-me-ia parte do seu subsídio mensal para que eu o entregasse ao Jardo num envelope fechado. Jardo ficou chocado e, envergonhado, disse que eu nunca deveria ter contado ao Tito, pois sabia que ele era muito sensível e tinha um coração tão generoso que preferia passar fome do que ver uma criança sofrer. Para mim, isto demonstrou mais uma vez a bondade e a grande generosidade que muitos na UNITA conheciam sobre o Tito.
Um ano e meio depois, foi, por isso, um grande choque para mim quando Jardo regressou da suposta reunião que a liderança da UNITA iria realizar em Novembro de 1988, para responder com uma Conferência Internacional que explicaria a posição da UNITA sobre os iminentes Acordos Tripartido de Nova Iorque, em Dezembro de 1988, que permitiriam a retirada das tropas cubanas e a independência da Namíbia.
Jardo voltou ainda mais magro do que já era naturalmente esguio. Parecia exausto e totalmente abatido. Entregou-me uma carta do Tito, murmurando palavras que eu não conseguia compreender bem, mas, pelo que percebi, afirmava que Tito tinha ficado para trás para assumir o seu novo cargo de Secretário-Geral Adjunto. Um cargo que nunca tinha existido antes, o que o afastou de imediato da chefia dos Negócios Estrangeiros e da representação diplomática dos EUA. É que, até ele próprio não parecia nada convencido, nem sequer conseguia me olhar nos olhos.
Li a carta. Foi uma bomba para mim, mas não totalmente inesperada. Era o pior pesadelo que a nossa família temia desde o final de 1986. Por isso, confrontei o Jardo quando este tentava sair apressadamente do escritório da UNITA. Disse-lhe para ser honesto e explicar exatamente o que tinha acontecido durante a sua estadia, uma vez que a tão esperada conferência nem sequer se realizou.
Ele não estava preparado ou não tinha coragem para o confronto. Insistiu que nada tinha acontecido e que tudo o que queria agora era fazer as malas o mais rapidamente possível e mudar-se para Washington com a família para assumir o seu novo cargo, substituindo Tito nos Estados Unidos. Implorei-lhe, como amigo do Tito e considerando a pouca amizade que tínhamos cultivado recentemente com a sua família. Mas ignorou-me e afastou as acusações que eu fazia, baseadas no conteúdo da carta sobre a tal nova posição de Tito, que recusava de deixá-lo sair para despedir-se devidamente, sobretudo nos Estados Unidos, e considerando os projectos em que estava a trabalhar para dar início às negociações entre o MPLA e a UNITA após a assinatura dos Acordos Tripartido de Nova Iorque.
Supliquei-lhe que me desse algo concreto, a título confidencial, para me ajudar a salvar a vida do Tito. Mas o recém-revelado Jardo era arrogante e basicamente hostil, ao ponto de dar a entender que eu estava em conluio com os inimigos: MPLA, Soviéticos e Cubanos. Insistiu que o Tito estava perfeitamente bem e que, dentro de um mês ou dois, iria provar que as minhas acusações eram infundadas. Salientou que tudo o que ele queria era sair do Reino Unido e que, depois disso, eu poderia fazer o que quisesse, mas deveria parar com as acusações, pois só lhe trariam problemas com o JMS.
Uns dias depois, informou-me que Savimbi havia o ordenado que me colocasse num avião para ir a Jamba com as minhas acusações, por outro, que finalmente, iria haver o tão aguardado encontro de estudantes Angolanos no estrangeiro, de todos os grupos políticos e sociais, e independentes. Só que o formato tinha mudado: que desta vez seriam apenas estudantes da UNITA no estrangeiro, e da Jamba. Percebi logo que era uma armadilha, uma grande encenação pelo JMS e suas estratégias maquiavélicas. Eu graças a Deus e minha formação académica Ocidental, percebi logo o carácter real do JMS e suas manobras políticas e pessoais, durante os 6 meses de vivência nas zonas da UNITA. Portanto, a convocatória, para mim, era uma imitação 100% da armadilha e traição feita contra Tito.
Respondi às ordens do JMS e sua convocatória com uma gargalhada. Seguida, porém, de fúria dentro de mim que quase explodia o meu peito. Deixei claro que não era um membro fanático e obediente da UNITA, capaz de trocar a vida dos entes queridos por dinheiro e bens materiais.
Disse-lhe sem rodeios que ele deveria dizer a Savimbi que estava muito enganado ao acreditar que, mantendo-me em Londres, as minhas mãos estariam atadas, impedindo-me de fazer algo para nos salvar do seu plano diabólico de nos eliminar completamente, sem causar danos políticos que destruíssem o seu apoio fundamental aos americanos e, consequentemente, à Europa Ocidental.
Prometi o Jardo e jurei pelos meus entes queridos que eu ainda prejudicaria muito o JMS as suas ambições de se tornar Presidente de Angola, o que, infelizmente, também custaria caro à UNITA e a muitos dos seus bons membros. Portanto, se realmente se preocupasse com Angola, com a necessidade de mudança, com a introdução da democracia multipartidária, com o respeito pelos direitos humanos e com o bem-estar de todos, não deveria ser egoísta e deixar-se cegar pelo egoísmo, o que poderia atrasar por anos aquilo que a maioria deseja: uma nova Angola.
Coloquei tudo por escrito para ser enviado a Savimbi e fiz-lhe um ultimato: tinha de enviar o Tito para o estrangeiro para se despedir normalmente e também para me assegurar sobre a nossa situação familiar. Se, até Janeiro de 1989, Tito não desse sinais de estar aqui no estrangeiro, eu iniciaria uma campanha para mostrar ao mundo, especialmente à América e à Europa Ocidental, a mentira sobre ele, as suas ambições políticas e o regime ditatorial no interior de Angola que diariamente violava flagrantemente os direitos humanos, longe do escrutínio público internacional. Em suma, que JMS era um mentiroso(fraude) e estava apenas a usar fundos americanos e europeus para chegar ao poder e implantar, possivelmente, a pior ditadura.
Antes de Jardo partir finalmente para os EUA, tivemos uma discussão acesa com outros representantes da Europa, liderados pelo veterano Tony Fernandes co-fundador do projecto do movimento UNITA na Suíça, que tinha assumido a pasta de Ministro dos Negócios Estrangeiros após a detenção de Tito. Tony estava proibido de abandonar as zonas da UNITA desde que foi retirado de Londres, no início dos anos 80. Sobreviveu a acusações de traição e sentença de morte por ser um dos poucos originários do enclave de Cabinda. Um seu parente era o Secretário-Geral de longa data, N’zau Puna.
Portanto, tendo afastado Tito da pasta de Secretário dos Negócios Estrangeiros, a UNITA necessitava de um nome de peso para lhe conferir credibilidade e a experiência que Tito cultivara durante quase uma década. Por isso, JMS foi obrigado a correr um risco e reabilitou Tony, prometendo-lhe uma nova vida na hierarquia de liderança da UNITA, esperando que isso iria fazê-lo esquecer o que passara desde que foi retirado de Londres. A nossa reunião não alcançou nada. Apenas reforçou as minhas preocupações sobre a sobrevivência do Tito e do resto da família.
Anos mais tarde, em 1992, Tony Fernandes e N’zau Puna deixaram a UNITA e, juntos, expuseram a execução da nossa família por Savimbi, através das suas conferências impressas em Angola, Portugal e nos Estados Unidos, em particular, cujos conteúdos importantes eram sobre a eliminação do Tito, dos seus irmãos, cunhados e de todos os seus filhos.
As eleições multipartidárias realizaram-se em Setembro de 1992, nas quais Savimbi e a UNITA foram derrotados, regressando depois à guerra.
Foi através dos relatos dos dois co-fundadores da UNITA, que também tive acesso à forma como Tito foi detido, a criação de um tribunal de fachada, e aos vários julgamentos e caça as bruxas em territórios da UNITA muito antes da chegada do Tito, com o resto da família Chingunji a ser detida imediatamente após a sua última viagem a Jamba em 1988.
Afinal, pouco depois de desembarcar em Kinshasa, Tito foi cercado por agentes da UNITA e mantido sob controlo absoluto. De seguida, foi colocado num avião para Jamba, onde, ao chegar, logo na porta do avião, começou a ser espancado e torturado pelas forças de segurança.
Do aeroporto, o percurso foi até ao esconderijo do Savimbi no Bembwa, onde todos os outros representantes e direcção já se encontravam reunidos aguardando a sua chegada para um interrogatório, continuou.
Durante os interrogatórios, foi retirado da sala em diversas ocasiões e espancado e torturado enquanto todos ouviam os espancamentos e os seus gritos e súplicas por clemência, caso tivesse ofendido o Presidente ou cometido qualquer outro crime.
Outros representantes foram acusados de cumplicidade, e cada um deles, tal como Jardo, negou qualquer ligação com ele, acrescentando acusações para se livrarem de quaisquer responsabilidades.
Posteriormente, os representantes foi-lhes instruído afastar quaisquer acusações e rumores sobre a morte iminente de Tito em todos importantes órgãos internacionais de comunicação social. Daí a invenção de que ocupava agora uma posição de maior relevância e poder no movimento como Secretário-Geral Adjunto.
Os Acordos de Nova Iorque trouxeram a independência da Namíbia e, eventualmente, os Acordos de Bicesse foram assinados em Maio de 1991, que culminaram com as eleições multipartidárias em Setembro 1992. Mas a guerra só terminou 10 anos depois das eleições, com Savimbi morto, incluindo muitos dos seus homens fortes.
Mas antes do fim da guerra, no auge do conflito que deixou claro que desta vez seria o fim do JMS, encontrei-me com Jardo em Washington D.C. fins de 2003. Eu é que pedi para falar com ele pessoalmente, em particular para ouvir dele como se tinha tornado completamente frio, e recusado a ajudar a salvar alguém que era o seu professor e mentor na diplomacia, e supostamente amigo da família. Além disso, implorei-lhe que persuadisse Savimbi a desistir da guerra incondicionalmente, caso contrário eu não tinha dúvidas que seria morto, o que acabaria com o seu sonho de se tornar Presidente de Angola.
Savimbi tinha um carinho especial por Jardo e pedi-lhe que usasse isso para persuadir o seu chefe e salvar muitas vidas, uma vez que a cada dia que passava, muitos dos seus seguidores morriam, principalmente de fome e de doença. Jardo desculpou-se profundamente pelo seu papel na morte de Tito. Repetiu que nunca imaginou que Savimbi fosse tão cruel ao ponto de mandar matar Tito e até assassinar o resto dos Chingunji. Acreditava que provavelmente seria mantido prisioneiro, mas que acabaria por ser libertado, principalmente depois da guerra.
Por outro, ele confessou também que as coisas azedaram muito rapidamente quando chegou na Jamba em Novembro 1988. Que viu a morte diante dos seus olhos e entrou em pânico total, pensando apenas em sair dali o mais rapidamente possível para se juntar à sua família no estrangeiro. Portanto, não conseguia aceitar regressar às matas, temendo que durasse muito tempo naquele regime cruel, cheio de intrigas e falsas acusações, baseadas sobretudo nos ciúmes e nos complexos do Savimbi.
Disse ainda que, para Savimbi e a UNITA, as revelações da morte de Tito praticamente destruíram o domínio e a credibilidade do partido em Washington e nos corredores do Congresso. Que a partir daí ele apenas ficou a gerir as coisas para salvar o pouco possível. Mas que os mais importantes aliados da UNITA dos dois partidos Repúblicano e Democrata, desistiram de os apoiar, ficado apenas alguns da extrema Republicana. Reforçando o seus sentimento de que a partir daí, Savimbi e a UNITA despedaçaram-se anos de sacrifícios de muitas pessoas.
Também me encontrei com Jardo em Washington, D.C., em eventos que homenageavam a minha visita enquanto Ministro do Turismo. Encontrei-o também uma vez em Angola, onde admitiu que nunca deixaria os EUA para se juntar à máquina da UNITA em Angola, pois a maioria dos seus membros era ainda muito retrógrada, perigosa e alheia à realidade e às práticas políticas necessárias para melhorar a vida dos milhões que ainda careciam de desenvolvimento.
Por isso, quando recentemente foi apresentado ao público como um novo membro da Pra-ja, não me surpreendeu, mas fiquei apreensivo ao vê-lo fisicamente debilitado.
Pois ele é mais um exemplo de como Savimbi em 1975 convenceu muitas famílias pertencentes às elites da tribo Umbundu a fazerem parte do seu movimento, e em troca ele apreveitou-se da veneração que os jovens tinham por ele como herói da independência, para os seus filhos o venerassem como um deus.
Alguns tornaram-se tão fanáticos por ele que se tornaram perigosos até para as suas próprias famílias. Muitos destes jovens brilhantes tornaram-se assassinos a sangue frio. Portanto, o mundo do JMS criado nas matas entre 1979 a 1992, para eles era dos melhores, ideal e típico das revoluções dos grandes países. Até havia alguns que diziam que a escola política das matas era comparável com as universidades de renome nos EUA e Europa. Nunca imaginaram que “Savimbi um dia” morresse ou perdesse o poder.
Na nossa história da UNITA, ainda tem muitas verdades escamoteadas, principalmente para evitar o aproveitamento político do adversário, mas também porque para muitos é visto como uma exposição vergonhosa que fere a sua existência.
Também existem poucos que conseguem escrever de outra forma o passado porque muitos de uma forma ou outra ficaram implicados directa ou indirectamente.
Por isso para o silêncio é melhor opção, porque tem muitos que facilmente podem acabar com as mentiras de alguém pesado que tentam branquear a sua vivência na UNITA.
RIP

