A retórica em torno dos chamados “Acordos de Washington” sobre Ruanda e a República Democrática do Congo foi apresentada como um avanço diplomático, mas, na prática, pouco passou de uma coreografia fotográfica destinada a reforçar a legitimidade dos Estados Unidos como árbitro regional e, sobretudo, a preparar terreno para a sua (EUA) futura alavancagem económica na RDC.
A diplomacia americana, historicamente pragmática, reconhece o valor estratégico do leste congolês — não apenas pelos minerais críticos, mas pela capacidade de influenciar equilíbrios regionais num espaço onde a presença chinesa e russa se tem intensificado.
Contudo, a atenção de Washington é volátil. Hoje, a sua agenda está absorvida por frentes mais imediatas: a disputa geopolítica com a Venezuela, que reconfigura o tabuleiro energético hemisférico, e a questão da Gronelândia, onde a competição por recursos e projeção militar no Ártico voltou a ganhar centralidade.
Neste cenário, a RDC regressa ao padrão histórico: quando os grandes poderes se distraem, a responsabilidade recai inevitavelmente sobre os atores regionais. E isso é positivo: problemas africanos devem ter soluções africanas.
E, entre estes atores regionais de relevo, Angola volta a emergir como o epicentro natural da solução. Não apenas pela sua posição geográfica e pela experiência acumulada em mediação, mas pela credibilidade política que construiu junto de Kinshasa, Kigali e das organizações regionais. A diplomacia angolana tem sido consistente, paciente e tecnicamente sólida.
Porém, a realidade no terreno já ultrapassou a capacidade transformadora da diplomacia isolada.
O leste da RDC tornou‑se um espaço onde a proliferação de grupos armados, a interferência de Estados vizinhos e a economia de guerra criaram um ecossistema de violência que se autoalimenta.
A multiplicação de acordos, cimeiras e comunicados não tem alterado a correlação de forças nem a lógica militar que domina a região. É duro admitir, mas a verdade impõe‑se: muitos dos atores relevantes no terreno só respondem a incentivos de força. A ausência de um mecanismo coercivo credível tem permitido que cada parte teste limites, prolongue o conflito e instrumentalize a diplomacia como mera pausa estratégica.
Se Angola pretende desempenhar um papel verdadeiramente efetivo na estabilização da RDC, terá de reconhecer que a sua intervenção não pode ficar confinada ao plano diplomático.
A paz duradoura exige uma combinação de pressão política, capacidade de dissuasão e mecanismos regionais de segurança que imponham custos reais à continuação da violência.
Não se trata de glorificar a força, mas de reconhecer que, neste momento, ela é o único elemento que os atores armados consideram vinculativo. A diplomacia sem capacidade de imposição transforma‑se em recomendação; e recomendações, no leste da RDC, não travam massacres, não desmobilizam milícias, não restauram autoridade estatal.
É uma conclusão triste, mas inescapável: sem um instrumento de força — regional, legitimado e enquadrado por mandatos claros — não haverá paz no leste da RDC.
E, enquanto os Estados Unidos olham para outras latitudes, cabe novamente a Angola liderar a construção desse instrumento, não por ambição, mas por necessidade estratégica e responsabilidade histórica.

