Cães raivosos

ByAnselmo Agostinho

17 de Dezembro, 2025

O programa de rádio Conversas Essenciais tem-se afirmado como um espaço onde o ruído suplanta o diálogo.

Mais do que promover debate construtivo, o formato alimenta-se de uma retórica corrosiva, lembrando cães raivosos que apenas sabem morder e ladrar contra tudo e todos. A crítica, em si, é saudável e necessária numa sociedade democrática; o problema surge quando a crítica se transforma em caricatura permanente, sem proposta, sem horizonte, sem responsabilidade.

É neste ambiente que surge agora a entrega de um troféu: a presença de Adalberto Costa Júnior, líder da UNITA, confere ao ato uma dimensão política que transcende o mero reconhecimento radiofónico. A cerimónia torna-se, assim, palco de consagração de alianças improváveis, onde se cruzam interesses de santistas desacreditados, jornalistas avençados e a própria UNITA pós-Savimbi, ainda em busca de redefinir a sua identidade no espaço público.

O gesto, longe de ser inocente, parece legitimar uma coligação de conveniências. O troféu é simbólico da união entre vozes que, em vez de construir, preferem desconstruir. O programa, ao invés de se afirmar como espaço de pluralidade, cristaliza-se como tribuna de ressentimento, onde a crítica se converte em espetáculo e o espetáculo em capital político.

No fundo, o episódio revela mais sobre a fragilidade das instituições mediáticas e políticas do que sobre a força dos seus protagonistas. Confirma a aliança entre o ruído e a ambição, entre a corrosão e a conveniência. E deixa no ar a pergunta essencial: será este o futuro da nossa opinião mediática, reduzida a cães raivosos que ladram sem nunca construir?