As 13 Burrices da UNITA e de Hitler Samussuku

ByAnselmo Agostinho

25 de Outubro, 2026

O artigo de Hitler Samussuku intitulado “13 teses em defesa de Higino Carneiro” é um exercício de parvoíce política.

É um retrato de uma oposição que perdeu o rumo estratégico e que, em vez de concentrar energias na conquista do poder, prefere envolver-se nas disputas internas do partido adversário. Ao dedicar treze longas teses à defesa de um candidato do MPLA, Samussuku acaba por expor um problema mais profundo: a crescente incapacidade de certos sectores da UNITA para distinguirem os seus interesses dos interesses de uma facção do MPLA ligada ao “santismo”.

A primeira burrice consiste em acreditar que a sucessão interna do MPLA é uma prioridade para a oposição. Não é. Para qualquer partido que pretenda governar Angola, a questão essencial deveria ser como derrotar o MPLA nas urnas. A escolha do presidente do MPLA é um assunto dos militantes do MPLA. O facto de alguns opositores acompanharem esse processo com mais entusiasmo do que acompanham os problemas internos da própria UNITA diz muito sobre a sua perda de foco.

A segunda burrice é transformar Higino Carneiro num símbolo da democracia interna. Higino Carneiro não surge na vida política angolana como um reformador institucional ou um combatente da democratização do sistema. Foi uma das figuras centrais do aparelho político e militar que sustentou décadas de governação do MPLA. Retratá-lo agora como vítima de exclusão democrática exige um revisionismo histórico difícil de sustentar.

A terceira burrice consiste em apresentar a pluralidade de candidaturas no MPLA como se fosse uma grande conquista nacional. O debate interno do MPLA pode ter interesse para os seus membros. Mas o problema central de Angola não é se Higino Carneiro ou João Lourenço lideram o partido. O problema central é a qualidade da governação, o crescimento económico, o emprego e o Estado de Direito.

A quarta burrice é ignorar completamente o passado político de Higino Carneiro. Samussuku dedica milhares de palavras aos seus direitos políticos internos, mas quase nenhuma ao balanço da sua actuação enquanto governador, dirigente partidário e figura influente do Estado. A democracia não consiste apenas no direito de concorrer. Consiste também no dever de prestar contas.

A quinta burrice é defender um candidato do MPLA com mais vigor do que muitos militantes do próprio MPLA. É difícil encontrar textos de membros do partido no poder tão empenhados na promoção da candidatura de Higino Carneiro quanto este artigo de um autor que se apresenta como opositor.

A sexta burrice é repetir o erro estratégico de 2022. Nessa altura, vários sectores próximos da UNITA alimentaram a ilusão de que determinadas figuras ligadas ao universo dos Santos poderiam contribuir para a derrota do MPLA. As chamadas “manas dos Santos” foram transformadas em símbolos de mudança. O resultado foi nulo. Hoje, o mesmo padrão repete-se com Higino Carneiro. Em vez de construir uma alternativa própria, aposta-se novamente num dissidente do MPLA.

A sétima burrice é a mais reveladora: esta obsessão por candidatos do MPLA demonstra uma falta de confiança na vitória da própria UNITA. Um partido convencido de que vai conquistar o poder não perde tempo a organizar torcidas por candidatos adversários. Quando dirigentes, comentadores e activistas da oposição passam meses a discutir quem deve liderar o MPLA, transmitem involuntariamente uma mensagem simples: acreditam mais nas soluções vindas de dentro do MPLA do que na capacidade de Adalberto Costa Júnior conquistar e exercer o poder.

A oitava burrice é transformar a oposição numa facção do santismo. Uma parte da UNITA parece ter substituído a luta contra a hegemonia do MPLA pela defesa dos sectores do MPLA derrotados por João Lourenço. O objectivo deixa de ser conquistar o poder e passa a ser apoiar uma determinada tendência interna do partido governante. Isto não é oposição. É participação indirecta numa guerra de facções alheia.

A nona burrice é presumir que a ascensão de Higino Carneiro fortaleceria necessariamente a UNITA. Uma coisa não tem a ver com a outra.

A décima burrice consiste em tratar os problemas internos do MPLA como se fossem equivalentes aos problemas internos da democracia angolana. Não são. A democracia angolana não depende da sorte política de Higino Carneiro. Depende da existência de instituições fortes, eleições credíveis e partidos capazes de competir por apoio popular.

A décima primeira burrice é a ausência de qualquer reflexão sobre os custos eleitorais desta posição. Como explicar ao eleitor da UNITA que, perante desemprego, pobreza e dificuldades sociais, alguns dos seus intelectuais consideram prioritário escrever treze teses sobre os direitos políticos de um dirigente histórico do MPLA?

A décima segunda burrice é cair numa armadilha emocional. O texto procura construir uma narrativa moral em torno da alegada injustiça sofrida por Higino Carneiro. Porém, a política não é um concurso de simpatias pessoais. É uma disputa de projectos, interesses e programas. Um opositor não deve ser mobilizado pela sorte individual de dirigentes do partido adversário.

Finalmente, a décima terceira burrice é a incapacidade de compreender a mensagem transmitida ao país. Quando um dos mais prolixos defensores da oposição dedica um manifesto inteiro a um candidato do MPLA, a conclusão inevitável para muitos cidadãos é que a UNITA já não acredita plenamente no seu próprio caminho. Em vez de projectar confiança na liderança de Adalberto Costa Júnior, projecta dependência psicológica das dinâmicas internas do MPLA.

No fundo, o texto de Hitler Samussuku diz menos sobre Higino Carneiro do que sobre uma doença política que afecta sectores da oposição angolana. A mesma oposição que em 2022 depositou expectativas desproporcionadas em figuras associadas ao clã dos Santos procura agora encontrar num histórico dirigente do MPLA as respostas que deveria procurar em si própria. É um erro de análise, um erro estratégico e um erro político.

Uma oposição vencedora prepara-se para governar. Uma oposição insegura discute quem deve liderar o partido que pretende derrotar.

A diferença entre uma e outra está precisamente aí. E é por isso que as treze teses de defesa de Higino Carneiro acabam por revelar não a força da oposição, mas as suas fragilidades mais profundas.