A UNITA e Ibrahim Traoré: Uma Aliança Trágica

ByKuma

15 de Setembro, 2026

A adoção de figuras como Ibrahim Traoré e a associação a lideranças marcadas por instabilidade institucional, como foi o caso do deposto Umaro Sissoco Embaló na Guiné-Bissau, levantam sérios e legítimos motivos de preocupação para o panorama político em Angola.

Analisando o contexto geoestratégico e a história política angolana, esta tendência encerra vários perigos profundos: quando um partido que se diz ter vocação de poder como a UNITA olha para juntas militares e líderes autocráticos do Sahel como modelos de governação, valida-se perigosamente a ideia de que a ordem constitucional pode ser subvertida em nome da “urgência” ou da justiça social. Para um país como Angola, que demorou décadas a estabilizar e a consolidar a via civil e eleitoral após um longo conflito armado, flertar com a retórica golpista é abrir a porta a um retrocesso civilizacional.

A admiração por líderes de cariz populista e autoritário tende a importar para o debate interno uma cultura de terra queimada. A política passa a ser vista como uma luta existencial contra “traidores” ou forças ocultas, e enfraquece-se a crença na democracia representativa, na separação de poderes e no escrutínio parlamentar, substituindo-os pelo culto à força individual.

Angola desempenha tradicionalmente um papel de mediação e de estabilidade na região (seja na SADC ou na África Central). Alinhar-se, mesmo que simbolicamente, através de simpatias partidárias, com o eixo de juntas militares contestadas na África Ocidental prejudica a credibilidade externa do país e cria fraturas diplomáticas desnecessárias, enviando um sinal dúbio sobre o compromisso com o Estado de direito democrático.

Em suma, quando a oposição principal de um Estado democrático começa a encontrar inspiração em líderes fardados e contestados, o risco não é apenas para a imagem do partido, mas sim para a própria previsibilidade e paz institucional de Angola, que tem tudo a perder se trocar a aspiração democrática pelos falsos atalhos do autoritarismo militar.

A ascensão de Ibrahim Traoré ao poder no Burkina Faso foi inicialmente recebida por uma parcela da população e por observadores internacionais com um misto de esperança e ceticismo. Prometendo resgatar o país do flagelo do terrorismo jihadista e romper com a dependência neocolonial, nomeadamente da França, Traoré encarnou temporariamente a imagem do jovem líder revolucionário. Contudo, a realidade no terreno revela hoje uma rota perigosa, marcada por deriva autoritária, delírios de perseguição e um agravamento sistémico dos direitos humanos.

O que se desenha em Ouagadougou é o guião clássico que tantas vezes feriu o continente africano: a transformação de um salvador fardado num ditador lunático e implacável. Vozes críticas, jornalistas e ativistas que ousaram questionar os rumos da junta militar enfrentam raptos arbitrários, detenções sumárias e, em vários casos, a conscrição forçada para as linhas da frente do combate. A liberdade de imprensa foi praticamente extinta.

À medida que a situação de segurança piora e vastas regiões do país continuam sob o controlo de grupos armados, o regime opta pela narrativa paranoica do “inimigo interno”. Qualquer falha estratégica é desculpada com teorias de conspiração sobre golpes estrangeiros ou traições fantasmagóricas. As ruas de Ouagadougou foram inundadas por propaganda que eleva Traoré a uma figura quase messiânica, intolerante a qualquer escrutínio democrático ou debate plural sobre o futuro institucional do país.

Para um continente que tem lutado duramente para consolidar processos democráticos e afastar-se do ciclo infindável de golpes de Estado dos séculos XX e XXI, a governação de Traoré representa um retrocesso doloroso. Sob o pretexto da soberania e da urgência antiterrorista, repete-se o erro fatal de acreditar que a suspensão de liberdades fundamentais traz estabilidade. Pelo contrário, o isolamento internacional, a asfixia económica e a repressão interna apenas alimentam o caldo de cultura perfeito para a continuação da instabilidade.

Burkina Faso merecia um futuro de verdadeira libertação e progresso. Em vez disso, corre o risco de ficar refém de mais um messias de uniforme, cujo delírio de poder ameaça destruir o que resta da coesão nacional. Foi assim com Mobutu Sesse Seko, que reduziu o Zaire (RDC) a uma coutada da sua etnia, coadjuvado por um grupo de mercenários liderados pelo franco-belga Bob Denard.

Não foi há muito que vimos a UNITA, do monarca Mbundo General Lukamba “Miau” Gato e do líder deprimido e subserviente, bacharel tirano, psicopata e intrujão, Brigadeiro ACJ “Betinho”, proclamar hosanas ao seu ídolo Traoré, afirmando mesmo, categoricamente, ser um modelo exemplar para Angola e para África.

É este cenário de terror que hoje flagela o Burkina Faso que o Galo Negro poderia estabelecer em Angola; mas, felizmente, tudo está a revelar-se a tempo de não cair no engodo. A cidadania está atenta e consciente do perigo, e os aliados desestabilizadores internos no MPLA têm de ser chamados à responsabilidade para que parem com o rasto de tragédia e não destruam os alicerces erguidos por João Manuel Gonçalves Lourenço, que em democracia, liberdade e muita esperança, possamos livremente caminhar em 2027 para a Nova República.