Uma Lição para o Monarca

ByKuma

30 de Agosto, 2026

A civilização dos povos está em constante mutação, preservar a cultura na diversidade é uma obrigação identitária, usá-la como arma para desafiar a evolução do próprio homem no mundo, é ignorância, paralisar o tempo, e lançar-se na busca do impossível, ainda mais, com agravante, vindo de um assimilado ressabiado complexado e frustrado.

A saber:

Na historiografia de Angola, o conceito de “Antiguidade” europeu (Grécia e Roma) não se aplica da mesma forma. A história organizada do território consolida-se a partir do primeiro milénio d.C. com as migrações Bantu. O período de maior esplendor político deu-se durante a época pré-colonial (séculos X a XVII). 
Os impérios e reinos soberanos mais importantes no território da atual Angola foram:


O Império do Kongo (Reino do Kongo)
Apogeu: Séculos XIII ao XVI.
Localização: Noroeste de Angola (incluindo a província do Zaire), estendendo-se pelas atuais República do Congo e RDC.
Capital: Mbanza Kongo (declarada Património Mundial da UNESCO).
Características: Foi um dos Estados mais centralizados, extensos e sofisticados da África Austral. Possuía uma monarquia estruturada, um sistema avançado de impostos e forte tradição na metalurgia do ferro. O seu soberano máxima detinha o título de Manicongo. 

O Reino do Ndongo
Apogeu: Séculos XV e XVI.
Localização: Região central, entre os rios Dande e Kwanza.
Características: Inicialmente um Estado vassalo do Kongo, tornou-se independente e altamente poderoso. O título dos seus monarcas era Ngola, termo quimbundo que originou o nome do país (Angola). Notabilizou-se pela feroz resistência militar contra a invasão portuguesa.

O Reino da Matamba
Apogeu: Século XVII.
Localização: Interior de Angola, na região de Malanje.
Características: Ganhou projeção internacional sob o comando da célebre Rainha Nzinga Mbandi (Ginga). Nzinga unificou o Ndongo e a Matamba, criando um Estado militarizado estratégico que desafiou e travou o avanço colonial português durante décadas.

O Império Lunda
Apogeu: Séculos XVI ao XIX.
Localização: Região leste de Angola (Lundas), expandindo-se também para a RDC e Zâmbia.
Características: Nascido a partir da união dinástica entre a aristocracia local e o Império Luba. Era uma confederação de reinos altamente rica, que controlava rotas comerciais de longa distância e o comércio de marfim e metais. O imperador central usava o título de Muatiânvua (ou Motiãvoa). 


Outras Entidades Políticas Relevantes
Reino de Kasanje (Cassange): Fundado no século XVII pelo povo guerreiro Imbangala (ou Jagas), controlava o comércio no vale do rio Cuango. 
Reinos Ovimbundu (Planalto Central): Uma série de Estados independentes fundados nas regiões de Huambo e Benguela, destacando-se o Reino do Bailundo e o Reino do Bié, conhecidos pelo seu poder agrícola e caravanas comerciais.

Os Reinos do Planalto Central (Ovimbundos)
Esta região albergou cerca de 22 reinos independentes que enriqueceram através do comércio de caravanas de longa distância, interligando o interior com a costa atlântica. Os mais poderosos foram: Reino do Bailundo: O maior e mais influente reino Ovimbundu. Teve um papel crucial na resistência contra a ocupação colonial portuguesa, destacando-se a grande revolta liderada em 1902. 
Reino do Bié: Uma potência comercial estratégica no centro-sul, famosa por controlar as principais rotas comerciais do sertão. 
Reino do Huambo (Wambu): Outro dos grandes reinos nacionais da etnia, caracterizado pela sua força militar e fortes linhagens de elites locais. 
Outros reinos menores: Sambo, Caconda, Chingolo e Quiaca. 

Os Reinos do Extremo Sul (Bacia do Cunene)
Mais a sul, junto à atual fronteira com a Namíbia, destacaram-se reinos guerreiros e pastoris que impuseram pesadas derrotas às forças europeias até ao início do século XX: 
Reino Cuanhama: O estado mais poderoso da bacia do rio Cunene e do povo Ovambo. Ficou mundialmente conhecido pela liderança do rei Mandume ya Ndemufayo, o último monarca que liderou a brava resistência militar na região até à sua morte em 1917. 
Reino de Humbe: Pertencente à etnia Nhaneca-Humbe, era um estado militarizado com base na estrutura do quilombo, enriquecido através do comércio de marfim e da pastorícia. 
Outros reinos aliados: Reinos de Cuamato, Evale e Mulondo.

Resumo das Estruturas Políticas
Ao contrário do Reino do Congo (no norte) ou do Império Lunda (no leste), que tinham capitais fixas e imperadores de sucessão estritamente hereditária, os reinos do sul funcionavam com base na alternância de elites e grandes famílias no poder, onde a soberania dependia da capacidade comercial, da força das chefias locais (olossoma) e de confederações flexíveis para tempos de guerra.

Os Coissãs
Coissã ou coisã (khoisan) é a designação unificadora de dois grupos étnicos distintos que vivem na África Austral que partilham algumas características físicas e linguísticas. Os dois grupos são os sãs, também conhecidos por bosquímanos ou boximanes e que são caçadores-coletores, e os cóis, que são pastores e que foram chamados hotentotes pelos colonizadores europeus. Aparentemente, estes povos têm uma longa história, estimada em vários milhares (talvez dezenas de milhares) de anos, mas agora estão reduzidos a pequenas populações, localizadas principalmente no deserto do Calaári, na Namíbia, mas também no Botsuana, em Angola e no deserto do Carru.
Os cóis e os sãs atuais podem ser descendentes de povos caçadores-coletores que habitavam toda a África Austral e que desapareceram com a chegada dos bantos a esta região, há cerca de 2000 anos. Não é provável que os bantos tenham exterminado os cóis e os sãs, uma vez que algumas das suas características linguísticas e físicas foram assimiladas por vários grupos bantos, como os xossas e os zulus. É mais provável que a redução do seu território de caça, derivado da instalação dos agricultores bantos, tivesse sido uma causa para a redução do seu número e da sua área habitada. Até a instalação dos neerlandeses na África do Sul, há cerca de 200 anos, estes povos ainda povoavam grandes extensões da Namíbia e do atual Botsuana.
Fisicamente, os Coissãs são em média mais baixos e esguios que os restantes povos africanos. Além disso, possuem uma coloração de pele amarelada e prega epicântica nos olhos, como os chineses e outros povos do Extremo Oriente. Algumas destas características são agora comuns a outros grupos étnicos sul-africanos, sendo patentes por exemplo em Nelson Mandela