Que relação quer Portugal com Angola? Podem Estados soberanos, associados numa comunidade linguística, histórica e cultural, e até com laços de consanguinidade, estar vulneráveis aos ciclos governativos ocasionais?
É esta promiscuidade que tem vingado, assente num cinismo partidário que invariavelmente emerge de pressões de grupos de advogados associados, que exercem a sua influência conforme o momento em que têm vez. Hoje chega-se ao cúmulo de existirem sociedades de advogados compostas por dezenas ou centenas de profissionais, para que possam garantir uma influência permanente em todos os quadrantes políticos.
Mas aos Estados, aos PALOP e à CPLP exige-se uma relação de transparência perante os Povos, no perene respeito pela reciprocidade que se traduzam em benefícios mútuos.
Acontece que acaba de vir a público que Isabel dos Santos, foragida da justiça em Angola e com bens arrestados em Portugal em consequência disso, acabou de receber, através da sua participação (via Grupo Amorim), a quantia de 27,1 milhões de euros em dividendos, atribuídos esta semana.
Numa fase em que a oposição interna angolana ao Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, goza de plena cobertura insultuosa e ignominiosa em Portugal; em que cúmplices camuflados da desgraça que desacreditou a justiça angolana, como Hélder Pita Grós (ex-PGR), vivem faustosamente em Lisboa na companhia de outros cidadãos de Angola que exibem fortunas oriundas de claro branqueamento de capitais; e em que forças poderosas e ocultas impulsionam estratégias contra os angolanos através de banditismo digital e de apoio a atividades subversivas da UNITA, desafiando o Estado de direito, a democracia e a ordem pública em Luanda, estes atores movimentam-se impunemente em Portugal.
Estranhamente, a senhora embaixadora de Angola acreditada em Lisboa tem-se remetido ao silêncio, diria mesmo um silêncio comprometedor, numa altura em que é exigível uma clara clarificação de posições.
As relações de Estado não podem ser circunstanciais, nem devem ser movidas por frases feitas que servem apenas de adereço a uma realidade escondida pela hipocrisia, tão nefasta para a confiança que deve prevalecer.
Enquanto Portugal atingiu a democracia, a liberdade e o desenvolvimento na sua Quarta República (iniciada em 1975, após um percurso de 65 anos desde a 1.ª República de 1910), Angola busca consolidar a sua democracia, liberdade e desenvolvimento numa rota iniciada em 2017, reforçada em 2022, alimentada pela esperança de uma cidadania que acredita e aposta no MPLA rumo a uma Nova República.

