A biografia de Higino. Hipocrisia e lavagem de imagem

ByAnselmo Agostinho

26 de Junho, 2026

Quem quer um bufão na chefia do MPLA? Só os seus inimigos.

A trajectória pública de Higino Carneiro está marcada por uma sucessão de denúncias, investigações e escândalos que atravessam mais de duas décadas de vida política angolana.

Desde os anos em que exerceu funções como Governador no Kuando‑Kubango, passando pelo Governo Provincial de Luanda e pela Assembleia Nacional, o seu nome tornou‑se sinónimo de gestão opaca, apropriação indevida de recursos públicos e um estilo de governação assente no privilégio pessoal e na impunidade.

As primeiras denúncias estruturadas surgiram no Kuando‑Kubango, onde Rafael Marques, através do Maka Angola, documentou um padrão de desvio sistemático de fundos, contratos fictícios, obras pagas e não executadas, e um ambiente de governação marcado por favoritismos, ausência de controlo e uso pessoal dos meios do Estado.

Os relatos recolhidos apontavam para um governador que tratava a província como feudo privado: viaturas do Estado utilizadas para fins pessoais, contas públicas sem escrutínio, empresas de fachada beneficiadas com contratos milionários e um clima de medo que impedia qualquer fiscalização interna.

O Kuando‑Kubango, uma das províncias mais pobres do país, tornou‑se símbolo de como o poder político podia ser instrumentalizado para enriquecimento pessoal.

Mais tarde, já em Luanda, o padrão repetiu‑se em escala ampliada. Auditorias internas e investigações jornalísticas revelaram rombos financeiros, adjudicações directas sem fundamento legal, pagamentos duplicados, obras superfaturadas e uma administração que funcionava como extensão dos interesses do governador. A promiscuidade entre finanças públicas e vida privada tornou‑se evidente: viagens luxuosas, festas exuberantes, consumo ostensivo e um círculo íntimo de colaboradores e beneficiários que orbitavam em torno do poder provincial.

O Maka Angola descreveu episódios de descontrolo financeiro, gastos sumptuários incompatíveis com a função pública e um estilo de vida que contrastava violentamente com a realidade social da província.

A isto somaram‑se relatos recorrentes — vindos de funcionários, antigos colaboradores e fontes internas — sobre condutas pessoais impróprias, relações íntimas instrumentalizadas no exercício do cargo, e um ambiente de governação onde a fronteira entre vida privada e responsabilidade pública era sistematicamente apagada.

O uso de recursos do Estado para fins privados, incluindo deslocações, estadias e eventos sociais, tornou‑se parte integrante da crítica pública. A imagem de um dirigente que “bebia champanhe pelo sapato”, expressão usada por críticos para ilustrar o grau de ostentação e desregramento, cristalizou‑se como metáfora de um poder desligado da realidade e imune ao escrutínio.

O culminar deste percurso foi o processo criminal relacionado com a sua gestão em Luanda, que chegou à fase de pronúncia e deveria ter seguido para julgamento. As acusações incluíam peculato, associação criminosa, tráfico de influências, branqueamento de capitais e nepotismo. O caso, porém, foi abruptamente arquivado por intervenção directa do Presidente do Tribunal Supremo — um acto considerado ilegal por juristas, magistrados e observadores, e que motivou uma queixa‑crime.

Este episódio tornou‑se símbolo da captura das instituições judiciais e da forma como redes de poder conseguem neutralizar processos que ameaçam figuras centrais do sistema político.

A biografia pública de Higino Carneiro é, assim, inseparável de uma cultura de impunidade que marcou a elite política angolana durante décadas.

Entre denúncias de corrupção, escândalos financeiros, comportamentos pessoais incompatíveis com a função pública e a manipulação de processos judiciais, o seu percurso tornou‑se um caso paradigmático de como o Estado pode ser apropriado e distorcido para servir interesses privados.

Mais do que um indivíduo, representa o sistema santista — e a persistência do seu poder político, apesar de tudo o que foi revelado, continua a ser um dos sinais mais claros das fragilidades estruturais da justiça e da governação em Angola, ainda contaminada pelo passado.