À atenção do Rafael Marques: a subversão pós Wagner no mundo

ByAnselmo Agostinho

17 de Fevereiro, 2026

Os recentes alertas dos serviços de informações europeus, divulgados pelo Financial Times, revelam que estruturas ligadas ao antigo Grupo Wagner estão a recrutar cidadãos europeus economicamente vulneráveis para executar atos de sabotagem em países da NATO. Não foi só em Angola, embora também tenha sido.

Trata‑se de uma estratégia organizada pelo GRU e pelo FSB (serviços secretos russos), que utilizam redes de mercenários e intermediários para atacar carros de políticos, destruir armazéns com ajuda humanitária destinada à Ucrânia e fomentar instabilidade social.

Depois da morte de Yevgeny Prigozhin e da reconfiguração do Wagner, estas operações tornaram‑se mais dispersas, mas também mais agressivas, recorrendo a indivíduos descartáveis, motivados apenas por dinheiro e facilmente manipuláveis.

Este fenómeno, porém, não é exclusivo da Europa.

É parte de uma estratégia global russa que se repete em vários continentes, incluindo África.

Países como a República Centro‑Africana, Mali, Sudão ou Líbia ( e Angola) já sentiram o impacto direto da presença mercenária russa, marcada por violência, captura de recursos e manipulação política.

A lógica é sempre a mesma: infiltrar‑se através de redes vulneráveis, explorar fragilidades institucionais e influenciar decisões estratégicas. Angola, com a sua relevância geopolítica e económica, está dentro deste tabuleiro.

É por isso que se torna problemático quando certos comentadores angolanos — incluindo defensores públicos da Rússia, como Rafael Marques — tratam estas questões como “invenções angolanas” ou como simples disputas internas.

Os factos mostram que estamos perante uma dinâmica global, documentada e reconhecida por múltiplos governos e serviços de inteligência.

Reduzir o debate a uma querela doméstica é ignorar que Angola está inserida num mundo onde operações de influência, desinformação e mercenarismo são instrumentos de política externa.

O caso europeu demonstra três verdades essenciais para Angola: a Rússia utiliza mercenários e redes paralelas para atingir objetivos estratégicos; escolhe alvos com vulnerabilidades políticas ou económicas; e aposta na desestabilização como método.

Se isto acontece em países altamente institucionalizados, não há razão para supor que Angola — com instituições mais frágeis e maior exposição a influências externas — esteja imune.

Tratar o tema com seriedade não é alinhar com o Ocidente, nem hostilizar a Rússia.

É reconhecer que a soberania angolana depende da capacidade de compreender estas dinâmicas globais e de se proteger delas. Minimizar o problema não fortalece Angola; fragiliza‑a.