Higino Carneiro, o homem da servidão voluntária, prepara-se para acender simbolicamente a sua velinha, tentando transmutar em epopeia pessoal os escombros de uma ambição gorada. Enredado em caminhos ínvios e aconselhado por estrategas de conveniência, tentou emergir como o herói ferido de uma embrulhada fraudulenta. No entanto, acabou abandonado à própria sorte, atirado para a fogueira por um cordão de fiéis e interessados que optaram pela cobardia do silêncio e pela resignação cúmplice de um analfabetismo político funcional.
Na génese desta saga, Higino assumiu-se como o estandarte de um núcleo em busca desesperada de impunidade. O plano ambicionava uma transição calculada de entrega do Poder, (num arranjo de costas viradas aos reais anseios populares), à UNITA de uma liderança percepcionada como frágil e submissa. O objetivo último passava por acomodar interesses instalados, garantindo imunidades cruzadas perante uma inquisição futura, enquanto o próprio se travestia de um democrata de pacotilha, credor de uma alternância fingida.
Parece enredo de ficção especulativa, mas os bastidores da política angolana continuam a produzir episódios delirantes que, inevitavelmente, virão totalmente a público. O mais grave é o rasto de ilusões que arrastou consigo, deixando militantes e observadores, dentro e fora de portas, amarrados a correntes caudalosas de expectativas vãs.
As ondas de choque deste imbróglio mantêm-se ativas na subsuperfície de uma ação subversiva pautada pela conveniência ocasional. O cenário pós-congresso do MPLA desenha-se como um momento de reafirmação de rumos, onde a ordem pública e a estabilidade institucional não toleram aventuras ou atalhos fracturantes. Para a percepção da cidadania atenta, o imperativo continua a ser a consolidação da mudança de paradigma iniciada em 2017 e consolidada no horizonte político de 2022.
Do lado oposto, a UNITA permanece politicamente aprisionada às amarras do passado, estacionada num vazio estratégico que espelha o vazio tático que caracterizou a cruzada de Higino Carneiro. Não admira, por isso, a estranha convergência e o paralelismo dos discursos que se aglomeram, em defesa de causas perdidas, nas redes sociais digitais.
Questão para reflexão: As movimentações e clivagens internas no ecossistema político angolano, especialmente os episódios que envolvem figuras do tecido histórico como Higino Carneiro, as disputas em torno do IX Congresso do MPLA e o posicionamento da oposição, oferecem um diagnóstico claro sobre a evolução da cultura política em Angola.
A Ilusão do Paralelepípedo Político (Redes Sociais e Realidade do Terreno), existe um paralelismo notável entre os movimentos de apoio nas redes sociais digitais e a criação de correntes de opinião artificiais.
A militância de base tradicional em Angola continua a residir nas comunidades, nos Comités de Acção do Partido (CAP) e nas estruturas locais. As narrativas de bastidores construídas por “estrategas virtuais” ou alianças de conveniência tendem a naufragar quando confrontadas com o pragmatismo das bases, que priorizam a estabilidade, a ordem pública e os serviços sociais essenciais em detrimento de aventuras de engenharia política.
O Risco de Bicefalia e a Consolidação Institucional, a gestão do calendário pré e pós-congresso do partido no poder toca no ponto fulcral da estabilidade governativa: a convivência entre o controlo do aparelho partidário e a liderança do Estado.
Se as movimentações internas derivarem numa percepção de fraqueza ou divisão no topo, as bases tenderão a reorganizar-se para proteger o poder institucional. A resiliência do eleitorado pragmático apoia-se na premissa de que a continuidade das reformas e a preservação da estabilidade nacional (a mudança de paradigma desenhada a partir de 2017) são preferíveis ao risco da imprevisibilidade ou da ruptura violenta.
O Desafio da UNITA e a Falha na Alternativa Concreta: A incapacidade de certas lideranças da oposição em capitalizar as fendas internas dos seus adversários deve-se, em grande parte, à sua própria armadilha estratégica: a dependência de narrativas do passado e a fixação em alianças de oportunidade com dissidentes do regime.
As bases populares (mesmo as descontentes) não encontram uma alternativa sólida de governação, o que reforça involuntariamente o projeto de continuidade da liderança em exercício, por ser visto como o único vetor com capacidade real de garantia da estabilidade e coesão do Estado.
Em suma, o impacto a longo prazo indica que a era dos arranjos de bastidores com figuras isoladas está a perder eficácia moral e tática. O futuro do xadrez político angolano dependerá da capacidade do partido no poder em converter o desfecho do seu Congresso numa entrega efetiva de resultados à cidadania, mantendo as bases mobilizadas em torno de ideais de desenvolvimento real e não apenas no combate a “fantasmas” de transições negociadas.
A cidadania já incorporou a dinâmica do Governo, e entregou-se à lógica do desenvolvimento que é factual, daí apostar com convicção capaz de dar uma Maioria Parlamentar ao MPLA, para criar condições de uma Revisão Constitucional, que abra caminho à Nova República.

