Confusões ideológicas

ByAnselmo Agostinho

3 de Novembro, 2026

Há uma contradição cada vez mais visível em parte da oposição como a UNITA, em Angola, e Venâncio Mondlane, em Moçambique. Essa contradição resulta da distância crescente entre as famílias ideológicas internacionais a que afirmam pertencer e muitos dos discursos produzidos pelos seus dirigentes, militantes e apoiantes.

A UNITA integra a Internacional Democrata do Centro (IDC-CDI), a principal organização mundial dos partidos democratas-cristãos e de centro-direita democrática. A IDC-CDI define-se como uma organização comprometida com a democracia liberal, os direitos humanos, o Estado de direito, o pluralismo político e a rejeição explícita do autoritarismo e do extremismo. As suas raízes encontram-se na tradição democrata-cristã europeia, a mesma família política que produziu líderes como Konrad Adenauer, Helmut Kohl ou Angela Merkel.

A filiação da UNITA nesta família política não é uma questão marginal. O partido é reconhecido internacionalmente como membro da IDC-CDI e procura apresentar-se como uma força de centro-direita democrática, reformista e constitucional.

Por seu lado, a Anamola de Venâncio Mondlane acaba de ser eleita em Bangkok por unanimidade membro efectivo da Internacional Liberal. A tradição liberal internacional assenta historicamente na defesa do Estado de direito, da limitação do poder do Estado, das liberdades civis, da economia de mercado e da tolerância política.

O problema surge quando se passa à observação do discurso político concreto.

Em ambos os casos, verifica-se frequentemente a circulação de ideias e referências que pouco têm a ver com a tradição democrata-cristã ou liberal.

Entre sectores próximos da UNITA e entre muitos apoiantes de Mondlane é possível encontrar grande admiração por figuras como Jair Bolsonaro ou pelo Chega em Portugal.

Estas correntes não pertencem à tradição democrata-cristã clássica nem ao liberalismo político tradicional. Pelo contrário, caracterizam-se por tendências populistas, por uma visão plebiscitária da democracia, por fortes discursos anti-elite e por frequentes ataques às instituições intermédias. Embora seja discutível classificá-las genericamente como fascistas, é inegável que representam uma ruptura significativa com o consenso liberal-democrático do pós-guerra.

Daí emerge uma questão fundamental: o que exactamente defendem estes partidos? São partidos e lideranças ancorados numa visão ideológica coerente ou são plataformas de agregação do descontentamento popular? São, efectivamente, sacos de gatos e nada mais.

Em Angola, a UNITA transformou-se progressivamente numa grande coligação anti-MPLA, acolhendo sensibilidades muito diferentes entre si: liberais, conservadores, democratas-cristãos, nacionalistas, jovens contestatários e até sectores que pouco interesse demonstram por qualquer doutrina política consistente. Cabe lá tudo e nada.

Em Moçambique, o fenómeno é ainda mais evidente. O sucesso de Venâncio Mondlane assenta sobretudo na mobilização contra a FRELIMO e na denúncia das irregularidades eleitorais, mais do que na apresentação de um projecto ideológico claramente estruturado.

Quando chegar o momento de governar, as ambiguidades tornar-se-ão mais difíceis de esconder. A história mostra que conquistar o poder e exercer o poder são actividades distintas. A oposição pode viver de emoções, indignações e slogans.

Um governo necessita de uma doutrina minimamente coerente sobre economia, instituições, direitos, Estado e sociedade. Coisa que nem a UNITA, nem a ANAMOLA têm.