{"id":5856,"date":"2022-01-14T13:34:30","date_gmt":"2022-01-14T13:34:30","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=5856"},"modified":"2022-01-17T09:24:07","modified_gmt":"2022-01-17T09:24:07","slug":"a-carta-de-savimbi-a-pedir-ajuda-ao-exercito-portugues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=5856","title":{"rendered":"A carta de Savimbi a pedir ajuda ao ex\u00e9rcito portugu\u00eas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Jonas Savimbi, em Outubro de 1973, enviou esta carta ao capit\u00e3o Benjamim Almeida, que<\/p>\n\n\n\n<p>comandava uma companhia de artilharia da tropa portuguesa, aquartelada em Cangumbe e o<\/p>\n\n\n\n<p>protegia de poss\u00edveis ataques da guerrilha do MPLA:<\/p>\n\n\n\n<p>Senhor capit\u00e3o Almeida:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFiquei contente em receber a sua carta de 5.10.73. Que tenha feito uma boa viagem e pela sua carta depreendo que tudo tenha corrido o melhor poss\u00edvel, \u00e9 o que mais me alegra, pois associo aos seus sucessos pessoais a possibilidade de se falar no assunto. (Integra\u00e7\u00e3o da tropa da UNITA nas For\u00e7as Armadas Portuguesas). Quanto \u00e0 minha sa\u00fade vou muito melhor do que dantes, o que me cria condi\u00e7\u00f5es de pensar e analisar para penetrar os labirintos complexos da pol\u00edtica Angolana que est\u00e1 sendo fortemente influenciada pela opini\u00e3o mundial. \u00c9 este factor que tem tamb\u00e9m de pesar nas nossas decis\u00f5es pois embora Portugal sempre resolveu os seus problemas com a capacidade de uma na\u00e7\u00e3o independente, nem sempre os outros quiseram deixar os outros em Paz. A correla\u00e7\u00e3o e a interdepend\u00eancia das pol\u00edticas internas com as pol\u00edticas exteriores t\u00eam hoje a sua maior express\u00e3o no desenvolvimento dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, na unidade econ\u00f3mica que s\u00f3 projectam com maior facilidade as ambi\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses mais fortes e as tend\u00eancias ao imperialismo. Angola fica precisamente situada nessa encruzilhada. S\u00f3 os homens de uma vasta vis\u00e3o pol\u00edtica, podem evitar para Angola o que a Hist\u00f3ria dolorosamente escreveu na alma e nos corpos de outros pa\u00edses que muitas vezes foram projectados para o desconhecido com as nefastas consequ\u00eancias que se conhecem por a\u00ed fora.<\/p>\n\n\n\n<p>A minha experi\u00eancia permite-me pensar que n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas para os problemas pol\u00edticos nem um homem chave para decifrar tais equa\u00e7\u00f5es. Se de um lado a capacidade dos dirigentes pesa decididamente na correcta solu\u00e7\u00e3o dos problemas e Portugal tem homens \u00e0 altura, principalmente na distint\u00edssima pessoa de Sua Excel\u00eancia o Presidente do Conselho (Marcelo Caetano), h\u00e1 que se ter em conta as circunst\u00e2ncias que rodeiam as situa\u00e7\u00f5es que vivemos e a evolu\u00e7\u00e3o do Mundo. \u00c9 neste cap\u00edtulo que eu tenho de lamentar os processos utilizados pelas Autoridades estaduais em resolver os problemas de Angola, na hora em que o MPLA sofre a sua maior crise de sempre. O optimismo em demasia \u00e9 tamb\u00e9m reflexo do desconhecimento dos problemas desta \u00c1frica em constante muta\u00e7\u00e3o. &nbsp;Hoje j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 aliados definitivos e incondicionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Propus \u00e0s Autoridades do Luso o dia 20.10.73 para um encontro com o senhor Capit\u00e3o Benjamim o que espero poder\u00e1 materializar-se e assim terei mais um prazer de falar consigo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;(P\u00e1ginas 174 e 175 do livro Angola &#8211; O Conflito na Frente Leste).<\/p>\n\n\n\n<p>O encontro com o capit\u00e3o aconteceu. Savimbi, no dia 22 de Outubro, enviou-lhe a seguinte carta, entregue em m\u00e3o pelo tenente Sabino, da UNITA:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSenhor Capit\u00e3o Almeida:<\/p>\n\n\n\n<p>Esta tem por fim desejar-lhe boa sa\u00fade e que tenha tido um regresso agrad\u00e1vel depois do nosso encontro. O meu amigo PUNA e eu mesmo, fic\u00e1mos com uma excelente impress\u00e3o da sua pessoa e cremos que haver\u00e1 um campo largo de coopera\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as que comanda e as nossas, desde que uma oportunidade para isso se apresente. E ser\u00e1 com prazer que daremos esse passo mais \u00e0 frente na direc\u00e7\u00e3o da consolida\u00e7\u00e3o do que j\u00e1 conseguimos no decurso dos dois anos transactos. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a nossa conversa do dia 20 (Outubro de 1973) passado veio desanuviar grandemente a atmosfera das nossas rela\u00e7\u00f5es com o Luso (Comando da Zona Militar Leste das For\u00e7as Armadas Portuguesas) que estavam a tornar-se j\u00e1 de um equil\u00edbrio dif\u00edcil. Oxal\u00e1 que os factos que discutimos abertamente tenham no futuro uma interpreta\u00e7\u00e3o consent\u00e2nea com os maiores interesses das popula\u00e7\u00f5es do Leste e da Paz para Angola que continua Portugal em \u00c1frica, na sua forma mais actualizada. Estou bastante optimista que h\u00e1 um campo muito vasto em que a pol\u00edtica de Portugal em \u00c1frica pode ser consolidada, apesar dos vendavais movidos pelos ambiciosos que s\u00f3 t\u00eam o olho em casa de outrem. Haveria, \u00e9 certo, uma maneira mais curta para se resolverem os problemas da participa\u00e7\u00e3o da UNITA na vida Nacional na sua fase mais avan\u00e7ada da integra\u00e7\u00e3o. H\u00e1, por\u00e9m, factos que nos levam a andar mais devagar para que consigamos resultados mais duradouros. Embora a nossa vontade seria de resolver os nossos problemas entre n\u00f3s, isto \u00e9, em casa, temos e teremos por muito tempo que contar com a influ\u00eancia do estrangeiro, pois nem as alian\u00e7as de Portugal com o resto do mundo s\u00e3o isentas de trai\u00e7\u00f5es que s\u00f3 a cobi\u00e7a explica e muito menos as fronteiras de Angola com o resto de \u00c1frica podem ser hermeticamente fechadas. \u00c9 a situa\u00e7\u00e3o com a qual temos de nos medir, n\u00f3s e os vindouros, hoje e amanh\u00e3, para que a pol\u00edtica de multirracialidade encontre enfim os ecos que o mundo de hoje bem precisa para salvaguarda da Humanidade. O seu contributo ser\u00e1 enorme pois que a proximidade de Cangumbe connosco faz com que seja o elemento mais indicado para a troca de impress\u00f5es, quando isso for superiormente autorizado. Estamos esperando pela nota do Luso, para que se tomem as necess\u00e1rias provid\u00eancias para que a nossa delega\u00e7\u00e3o possa continuar as discuss\u00f5es a n\u00edvel mais alto.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o gostaria de ser inc\u00f3modo, mas \u00e9 a necessidade que me obriga a solicitar a sua boa vontade, caso possa faz\u00ea-lo, para me arranjar: Uma boa capa de chuva, um par de botas altas militares n\u00famero 42, cinco frascos de aero-om e algumas bisnagas de b\u00e1lsamo de mentol, pomada t\u00f3pica. Caso lhe seja poss\u00edvel adquiri-los, gostaria que me indicasse quanto \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tudo que se me oferece para hoje. Com respeito e amizade, Jonas Malheiro Savimbi\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>(P\u00e1ginas 199 e 200 do livro Angola- O Conflito na Frente Leste).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jonas Savimbi, em Outubro de 1973, enviou esta carta ao capit\u00e3o Benjamim Almeida, que comandava uma companhia de artilharia da tropa portuguesa, aquartelada em Cangumbe e o protegia de poss\u00edveis ataques da guerrilha do MPLA: Senhor capit\u00e3o Almeida: \u201cFiquei contente em receber a sua carta de 5.10.73. 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