{"id":16999,"date":"2026-11-06T10:13:05","date_gmt":"2026-11-06T09:13:05","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16999"},"modified":"2026-11-06T10:18:43","modified_gmt":"2026-11-06T09:18:43","slug":"microfisica-do-quotidiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16999","title":{"rendered":"Microf\u00edsica do Quotidiano"},"content":{"rendered":"\n<p>Hoje a democracia rege-se cada vez menos pelo modelo filos\u00f3fico, o desafio reside no pragmatismo pessoal das lideran\u00e7as, baseadas na confian\u00e7a, na seguran\u00e7a, no prest\u00edgio e na obra feita.<\/p>\n\n\n\n<p>As disputas deixaram de ser program\u00e1ticas, os confrontos assemelham-se a um jogo com equipas identificadas pelas suas cores e, a realidade dita-nos que elas n\u00e3o querem marcar golo, apenas querem ter raz\u00e3o e aspiram a que a outra n\u00e3o exista. \u00c9 assim em Angola, \u00e9 assim em todas as democracias no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>A crueldade, na microf\u00edsica do dia a dia, reside no facto de se criarem afetos identit\u00e1rios assentes na raz\u00e3o, a divis\u00e3o \u00e9 visceral, o outro nunca tem raz\u00e3o nem sequer deve existir. \u00c9 aqui que se instala a irracionalidade do debate: o essencial deixa de ser a sa\u00fade, o ensino ou a habita\u00e7\u00e3o, dando lugar ao ru\u00eddo do TikTok e aos c\u00e2nticos de rua, onde desfilam grupos devidamente uniformizados que tentam abafar a grande maioria silenciosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1989 caiu o Muro de Berlim, marcando a grande vit\u00f3ria da democracia e da liberdade. Contudo, ergueram-se outros muros e ficamos cada vez mais dependentes da macrof\u00edsica do Estado. No in\u00edcio deste s\u00e9culo surgiram as redes sociais que, com a sua penetra\u00e7\u00e3o maci\u00e7a, esbateu a raz\u00e3o (ou a falta dela) e criou um mundo de ilus\u00e3o moldado \u00e0 nossa medida.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 valores e viv\u00eancias que transformaram as sociedades, e Angola n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. A liberdade abre caminho \u00e0s op\u00e7\u00f5es de escolha: consomem-se cada vez mais iogurtes, fiambre e carne bovina, vendem-se mais televisores, frigor\u00edficos, viaturas, computadores e telem\u00f3veis. Isto \u00e9 consequ\u00eancia de um rumo de desenvolvimento que n\u00e3o \u00e9 veiculado pela propaganda das redes sociais digitais, mas que constitui uma realidade palp\u00e1vel que os agitadores tentam escamotear.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 cada vez mais cr\u00e9dito banc\u00e1rio ao consumo e ao investimento, planos de empreendedorismo financiados pelo Governo e um sem-n\u00famero de obras que escapam \u00e0 vista dos aven\u00e7ados da capital. No entanto, h\u00e1 um interior do Pa\u00eds que sente a proximidade da governa\u00e7\u00e3o, traduzindo-se numa estabilidade alcan\u00e7ada atrav\u00e9s de ciclos de decis\u00e3o cada vez mais curtos e eficazes.<\/p>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a substancial na pol\u00edtica atual j\u00e1 n\u00e3o se cinge ao eixo entre a esquerda e a direita, nem \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas com a habita\u00e7\u00e3o, o saneamento, o ensino e a sa\u00fade, reside antes no fosso entre a realidade governativa e o ru\u00eddo demag\u00f3gico de quem apenas aspira ao poder. Jo\u00e3o Manuel Gon\u00e7alves Louren\u00e7o desenhou habilmente uma estrat\u00e9gia de m\u00e9dio e longo prazo, projetada muito para al\u00e9m do seu mandato, enquanto a oposi\u00e7\u00e3o age no imediatismo ef\u00e9mero do curto prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>Angola tem de ser pensada e governada com uma perspetiva de 30 a 50 anos. Contudo, o jornalismo, funcionando como correia de transmiss\u00e3o entre muros, limita-se a discutir o imediatismo. O Senhor Presidente da Rep\u00fablica \u00e9 um homem informado, preparado e com uma viv\u00eancia internacional \u00edmpar, perfeitamente integrado nos grandes desafios globais, raz\u00e3o pela qual o Pa\u00eds n\u00e3o pode prescindir da sua lideran\u00e7a e vis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, entra-se no WhatsApp como quem empunha uma arma para difundir ideias, carregamos o com\u00edcio no bolso. Mas, ao mesmo tempo, na mesma mesa de restaurante ou no mesmo meio de transporte, est\u00e1 outro cidad\u00e3o a veicular a sua pr\u00f3pria narrativa. Contudo, o mundo \u00e9 muito mais do que isso e est\u00e1 em permanente evolu\u00e7\u00e3o. Existe o algoritmo que se molda aos nossos desejos: se demonstrar interesse em comprar uma camisola do 1\u00ba de Agosto, surgem de imediato propostas comerciais, tal como acontece para quem procura do Petro, do Benfica ou do Real Madrid.<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria silenciosa j\u00e1 n\u00e3o se deixa enredar por promessas vazias nem se deixa influenciar por aqueles que, comodamente, vivem em cima do muro da divis\u00e3o. Estes \u00faltimos, sim, vivem exclusivamente da pol\u00edtica. Assistimos hoje a uma metamorfose factual: j\u00e1 n\u00e3o se fazem promessas, geram-se d\u00favidas e incertezas, acenando-se com uma vaga vontade de vencer e de ir t\u00e3o longe quanto poss\u00edvel, esquecendo que o futuro constr\u00f3i-se com o contributo de todos.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, h\u00e1 um caminho estrutural que Angola ainda precisa de percorrer, o qual poder\u00e1 constituir a matriz da pr\u00f3xima Revis\u00e3o Constitucional: a supera\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-hist\u00f3rica das antigas siglas fundadoras, concebendo um memorial que encerre o seu ciclo como divisores da Identidade Nacional. Elas representam hoje fronteiras intranspon\u00edveis de uma heran\u00e7a enraizada a que urge p\u00f4r termo, constituindo um bloqueio inultrapass\u00e1vel \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o de uma verdadeira democracia de cidad\u00e3os. Sempre acreditei que Jo\u00e3o Manuel Gon\u00e7alves Louren\u00e7o estivesse talhado para ser o precursor deste desiderato hist\u00f3rico.<br>Segundo a filosofia aristot\u00e9lica, o Povo vive politicamente uma dupla realidade, um fen\u00f3meno que tamb\u00e9m se observou nos Estados Unidos da Am\u00e9rica. Nixon disse certa vez aos seus assessores, com o seu habitual ar circunspecto, que Kennedy era bonito, bem falante, rico e vivia num mundo poderoso, enquanto ele pr\u00f3prio representava o oposto. No entanto, os soci\u00f3logos constataram que Kennedy simbolizava aquilo que os americanos gostariam de ser, ao passo que Nixon representava aquilo que eles eram. Nixon venceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Angola conta hoje com mais escolas e mais alunos em idade escolar, constituindo este o maior avan\u00e7o na constru\u00e7\u00e3o do futuro. Em cada escola serve-se uma refei\u00e7\u00e3o equilibrada em prote\u00ednas e calorias, e s\u00e3o estas realiza\u00e7\u00f5es concretas que distinguem Angola no contexto africano perante as estat\u00edsticas internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O verdadeiro desenvolvimento de uma na\u00e7\u00e3o n\u00e3o se mede apenas pelos quil\u00f3metros de estrada asfaltada ou pelas toneladas escoadas, mas pela capacidade de transformar o capital humano numa for\u00e7a aut\u00f3noma e consciente. Quando o Estado investe na forma\u00e7\u00e3o integral das novas gera\u00e7\u00f5es e na valoriza\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito, desarma os radicalismos e constr\u00f3i uma cidadania imune \u00e0 demagogia digital.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O ano de 2027 ser\u00e1 um marco de continuidade do rumo tra\u00e7ado. J\u00e1 n\u00e3o se trata apenas de uma perce\u00e7\u00e3o: os indicadores revelam a esperan\u00e7a da cidadania no MPLA como matriz da mudan\u00e7a com estabilidade. N\u00e3o haver\u00e1 lugar para aventureiros oportunistas que se revelam, a cada dia que passa, como agentes hipotec\u00e1rios desta terra que a todos pertence. Este \u00e9 o caminho do futuro, a certeza da democracia, da liberdade e do pragmatismo que nos conduzir\u00e1, em definitivo, \u00e0 Nova Rep\u00fablica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje a democracia rege-se cada vez menos pelo modelo filos\u00f3fico, o desafio reside no pragmatismo pessoal das lideran\u00e7as, baseadas na confian\u00e7a, na seguran\u00e7a, no prest\u00edgio e na obra feita. 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