{"id":16963,"date":"2026-10-25T10:16:14","date_gmt":"2026-10-25T09:16:14","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16963"},"modified":"2026-10-25T10:21:20","modified_gmt":"2026-10-25T09:21:20","slug":"a-arrogancia-dos-indices-porque-o-v-dem-falha-ao-analisar-angola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16963","title":{"rendered":"A Arrog\u00e2ncia dos \u00cdndices: porque o V-Dem falha ao analisar Angola"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O mais problem\u00e1tico no relat\u00f3rio do V-Dem da Universidade de Gotemburgo n\u00e3o \u00e9 a conclus\u00e3o de que Angola seria uma &#8220;autocracia eleitoral&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p>O verdadeiro problema reside na extraordin\u00e1ria pretens\u00e3o cient\u00edfica de um grupo de acad\u00e9micos europeus que acredita ser poss\u00edvel reduzir sistemas pol\u00edticos complexos, hist\u00f3rias nacionais singulares e realidades sociol\u00f3gicas profundamente distintas a um conjunto de indicadores num\u00e9ricos preenchidos em folhas de c\u00e1lculo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por detr\u00e1s da apar\u00eancia t\u00e9cnica e da linguagem sofisticada esconde-se uma velha tradi\u00e7\u00e3o intelectual: a convic\u00e7\u00e3o euroc\u00eantrica de que as sociedades ocidentais definem os padr\u00f5es universais da boa governa\u00e7\u00e3o e que todos os outros pa\u00edses devem ser avaliados em fun\u00e7\u00e3o dessa r\u00e9gua. <\/p>\n\n\n\n<p>O V-Dem parte da premissa de que existe um modelo ideal de democracia liberal, essencialmente inspirado pelas experi\u00eancias da Europa Ocidental e da Am\u00e9rica do Norte, e mede todos os pa\u00edses segundo a sua proximidade ou afastamento desse modelo. <\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que tal abordagem dificilmente constitui ci\u00eancia. \u00c9 sobretudo uma forma de normatividade pol\u00edtica mascarada de objectividade estat\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A primeira fragilidade \u00e9 metodol\u00f3gica. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Grande parte dos indicadores do V-Dem baseia-se em avalia\u00e7\u00f5es subjectivas de peritos seleccionados pelos pr\u00f3prios coordenadores do projecto. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de vari\u00e1veis objectivamente quantific\u00e1veis como infla\u00e7\u00e3o, mortalidade infantil ou crescimento econ\u00f3mico. S\u00e3o opini\u00f5es especializadas transformadas em n\u00fameros. <\/p>\n\n\n\n<p>O resultado final adquire uma apar\u00eancia matem\u00e1tica que transmite autoridade, mas continua a assentar em julgamentos humanos, inevitavelmente influenciados por vis\u00f5es ideol\u00f3gicas, culturais e pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A segunda fragilidade \u00e9 o desconhecimento profundo das realidades africanas. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A maioria dos acad\u00e9micos que produzem estas classifica\u00e7\u00f5es nunca administrou um munic\u00edpio africano, nunca liderou uma campanha eleitoral em \u00c1frica, nunca geriu um partido pol\u00edtico africano e, muitas vezes, nunca viveu de forma prolongada nos pa\u00edses que classificam. Apesar disso, sentem-se confort\u00e1veis em atribuir notas decimalizadas \u00e0 qualidade do debate p\u00fablico em Angola, \u00e0 participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na Z\u00e2mbia ou \u00e0 delibera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em Mo\u00e7ambique. <\/p>\n\n\n\n<p>Existe aqui uma evidente petul\u00e2ncia intelectual: observadores externos que conhecem as sociedades atrav\u00e9s de relat\u00f3rios secund\u00e1rios assumem possuir uma compreens\u00e3o superior \u00e0 dos pr\u00f3prios actores pol\u00edticos que nelas operam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A terceira fragilidade \u00e9 o enviesamento cultural.<\/strong> <\/p>\n\n\n\n<p>O relat\u00f3rio valoriza determinados comportamentos pol\u00edticos t\u00edpicos das democracias liberais ocidentais e desvaloriza formas diferentes de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. As sociedades africanas possuem hist\u00f3rias, estruturas sociais e modalidades de constru\u00e7\u00e3o do consenso distintas das que emergiram na Europa ap\u00f3s s\u00e9culos de desenvolvimento institucional. Por\u00e9m, para o V-Dem, qualquer desvio relativamente ao modelo liberal ocidental surge imediatamente como defici\u00eancia democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Existe ainda uma contradi\u00e7\u00e3o raramente discutida. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Muitos dos pa\u00edses que servem implicitamente de refer\u00eancia para estes \u00edndices atravessam crises profundas de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, polariza\u00e7\u00e3o social, desconfian\u00e7a institucional e degrada\u00e7\u00e3o do debate p\u00fablico. Em v\u00e1rios Estados europeus e norte-americanos observa-se uma crescente dist\u00e2ncia entre elites e cidad\u00e3os, uma redu\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o eleitoral e uma expans\u00e3o sem precedentes do populismo. Apesar disso, permanecem nos escal\u00f5es superiores dos rankings, enquanto pa\u00edses africanos s\u00e3o classificados como deficientes por n\u00e3o reproduzirem exactamente os mesmos modelos institucionais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Outro problema grave prende-se com a ilus\u00e3o da comparabilidade universal. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O V-Dem coloca Angola, Seicheles, Maur\u00edcias, Su\u00e9cia, Canad\u00e1 e Jap\u00e3o dentro da mesma grelha anal\u00edtica, como se as respectivas traject\u00f3rias hist\u00f3ricas fossem compar\u00e1veis. Ignora-se que Angola emergiu apenas h\u00e1 pouco mais de duas d\u00e9cadas de uma das guerras civis mais longas e devastadoras de \u00c1frica. Ignora-se igualmente que a constru\u00e7\u00e3o institucional em contextos p\u00f3s-conflito obedece frequentemente a prioridades diferentes das observadas em democracias consolidadas que beneficiaram de s\u00e9culos de estabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A classifica\u00e7\u00e3o de Angola como &#8220;autocracia eleitoral&#8221; diz talvez menos sobre Angola do que sobre as pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es conceptuais do modelo utilizado. <\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds possui problemas reais e evidentes. <\/p>\n\n\n\n<p>Existem debates leg\u00edtimos sobre a independ\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es, o pluralismo medi\u00e1tico, a administra\u00e7\u00e3o eleitoral e a competi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Mas discutir essas quest\u00f5es exige conhecimento emp\u00edrico, contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e an\u00e1lise qualitativa s\u00e9ria. N\u00e3o exige necessariamente a atribui\u00e7\u00e3o de um n\u00famero entre zero e um produzido a milhares de quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>O aspecto mais preocupante \u00e9 a crescente transforma\u00e7\u00e3o destes \u00edndices em instrumentos de autoridade moral. <\/p>\n\n\n\n<p>A simples men\u00e7\u00e3o da Universidade de Gotemburgo ou de um laborat\u00f3rio acad\u00e9mico europeu basta, para muitos observadores, para encerrar o debate. Como se a origem geogr\u00e1fica do conhecimento garantisse automaticamente a sua validade cient\u00edfica. <\/p>\n\n\n\n<p>Esta atitude revela uma <strong>mentalidade colonial persistente no espa\u00e7o intelectual contempor\u00e2neo:<\/strong> a ideia de que a Europa continua a deter o monop\u00f3lio da avalia\u00e7\u00e3o e da certifica\u00e7\u00e3o da qualidade institucional dos outros povos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mais problem\u00e1tico no relat\u00f3rio do V-Dem da Universidade de Gotemburgo n\u00e3o \u00e9 a conclus\u00e3o de que Angola seria uma &#8220;autocracia eleitoral&#8221;. 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