{"id":16961,"date":"2026-10-25T10:07:48","date_gmt":"2026-10-25T09:07:48","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16961"},"modified":"2026-10-25T10:21:12","modified_gmt":"2026-10-25T09:21:12","slug":"as-13-burrices-da-unita-e-de-hitler-samussuku","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16961","title":{"rendered":"As 13 Burrices da UNITA e de Hitler Samussuku"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O artigo de Hitler Samussuku intitulado \u201c13 teses em defesa de Higino Carneiro\u201d \u00e9 um exerc\u00edcio de parvo\u00edce pol\u00edtica. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9  um retrato de uma oposi\u00e7\u00e3o que perdeu o rumo estrat\u00e9gico e que, em vez de concentrar energias na conquista do poder, prefere envolver-se nas disputas internas do partido advers\u00e1rio. Ao dedicar treze longas teses \u00e0 defesa de um candidato do MPLA, Samussuku acaba por expor um problema mais profundo: a crescente incapacidade de certos sectores da UNITA para distinguirem os seus interesses dos interesses de uma fac\u00e7\u00e3o do MPLA ligada ao &#8220;santismo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira burrice consiste em acreditar que a sucess\u00e3o interna do MPLA \u00e9 uma prioridade para a oposi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9. Para qualquer partido que pretenda governar Angola, a quest\u00e3o essencial deveria ser como derrotar o MPLA nas urnas. A escolha do presidente do MPLA \u00e9 um assunto dos militantes do MPLA. O facto de alguns opositores acompanharem esse processo com mais entusiasmo do que acompanham os problemas internos da pr\u00f3pria UNITA diz muito sobre a sua perda de foco.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda burrice \u00e9 transformar Higino Carneiro num s\u00edmbolo da democracia interna. Higino Carneiro n\u00e3o surge na vida pol\u00edtica angolana como um reformador institucional ou um combatente da democratiza\u00e7\u00e3o do sistema. Foi uma das figuras centrais do aparelho pol\u00edtico e militar que sustentou d\u00e9cadas de governa\u00e7\u00e3o do MPLA. Retrat\u00e1-lo agora como v\u00edtima de exclus\u00e3o democr\u00e1tica exige um revisionismo hist\u00f3rico dif\u00edcil de sustentar.<\/p>\n\n\n\n<p>A terceira burrice consiste em apresentar a pluralidade de candidaturas no MPLA como se fosse uma grande conquista nacional. O debate interno do MPLA pode ter interesse para os seus membros. Mas o problema central de Angola n\u00e3o \u00e9 se Higino Carneiro ou Jo\u00e3o Louren\u00e7o lideram o partido. O problema central \u00e9 a qualidade da governa\u00e7\u00e3o, o crescimento econ\u00f3mico, o emprego e o Estado de Direito.<\/p>\n\n\n\n<p>A quarta burrice \u00e9 ignorar completamente o passado pol\u00edtico de Higino Carneiro. Samussuku dedica milhares de palavras aos seus direitos pol\u00edticos internos, mas quase nenhuma ao balan\u00e7o da sua actua\u00e7\u00e3o enquanto governador, dirigente partid\u00e1rio e figura influente do Estado. A democracia n\u00e3o consiste apenas no direito de concorrer. Consiste tamb\u00e9m no dever de prestar contas.<\/p>\n\n\n\n<p>A quinta burrice \u00e9 defender um candidato do MPLA com mais vigor do que muitos militantes do pr\u00f3prio MPLA. \u00c9 dif\u00edcil encontrar textos de membros do partido no poder t\u00e3o empenhados na promo\u00e7\u00e3o da candidatura de Higino Carneiro quanto este artigo de um autor que se apresenta como opositor.<\/p>\n\n\n\n<p>A sexta burrice \u00e9 repetir o erro estrat\u00e9gico de 2022. Nessa altura, v\u00e1rios sectores pr\u00f3ximos da UNITA alimentaram a ilus\u00e3o de que determinadas figuras ligadas ao universo dos Santos poderiam contribuir para a derrota do MPLA. As chamadas &#8220;manas dos Santos&#8221; foram transformadas em s\u00edmbolos de mudan\u00e7a. O resultado foi nulo. Hoje, o mesmo padr\u00e3o repete-se com Higino Carneiro. Em vez de construir uma alternativa pr\u00f3pria, aposta-se novamente num dissidente do MPLA.<\/p>\n\n\n\n<p>A s\u00e9tima burrice \u00e9 a mais reveladora: esta obsess\u00e3o por candidatos do MPLA demonstra uma falta de confian\u00e7a na vit\u00f3ria da pr\u00f3pria UNITA. Um partido convencido de que vai conquistar o poder n\u00e3o perde tempo a organizar torcidas por candidatos advers\u00e1rios. Quando dirigentes, comentadores e activistas da oposi\u00e7\u00e3o passam meses a discutir quem deve liderar o MPLA, transmitem involuntariamente uma mensagem simples: acreditam mais nas solu\u00e7\u00f5es vindas de dentro do MPLA do que na capacidade de Adalberto Costa J\u00fanior conquistar e exercer o poder.<\/p>\n\n\n\n<p>A oitava burrice \u00e9 transformar a oposi\u00e7\u00e3o numa fac\u00e7\u00e3o do santismo. Uma parte da UNITA parece ter substitu\u00eddo a luta contra a hegemonia do MPLA pela defesa dos sectores do MPLA derrotados por Jo\u00e3o Louren\u00e7o. O objectivo deixa de ser conquistar o poder e passa a ser apoiar uma determinada tend\u00eancia interna do partido governante. Isto n\u00e3o \u00e9 oposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 participa\u00e7\u00e3o indirecta numa guerra de fac\u00e7\u00f5es alheia.<\/p>\n\n\n\n<p>A nona burrice \u00e9 presumir que a ascens\u00e3o de Higino Carneiro fortaleceria necessariamente a UNITA. Uma coisa n\u00e3o tem a ver com a outra.<\/p>\n\n\n\n<p>A d\u00e9cima burrice consiste em tratar os problemas internos do MPLA como se fossem equivalentes aos problemas internos da democracia angolana. N\u00e3o s\u00e3o. A democracia angolana n\u00e3o depende da sorte pol\u00edtica de Higino Carneiro. Depende da exist\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es fortes, elei\u00e7\u00f5es cred\u00edveis e partidos capazes de competir por apoio popular.<\/p>\n\n\n\n<p>A d\u00e9cima primeira burrice \u00e9 a aus\u00eancia de qualquer reflex\u00e3o sobre os custos eleitorais desta posi\u00e7\u00e3o. Como explicar ao eleitor da UNITA que, perante desemprego, pobreza e dificuldades sociais, alguns dos seus intelectuais consideram priorit\u00e1rio escrever treze teses sobre os direitos pol\u00edticos de um dirigente hist\u00f3rico do MPLA?<\/p>\n\n\n\n<p>A d\u00e9cima segunda burrice \u00e9 cair numa armadilha emocional. O texto procura construir uma narrativa moral em torno da alegada injusti\u00e7a sofrida por Higino Carneiro. Por\u00e9m, a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 um concurso de simpatias pessoais. \u00c9 uma disputa de projectos, interesses e programas. Um opositor n\u00e3o deve ser mobilizado pela sorte individual de dirigentes do partido advers\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, a d\u00e9cima terceira burrice \u00e9 a incapacidade de compreender a mensagem transmitida ao pa\u00eds. Quando um dos mais prolixos defensores da oposi\u00e7\u00e3o dedica um manifesto inteiro a um candidato do MPLA, a conclus\u00e3o inevit\u00e1vel para muitos cidad\u00e3os \u00e9 que a UNITA j\u00e1 n\u00e3o acredita plenamente no seu pr\u00f3prio caminho. Em vez de projectar confian\u00e7a na lideran\u00e7a de Adalberto Costa J\u00fanior, projecta depend\u00eancia psicol\u00f3gica das din\u00e2micas internas do MPLA.<\/p>\n\n\n\n<p>No fundo, o texto de Hitler Samussuku diz menos sobre Higino Carneiro do que sobre uma doen\u00e7a pol\u00edtica que afecta sectores da oposi\u00e7\u00e3o angolana. A mesma oposi\u00e7\u00e3o que em 2022 depositou expectativas desproporcionadas em figuras associadas ao cl\u00e3 dos Santos procura agora encontrar num hist\u00f3rico dirigente do MPLA as respostas que deveria procurar em si pr\u00f3pria. \u00c9 um erro de an\u00e1lise, um erro estrat\u00e9gico e um erro pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma oposi\u00e7\u00e3o vencedora prepara-se para governar. Uma oposi\u00e7\u00e3o insegura discute quem deve liderar o partido que pretende derrotar. <\/p>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a entre uma e outra est\u00e1 precisamente a\u00ed. E \u00e9 por isso que as treze teses de defesa de Higino Carneiro acabam por revelar n\u00e3o a for\u00e7a da oposi\u00e7\u00e3o, mas as suas fragilidades mais profundas.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O artigo de Hitler Samussuku intitulado \u201c13 teses em defesa de Higino Carneiro\u201d \u00e9 um exerc\u00edcio de parvo\u00edce pol\u00edtica. \u00c9 um retrato de uma oposi\u00e7\u00e3o que perdeu o rumo estrat\u00e9gico e que, em vez de concentrar energias na conquista do poder, prefere envolver-se nas disputas internas do partido advers\u00e1rio. 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