{"id":16857,"date":"2026-09-15T14:16:58","date_gmt":"2026-09-15T13:16:58","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16857"},"modified":"2026-09-15T14:21:14","modified_gmt":"2026-09-15T13:21:14","slug":"a-unita-e-ibrahim-traore-uma-alianca-tragica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16857","title":{"rendered":"A UNITA e Ibrahim Traor\u00e9: Uma Alian\u00e7a Tr\u00e1gica"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A ado\u00e7\u00e3o de figuras como Ibrahim Traor\u00e9 e a associa\u00e7\u00e3o a lideran\u00e7as marcadas por instabilidade institucional, como foi o caso do deposto Umaro Sissoco Embal\u00f3 na Guin\u00e9-Bissau, levantam s\u00e9rios e leg\u00edtimos motivos de preocupa\u00e7\u00e3o para o panorama pol\u00edtico em Angola.<\/p>\n\n\n\n<p>Analisando o contexto geoestrat\u00e9gico e a hist\u00f3ria pol\u00edtica angolana, esta tend\u00eancia encerra v\u00e1rios perigos profundos: quando um partido que se diz ter voca\u00e7\u00e3o de poder como a UNITA olha para juntas militares e l\u00edderes autocr\u00e1ticos do Sahel como modelos de governa\u00e7\u00e3o, valida-se perigosamente a ideia de que a ordem constitucional pode ser subvertida em nome da &#8220;urg\u00eancia&#8221; ou da justi\u00e7a social. Para um pa\u00eds como Angola, que demorou d\u00e9cadas a estabilizar e a consolidar a via civil e eleitoral ap\u00f3s um longo conflito armado, flertar com a ret\u00f3rica golpista \u00e9 abrir a porta a um retrocesso civilizacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A admira\u00e7\u00e3o por l\u00edderes de cariz populista e autorit\u00e1rio tende a importar para o debate interno uma cultura de terra queimada. A pol\u00edtica passa a ser vista como uma luta existencial contra &#8220;traidores&#8221; ou for\u00e7as ocultas, e enfraquece-se a cren\u00e7a na democracia representativa, na separa\u00e7\u00e3o de poderes e no escrut\u00ednio parlamentar, substituindo-os pelo culto \u00e0 for\u00e7a individual.<\/p>\n\n\n\n<p>Angola desempenha tradicionalmente um papel de media\u00e7\u00e3o e de estabilidade na regi\u00e3o (seja na SADC ou na \u00c1frica Central). Alinhar-se, mesmo que simbolicamente, atrav\u00e9s de simpatias partid\u00e1rias, com o eixo de juntas militares contestadas na \u00c1frica Ocidental prejudica a credibilidade externa do pa\u00eds e cria fraturas diplom\u00e1ticas desnecess\u00e1rias, enviando um sinal d\u00fabio sobre o compromisso com o Estado de direito democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, quando a oposi\u00e7\u00e3o principal de um Estado democr\u00e1tico come\u00e7a a encontrar inspira\u00e7\u00e3o em l\u00edderes fardados e contestados, o risco n\u00e3o \u00e9 apenas para a imagem do partido, mas sim para a pr\u00f3pria previsibilidade e paz institucional de Angola, que tem tudo a perder se trocar a aspira\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica pelos falsos atalhos do autoritarismo militar.<\/p>\n\n\n\n<p>A ascens\u00e3o de Ibrahim Traor\u00e9 ao poder no Burkina Faso foi inicialmente recebida por uma parcela da popula\u00e7\u00e3o e por observadores internacionais com um misto de esperan\u00e7a e ceticismo. Prometendo resgatar o pa\u00eds do flagelo do terrorismo jihadista e romper com a depend\u00eancia neocolonial, nomeadamente da Fran\u00e7a, Traor\u00e9 encarnou temporariamente a imagem do jovem l\u00edder revolucion\u00e1rio. Contudo, a realidade no terreno revela hoje uma rota perigosa, marcada por deriva autorit\u00e1ria, del\u00edrios de persegui\u00e7\u00e3o e um agravamento sist\u00e9mico dos direitos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>O que se desenha em Ouagadougou \u00e9 o gui\u00e3o cl\u00e1ssico que tantas vezes feriu o continente africano: a transforma\u00e7\u00e3o de um salvador fardado num ditador lun\u00e1tico e implac\u00e1vel. Vozes cr\u00edticas, jornalistas e ativistas que ousaram questionar os rumos da junta militar enfrentam raptos arbitr\u00e1rios, deten\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias e, em v\u00e1rios casos, a conscri\u00e7\u00e3o for\u00e7ada para as linhas da frente do combate. A liberdade de imprensa foi praticamente extinta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que a situa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a piora e vastas regi\u00f5es do pa\u00eds continuam sob o controlo de grupos armados, o regime opta pela narrativa paranoica do &#8220;inimigo interno&#8221;. Qualquer falha estrat\u00e9gica \u00e9 desculpada com teorias de conspira\u00e7\u00e3o sobre golpes estrangeiros ou trai\u00e7\u00f5es fantasmag\u00f3ricas. As ruas de Ouagadougou foram inundadas por propaganda que eleva Traor\u00e9 a uma figura quase messi\u00e2nica, intolerante a qualquer escrut\u00ednio democr\u00e1tico ou debate plural sobre o futuro institucional do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Para um continente que tem lutado duramente para consolidar processos democr\u00e1ticos e afastar-se do ciclo infind\u00e1vel de golpes de Estado dos s\u00e9culos XX e XXI, a governa\u00e7\u00e3o de Traor\u00e9 representa um retrocesso doloroso.&nbsp;Sob o pretexto da soberania e da urg\u00eancia antiterrorista, repete-se o erro fatal de acreditar que a suspens\u00e3o de liberdades fundamentais traz estabilidade. Pelo contr\u00e1rio, o isolamento internacional, a asfixia econ\u00f3mica e a repress\u00e3o interna apenas alimentam o caldo de cultura perfeito para a continua\u00e7\u00e3o da instabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Burkina Faso merecia um futuro de verdadeira liberta\u00e7\u00e3o e progresso. Em vez disso, corre o risco de ficar ref\u00e9m de mais um messias de uniforme, cujo del\u00edrio de poder amea\u00e7a destruir o que resta da coes\u00e3o nacional. Foi assim com Mobutu Sesse Seko, que reduziu o Zaire (RDC) a uma coutada da sua etnia, coadjuvado por um grupo de mercen\u00e1rios liderados pelo franco-belga Bob Denard.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi h\u00e1 muito que vimos a UNITA, do monarca Mbundo General Lukamba &#8220;Miau&#8221; Gato e do l\u00edder deprimido e subserviente, bacharel tirano, psicopata e intruj\u00e3o, Brigadeiro ACJ &#8220;Betinho&#8221;, proclamar hosanas ao seu \u00eddolo Traor\u00e9, afirmando mesmo, categoricamente, ser um modelo exemplar para Angola e para \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 este cen\u00e1rio de terror que hoje flagela o Burkina Faso que o Galo Negro poderia estabelecer em Angola; mas, felizmente, tudo est\u00e1 a revelar-se a tempo de n\u00e3o cair no engodo. A cidadania est\u00e1 atenta e consciente do perigo, e os aliados desestabilizadores internos no MPLA t\u00eam de ser chamados \u00e0 responsabilidade&nbsp;para que parem com o rasto de trag\u00e9dia e n\u00e3o destruam os alicerces erguidos por Jo\u00e3o Manuel Gon\u00e7alves Louren\u00e7o, que em democracia, liberdade e muita esperan\u00e7a, possamos livremente caminhar em 2027 para a Nova Rep\u00fablica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ado\u00e7\u00e3o de figuras como Ibrahim Traor\u00e9 e a associa\u00e7\u00e3o a lideran\u00e7as marcadas por instabilidade institucional, como foi o caso do deposto Umaro Sissoco Embal\u00f3 na Guin\u00e9-Bissau, levantam s\u00e9rios e leg\u00edtimos motivos de preocupa\u00e7\u00e3o para o panorama pol\u00edtico em Angola. 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