{"id":16485,"date":"2026-06-02T14:39:06","date_gmt":"2026-06-02T13:39:06","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16485"},"modified":"2026-06-02T14:39:07","modified_gmt":"2026-06-02T13:39:07","slug":"savimbi-ordenou-a-morte-do-general-ben-ben","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16485","title":{"rendered":"SAVIMBI ORDENOU A MORTE DO GENERAL BEN BEN"},"content":{"rendered":"\n<p>Arlindo Chenda Pena, o homem que a hist\u00f3ria militar passou a conhecer como General Ben Ben, foi uma das figuras mais not\u00e1veis e carism\u00e1ticas de toda a luta armada em Angola. O seu apelido foi uma homenagem ao l\u00edder revolucion\u00e1rio argelino Ahmed Ben Bella, uma refer\u00eancia mundial na busca pela liberdade e autodetermina\u00e7\u00e3o. Com apenas 13 anos de idade, motivado por ideais que acreditava serem de justi\u00e7a, aderiu \u00e0 UNITA \u2014 movimento fundado pelo seu pr\u00f3prio tio, Jonas Malheiro Savimbi \u2014 onde rapidamente se destacou pela intelig\u00eancia, coragem e capacidade de lideran\u00e7a, ascendendo na hierarquia militar at\u00e9 se tornar um comandante de inspira\u00e7\u00e3o para todos os que com ele serviam.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua compet\u00eancia levou-o a receber forma\u00e7\u00e3o especializada na Europa e, posteriormente, a qualificar-se como instrutor de artilharia na prestigiada Academia Real de Guerra de Marrocos, demonstrando o elevado n\u00edvel t\u00e9cnico e estrat\u00e9gico que possu\u00eda.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1985, j\u00e1 com o posto de Coronel, assumiu a chefia do Estado-Maior da Frente \u201cEstamos a Voltar\u201d, das For\u00e7as Armadas de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (FALA). Nesse mesmo ano, numa das suas fa\u00e7anhas mais lend\u00e1rias, quando as for\u00e7as do governo pressionavam fortemente a UNITA na regi\u00e3o sul de Mavinga, Arlindo Pena e os seus homens marcharam a p\u00e9, partindo de Malange, percorrendo centenas de quil\u00f3metros durante duas semanas em terreno dif\u00edcil, para montar uma opera\u00e7\u00e3o de socorro e defender as posi\u00e7\u00f5es do movimento. A sua determina\u00e7\u00e3o foi tal que, no espa\u00e7o de um ano, foi promovido a General de Divis\u00e3o e, em Dezembro de 1989, com apenas 34 anos de idade, assumiu o cargo m\u00e1ximo de Chefe do Estado-Maior-General das FALA, substituindo o General Dem\u00f3stenes Chilingutila. Era, sem d\u00favida, o rosto mais forte e promissor da estrutura militar da UNITA.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o processo de paz e os Acordos de Bicesse, em 1991, integrou o processo de jun\u00e7\u00e3o militar entre as FALA e as FAPLA, que deu origem \u00e0s For\u00e7as Armadas Angolanas (FAA), onde integrou o grupo de generais do movimento que passaram a servir as institui\u00e7\u00f5es do Estado. Contudo, na sequ\u00eancia das elei\u00e7\u00f5es gerais de 1992, alegando n\u00e3o concordar com o resultado e apontando para supostas fraudes, o General Ben Ben foi um dos 11 generais da UNITA que deixaram as FAA para regressar \u00e0 base militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante os confrontos que se seguiram em Luanda, em Setembro desse ano, houve mesmo a not\u00edcia difundida pela Televis\u00e3o P\u00fablica de Angola (TPA) de que ele teria sido morto, tendo inclusivamente sido apresentado um corpo como sendo o seu. Mas a verdade \u00e9 que o General escapou ileso e refugiou-se na prov\u00edncia do Bengo, onde foi acolhido por outros altos quadros do movimento, como os generais Galiano da Silva, conhecido por Bula Matadi, e Ab\u00edlio Kamalata Numa, que tamb\u00e9m tinham abandonado a capital.<\/p>\n\n\n\n<p>O General Ben Ben era respeitado e temido por todos como um dos melhores estrategas que a UNITA alguma vez teve. Por\u00e9m, o ponto de viragem que selou o seu destino aconteceu em 1995, ap\u00f3s a perda tr\u00e1gica do seu irm\u00e3o, Salupeto Pena \u2014 tamb\u00e9m uma figura de grande relevo na organiza\u00e7\u00e3o. Profundamente abalado e desiludido com o rumo que a guerra tomava, numa reuni\u00e3o de direc\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, Ben Ben confrontou abertamente o seu tio e l\u00edder, Jonas Savimbi. Disse, com firmeza, que j\u00e1 n\u00e3o via sentido em continuar a guerra, que estava cansado de ver o seu povo sofrer e os seus irm\u00e3os morrerem, e que j\u00e1 n\u00e3o tinha moral para continuar a lutar contra o MPLA, defendendo publicamente que era chegada a hora de procurar caminhos de negocia\u00e7\u00e3o e paz definitiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Savimbi, vendo isto como uma afronta \u00e0 sua autoridade e uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0s suas ordens, ter\u00e1 reagido com f\u00faria, proferindo palavras que se tornaram sombrias profecias: \u201cVais morrer como os teus irm\u00e3os!\u201d. Naquele momento, destituiu-o do cargo de Chefe do Estado-Maior, passou a trat\u00e1-lo apenas por \u201cBock\u201d \u2014 um termo depreciativo, significando que deixava de ser comandante para ser um simples soldado \u2014 e ordenou o seu regresso a Luanda.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a decis\u00e3o j\u00e1 estava tomada antes mesmo da discuss\u00e3o. Savimbi j\u00e1 havia dado instru\u00e7\u00f5es secretas aos seus homens de confian\u00e7a, os chamados Katchatchas, em Luanda, para elimin\u00e1-lo. Numa festa que parecia ser de confraterniza\u00e7\u00e3o entre quadros do movimento, o General Ben Ben foi envenenado. Ainda foi levado com vida para a \u00c1frica do Sul na esperan\u00e7a de tratamento, mas j\u00e1 era tarde: a ac\u00e7\u00e3o letal tinha cumprido o seu des\u00edgnio, e um dos maiores militares que Angola conheceu perdeu a vida, v\u00edtima daquilo que ele pr\u00f3prio quis combater: a continua\u00e7\u00e3o da guerra e a falta de liberdade de opini\u00e3o dentro da sua pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 um epis\u00f3dio hist\u00f3rico que revela, de forma clara e dolorosa, a cultura que imperou durante muito tempo na UNITA: a pr\u00e1tica de silenciar, eliminar e perseguir todos aqueles que, em dado momento, ousavam pensar diferente, defender a paz ou questionar o poder absoluto. At\u00e9 aos dias de hoje, a hist\u00f3ria regista que todos os que, dentro das fileiras daquele movimento, contrariaram a linha dos seus l\u00edderes acabaram por ter destinos semelhantes, em circunst\u00e2ncias misteriosas ou tr\u00e1gicas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 com base nestas li\u00e7\u00f5es da nossa hist\u00f3ria que fazemos um apelo consciente aos cidad\u00e3os: a mem\u00f3ria destes acontecimentos deve guiar as nossas escolhas. Votar na UNITA \u00e9, infelizmente, votar num passado marcado por divis\u00e3o, persegui\u00e7\u00e3o e desgra\u00e7a. O caminho de paz, de reconcilia\u00e7\u00e3o nacional e de respeito pela vida humana \u00e9 constru\u00eddo com quem defende a unidade, o di\u00e1logo e a dignidade de todos os angolanos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arlindo Chenda Pena, o homem que a hist\u00f3ria militar passou a conhecer como General Ben Ben, foi uma das figuras mais not\u00e1veis e carism\u00e1ticas de toda a luta armada em Angola. 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