{"id":16318,"date":"2026-04-12T08:57:39","date_gmt":"2026-04-12T07:57:39","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16318"},"modified":"2026-04-15T19:30:21","modified_gmt":"2026-04-15T18:30:21","slug":"o-oco-e-os-nadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16318","title":{"rendered":"O Oco e os Nadas"},"content":{"rendered":"\n<p>A participa\u00e7\u00e3o criminal apresentada por tr\u00eas artistas de circo \u2014 Luaty Beir\u00e3o, Jaime Mussinda e Zola \u00c1lvaro \u2014 contra a presidente do Tribunal Constitucional, Laurinda Cardoso,  acusa a magistrada de denega\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a e prevarica\u00e7\u00e3o, alegando que reteve uma provid\u00eancia cautelar al\u00e9m do prazo de 24 horas previsto na Lei do Processo Constitucional. <\/p>\n\n\n\n<p>Esta acusa\u00e7\u00e3o, amplificada nas redes e em alguns c\u00edrculos pol\u00edticos, assenta numa leitura juridicamente errada: os prazos dirigidos aos tribunais s\u00e3o <strong>indicativos<\/strong>, n\u00e3o <strong>imperativos<\/strong>. N\u00e3o constituem comandos cuja viola\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica configure crime. S\u00e3o orienta\u00e7\u00f5es de celeridade, n\u00e3o obriga\u00e7\u00f5es sancion\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir deste equ\u00edvoco t\u00e9cnico, constr\u00f3i\u2011se uma narrativa de criminalidade que n\u00e3o encontra sustenta\u00e7\u00e3o no direito processual. <\/p>\n\n\n\n<p>A provid\u00eancia cautelar em causa visava impedir uma reuni\u00e3o parlamentar destinada \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o de diplomas eleitorais. Quando o Tribunal Constitucional apreciou o processo, a reuni\u00e3o j\u00e1 tinha ocorrido e os diplomas j\u00e1 tinham sido aprovados. O tribunal declarou, ent\u00e3o, a inutilidade superveniente da lide \u2014 uma solu\u00e7\u00e3o processual comum, prevista na lei e aplicada sempre que o objecto do lit\u00edgio deixa de existir. A interpreta\u00e7\u00e3o de que a decis\u00e3o foi \u201cinfluenciada pela demora\u201d \u00e9, portanto, pol\u00edtica, n\u00e3o jur\u00eddica. <\/p>\n\n\n\n<p>E <strong>transformar uma interpreta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em imputa\u00e7\u00e3o criminal \u00e9 um exerc\u00edcio que se aproxima  da cal\u00fania e n\u00e3o da defesa da legalidade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se a participa\u00e7\u00e3o criminal \u00e9, por si s\u00f3, absurda, mais inquietante \u00e9 o sil\u00eancio do Baston\u00e1rio da Ordem dos Advogados. O mesmo baston\u00e1rio que, com not\u00f3ria rapidez, instaurou um processo disciplinar ao advogado David Mendes permanece agora sem qualquer reac\u00e7\u00e3o perante uma iniciativa que atinge directamente a integridade das institui\u00e7\u00f5es judiciais. <\/p>\n\n\n\n<p>A discrep\u00e2ncia \u00e9 evidente e tem sido amplamente comentada: celeridade disciplinar quando se trata de um advogado cr\u00edtico da oposi\u00e7\u00e3o, sil\u00eancio absoluto quando a ac\u00e7\u00e3o em causa fragiliza o Tribunal Constitucional e alimenta discursos de dissolu\u00e7\u00e3o institucional. Esta omiss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 neutra. \u00c9 um posicionamento pol\u00edtico, como alinhamento t\u00e1cito com uma estrat\u00e9gia de desgaste das institui\u00e7\u00f5es do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Num contexto em que a confian\u00e7a p\u00fablica no sistema judicial \u00e9 j\u00e1 absurda, a aus\u00eancia de interven\u00e7\u00e3o do Baston\u00e1rio contribui para agravar a percep\u00e7\u00e3o de partidariza\u00e7\u00e3o da Ordem dos Advogados. <\/p>\n\n\n\n<p>A institui\u00e7\u00e3o que deveria funcionar como \u00e1rbitro independente surge como actor pol\u00edtico. <\/p>\n\n\n\n<p>E <strong>quando a Ordem abandona o papel de guardi\u00e3 da \u00e9tica profissional para se tornar participante silenciosa em disputas de natureza pol\u00edtica, perde\u2011se n\u00e3o apenas credibilidade, mas tamb\u00e9m uma parte essencial da arquitectura democr\u00e1tica.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica, o escrut\u00ednio e a participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica s\u00e3o pilares de qualquer Estado de direito. Mas exigem rigor. Acusar uma magistrada de crimes graves com base em prazos que n\u00e3o s\u00e3o imperativos n\u00e3o fortalece a democracia \u2014 distorce\u2011a. <\/p>\n\n\n\n<p>E quando quem deveria defender a integridade das institui\u00e7\u00f5es opta pelo sil\u00eancio selectivo, o resultado \u00e9 um ambiente p\u00fablico mais polarizado, mais desconfiado e menos capaz de distinguir entre responsabilidade jur\u00eddica e combate pol\u00edtico. <\/p>\n\n\n\n<p>Angola precisa de institui\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas, n\u00e3o de gestos de teatro e actores vaidosos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A participa\u00e7\u00e3o criminal apresentada por tr\u00eas artistas de circo \u2014 Luaty Beir\u00e3o, Jaime Mussinda e Zola \u00c1lvaro \u2014 contra a presidente do Tribunal Constitucional, Laurinda Cardoso, acusa a magistrada de denega\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a e prevarica\u00e7\u00e3o, alegando que reteve uma provid\u00eancia cautelar al\u00e9m do prazo de 24 horas previsto na Lei do Processo Constitucional. 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