{"id":16255,"date":"2026-03-21T09:31:46","date_gmt":"2026-03-21T08:31:46","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16255"},"modified":"2026-03-23T10:24:09","modified_gmt":"2026-03-23T09:24:09","slug":"o-que-e-que-a-russia-esta-de-facto-a-fazer-por-cuba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16255","title":{"rendered":"O que \u00e9 que a R\u00fassia est\u00e1, de facto, a fazer por Cuba?"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A verdade, por muito inc\u00f3moda que seja para alguns sectores da esquerda internacional, \u00e9 que a R\u00fassia contempor\u00e2nea de Putin faz muito pouco por Cuba. <\/p>\n\n\n\n<p>Moscovo mant\u00e9m um discurso de solidariedade hist\u00f3rica, evoca a mem\u00f3ria da coopera\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica e repete f\u00f3rmulas diplom\u00e1ticas sobre amizade entre povos, mas, na pr\u00e1tica, o apoio material, econ\u00f3mico ou estrat\u00e9gico \u00e9 quase inexistente. A ret\u00f3rica permanece; o compromisso evaporou-se.<\/p>\n\n\n\n<p>A R\u00fassia de hoje est\u00e1 concentrada quase exclusivamente na sua guerra na Ucr\u00e2nia e na negocia\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrios com os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Europeia. <\/p>\n\n\n\n<p>Nesse tabuleiro, Cuba n\u00e3o \u00e9 prioridade. Pior: torna-se moeda de troca. A posi\u00e7\u00e3o russa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ilha tem sido marcada por gestos simb\u00f3licos, visitas protocolares e promessas vagas de coopera\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica ou alimentar que raramente se concretizam. <\/p>\n\n\n\n<p>Quando comparada com o peso que Cuba teve para a URSS, a diferen\u00e7a \u00e9 abissal. Moscovo sabe disso e age como se a ilha fosse um activo secund\u00e1rio, dispens\u00e1vel, sacrific\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil escapar \u00e0 conclus\u00e3o: <strong>a R\u00fassia est\u00e1 disposta a deixar cair Cuba se isso lhe garantir vantagens t\u00e1cticas nas negocia\u00e7\u00f5es com Washington<\/strong>. <\/p>\n\n\n\n<p>A depend\u00eancia russa de canais diplom\u00e1ticos para aliviar san\u00e7\u00f5es e obter margens de manobra na guerra torna a ilha um elemento negoci\u00e1vel. <\/p>\n\n\n\n<p>A velha l\u00f3gica da solidariedade anti-imperialista foi substitu\u00edda por um pragmatismo frio, quase c\u00ednico, que coloca os interesses estrat\u00e9gicos russos muito acima de qualquer compromisso hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>O contraste com outros pa\u00edses \u00e9 revelador. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>O M\u00e9xico tem feito mais por Cuba do que a R\u00fassia<\/strong>, tanto no plano diplom\u00e1tico como no apoio humanit\u00e1rio. Mesmo <strong>Angola, com todas as suas pr\u00f3prias dificuldades internas, tem-se pronunciado mais claramente a favor de Cuba<\/strong>, mantendo uma coer\u00eancia hist\u00f3rica que Moscovo j\u00e1 n\u00e3o demonstra. Pa\u00edses africanos e latino-americanos, sem o peso geopol\u00edtico da R\u00fassia, mostram mais lealdade e mais coragem pol\u00edtica do que um dos antigos pilares do bloco socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>A narrativa de que a R\u00fassia continua a ser um aliado natural de Cuba \u00e9, hoje, mais mito do que realidade. Moscovo procura projectar influ\u00eancia global, mas f\u00e1-lo de forma selectiva e instrumental. Cuba n\u00e3o \u00e9 tratada como parceira estrat\u00e9gica, mas como pe\u00e7a residual num jogo maior. <\/p>\n\n\n\n<p>A R\u00fassia quer ser vista como pot\u00eancia anti-hegem\u00f3nica, mas <strong>trai os seus amigos quando estes deixam de servir os seus objectivos imediatos<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 um vazio: Cuba enfrenta uma das piores crises econ\u00f3micas da sua hist\u00f3ria recente, e a R\u00fassia limita-se a declara\u00e7\u00f5es de circunst\u00e2ncia. A solidariedade que outrora salvou a ilha do colapso desapareceu. O que resta \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica, desidratada, quase decorativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Se h\u00e1 li\u00e7\u00e3o a retirar, \u00e9 esta: <strong>a pol\u00edtica externa russa j\u00e1 n\u00e3o se guia por afinidades ideol\u00f3gicas nem por compromissos hist\u00f3ricos<\/strong>, mas por c\u00e1lculos de poder. E, nesses c\u00e1lculos, Cuba pesa pouco. A R\u00fassia n\u00e3o hesitar\u00e1 em sacrificar a ilha se isso lhe abrir portas em Washington ou lhe permitir aliviar press\u00f5es no seu pr\u00f3prio conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuba merece aliados que n\u00e3o a tratem como ficha descart\u00e1vel. E a R\u00fassia, hoje, n\u00e3o \u00e9 um deles.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A verdade, por muito inc\u00f3moda que seja para alguns sectores da esquerda internacional, \u00e9 que a R\u00fassia contempor\u00e2nea de Putin faz muito pouco por Cuba. 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