{"id":16231,"date":"2026-03-14T10:16:55","date_gmt":"2026-03-14T09:16:55","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16231"},"modified":"2026-03-18T19:50:33","modified_gmt":"2026-03-18T18:50:33","slug":"a-bbc-noticia-as-aventuras-dos-russos-em-angola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16231","title":{"rendered":"A BBC noticia as aventuras dos russos em Angola."},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Uma not\u00edcia do servi\u00e7o russo da BBC, a prestigiada emissora brit\u00e2nica, relata de forma muito objetiva um dos epis\u00f3dios mais enigm\u00e1ticos e politicamente reveladores da rela\u00e7\u00e3o entre Angola e a R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 28 de julho de 2025, Luanda viveu a sua jornada mais violenta desde o fim da guerra civil: uma greve de taxistas contra o aumento do pre\u00e7o dos combust\u00edveis degenerou numa onda de protestos que bloqueou estradas, enfrentou as for\u00e7as de seguran\u00e7a e terminou com 29 mortos e mais de 1.200 deten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal evento ocasionou a deten\u00e7\u00e3o de dois cidad\u00e3os russos \u2014 Igor Ratchin, apresentado como um turista de Ryazan, e Lev Lakshtanov, um tradutor veterano \u2014 cuja presen\u00e7a no epicentro da convuls\u00e3o social levantou suspeitas imediatas.<\/p>\n\n\n\n<p>O que poderia parecer um equ\u00edvoco ou um azar geogr\u00e1fico revelou\u2011se, segundo a investiga\u00e7\u00e3o das autoridades angolanas, a face vis\u00edvel de um realinhamento estrat\u00e9gico de Angola rumo ao eixo transatl\u00e2ntico e de uma crescente intoler\u00e2ncia do governo de Jo\u00e3o Louren\u00e7o perante interfer\u00eancias russas no seu novo percurso diplom\u00e1tico e econ\u00f3mico.<\/p>\n\n\n\n<p>A Procuradoria angolana imputa aso russos 11 crimes graves, incluindo espionagem, corrup\u00e7\u00e3o ativa de funcion\u00e1rios e organiza\u00e7\u00e3o de um grupo terrorista.<\/p>\n\n\n\n<p>O julgamento est\u00e1 marcado para 24 de mar\u00e7o de 2026 e promete tornar\u2011se um marco na justi\u00e7a angolana.<\/p>\n\n\n\n<p>A acusa\u00e7\u00e3o sustenta que ambos integravam um esquema de desinforma\u00e7\u00e3o digital destinado a incitar o caos, fabricando e disseminando not\u00edcias falsas, entre elas supostas ordens governamentais para a \u201cneutraliza\u00e7\u00e3o imediata\u201d de manifestantes \u2014 express\u00e3o que, no contexto angolano, remete para execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a lei angolana, a mera inten\u00e7\u00e3o de causar danos \u00e0 integridade e independ\u00eancia nacional ou de minar as institui\u00e7\u00f5es do Estado basta para enquadrar o crime de terrorismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A figura de Igor Ratchin \u00e9 particularmente reveladora da sofistica\u00e7\u00e3o \u2014 e excentricidade \u2014 da chamada \u201ctecnologia pol\u00edtica\u201d russa.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de chegar a Luanda, Ratchin tinha sido estratega de bastidores da R\u00fassia Unida e fora premiado em 2024 pela campanha \u201cDesembarque de Xam\u00e3s e Lamas\u201d, na Sib\u00e9ria, onde utilizou l\u00edderes espirituais para mobilizar eleitores de forma heterodoxa.<\/p>\n\n\n\n<p>Era especialista em \u201cmimetismo de mobiliza\u00e7\u00e3o\u201d, uma t\u00e9cnica que consiste em fazer agentes oficiais passarem\u2011se por ativistas independentes para contornar a rejei\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Em Angola, este m\u00e9todo ter\u00e1 sido replicado atrav\u00e9s de intermedi\u00e1rios locais, como o jornalista desportivo Amor Karlo Tom\u00e9 e o pol\u00edtico Oliveira Francisco, que funcionariam como rostos angolanos de uma opera\u00e7\u00e3o destinada a organizar protestos e a construir uma narrativa de revolta sob o pretexto de atividades culturais associadas ao futuro \u2014 e nunca inaugurado \u2014 \u201cCentro Russo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o angolana exp\u00f4s ainda a rede \u201cCi\u00eancia Pol\u00edtica Africana\u201d, um projeto que sobreviveu \u00e0 morte de Yevgeny Prigozhin em 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a queda do l\u00edder do Grupo Wagner, as opera\u00e7\u00f5es de influ\u00eancia passaram para o controlo do SVR, o Servi\u00e7o de Intelig\u00eancia Estrangeira da R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>A ironia geopol\u00edtica \u00e9 evidente: a intelig\u00eancia formal russa herdou a informalidade ca\u00f3tica das opera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas de Prigozhin, integrando antigos consultores do mercen\u00e1rio em estruturas estatais como a Rossotrudnichestvo.<\/p>\n\n\n\n<p>A opera\u00e7\u00e3o em Angola decorreu em duas vagas: a primeira, liderada por Olga Smirnova, que atuou no terreno a partir de julho de 2024; a segunda, sob comando de Igor Ratchin, iniciada em outubro do mesmo ano.<\/p>\n\n\n\n<p>A rede inclu\u00eda ainda figuras conhecidas como Maxim Shugaley e Samer Sueifan, especialistas em opera\u00e7\u00f5es de influ\u00eancia que j\u00e1 tinham passado por pris\u00f5es na L\u00edbia e no Chade.<\/p>\n\n\n\n<p>Este caso surge num momento em que Angola realiza uma transi\u00e7\u00e3o profunda, afastando\u2011se da depend\u00eancia hist\u00f3rica de Moscovo para consolidar a sua posi\u00e7\u00e3o na esfera ocidental.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A antiga rela\u00e7\u00e3o militar \u2014 que incluiu contratos de mil milh\u00f5es de d\u00f3lares em armamento em 2013 \u2014 deu lugar \u00e0 visita hist\u00f3rica de Joe Biden e ao refor\u00e7o da coopera\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>No setor dos diamantes, a gigante russa Alrosa foi obrigada a abandonar a sua participa\u00e7\u00e3o na mina de Catoca, cuja quota passou para fundos de Om\u00e3, num gesto que simboliza a substitui\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica da R\u00fassia por novos parceiros. [N.do Editor:  entretanto j\u00e1 denunci\u00e1mos na Tribuna como sendo uma mera opera\u00e7\u00e3o de fachada. Os Russos continuam a tentar controlar a Catoca].<\/p>\n\n\n\n<p>A rede russa ter\u00e1 tamb\u00e9m tentado sabotar o Corredor do Lobito, um projeto ferrovi\u00e1rio financiado pelo Ocidente, criando um site clone com um erro tipogr\u00e1fico propositado \u2014 \u201ccoridor\u201d \u2014 para disseminar falsos relat\u00f3rios sobre alegados danos ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p>O elemento mais intrigante deste caso \u00e9, por\u00e9m, o sil\u00eancio absoluto do Kremlin.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do que aconteceu no Chade, onde a interven\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica russa foi r\u00e1pida e eficaz, em Angola Moscovo mant\u00e9m\u2011se calada h\u00e1 mais de sete meses.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Segundo fontes pr\u00f3ximas do corpo diplom\u00e1tico russo em Luanda, a l\u00f3gica \u00e9 simples: estes agentes falharam e tornaram\u2011se um fardo para a diplomacia oficial. O sil\u00eancio funciona, assim, como uma mensagem pol\u00edtica: a R\u00fassia n\u00e3o garante imunidade aos seus estrategistas quando estes comprometem os seus interesses ou fracassam em opera\u00e7\u00f5es de desestabiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso de Ratchin e Lakshtanov \u00e9, por isso, mais do que um epis\u00f3dio policial.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um aviso para a rede de estrategistas russos que ainda tentam replicar em \u00c1frica os m\u00e9todos da era Prigozhin e um sinal de que Luanda est\u00e1 disposta a impor limites claros \u00e0s ferramentas de manipula\u00e7\u00e3o digital e ao mimetismo pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande quest\u00e3o que se coloca agora \u00e9 se a influ\u00eancia russa conseguir\u00e1 sobreviver no continente apenas atrav\u00e9s de opera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas e desinforma\u00e7\u00e3o, ou se a economia real \u2014 traduzida em infraestruturas ferrovi\u00e1rias, explora\u00e7\u00e3o de diamantes e financiamento ocidental \u2014 j\u00e1 venceu definitivamente a batalha estrat\u00e9gica em Angola. Com o julgamento marcado para mar\u00e7o de 2026, o destino dos dois russos ser\u00e1 o bar\u00f3metro final desta nova era.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma not\u00edcia do servi\u00e7o russo da BBC, a prestigiada emissora brit\u00e2nica, relata de forma muito objetiva um dos epis\u00f3dios mais enigm\u00e1ticos e politicamente reveladores da rela\u00e7\u00e3o entre Angola e a R\u00fassia. 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