{"id":16119,"date":"2026-02-06T13:24:02","date_gmt":"2026-02-06T12:24:02","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16119"},"modified":"2026-02-11T17:53:41","modified_gmt":"2026-02-11T16:53:41","slug":"mais-um-tolo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16119","title":{"rendered":"Mais um tolo"},"content":{"rendered":"\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><\/h1>\n\n\n\n<p>As redes sociais, entre outras desvantagens, t\u00eam o cond\u00e3o de transformar sacos de vento ou puros faladores em grandes intelectuais. O grande problema (e acaba por ser uma vantagem) \u00e9 que estes pseudo-intelectuais quanto mais abrem a boca mais tolices dizem. Na realidade, n\u00e3o passam de tolos. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o caso de Albino Pakisi. A recente defesa p\u00fablica de Albino Pakisi a Andr\u00e9 Ventura revela um problema maior do que a simples diverg\u00eancia pol\u00edtica: exp\u00f5e uma incompreens\u00e3o profunda sobre o que \u00e9 racismo, como ele opera e porque discursos nacionalistas excludentes nunca s\u00e3o neutros. <\/p>\n\n\n\n<p>Ao afirmar que Ventura \u201cn\u00e3o \u00e9 racista\u201d e que apenas \u201ccoloca os portugueses \u00e0 frente dos demais\u201d, Pakisi n\u00e3o percebe que esta formula\u00e7\u00e3o \u00e9 precisamente a ess\u00eancia do racismo pol\u00edtico contempor\u00e2neo \u2014 um racismo que j\u00e1 n\u00e3o precisa de insultos expl\u00edcitos para funcionar, basta hierarquizar seres humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pakisi tenta normalizar Ventura comparando-o a Jonas Savimbi, como se o simples facto de um l\u00edder africano ter defendido \u201cos angolanos primeiro\u201d tornasse equivalente o discurso de um pol\u00edtico europeu que, num contexto hist\u00f3rico marcado por colonialismo, desigualdade racial e xenofobia, defende \u201cos portugueses primeiro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizer \u201cos portugueses primeiro\u201d num pa\u00eds onde minorias s\u00e3o sistematicamente alvo de discrimina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um slogan inocente \u2014 \u00e9 um programa pol\u00edtico que legitima exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Pakisi parece acreditar que Ventura apenas expressa um patriotismo vigoroso. Mas patriotismo n\u00e3o exige hierarquizar pessoas. O que Ventura faz \u2014 e que Pakisi tenta suavizar \u2014 \u00e9 estabelecer uma ordem de prioridade baseada na origem, na etnia ou na nacionalidade. <\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 patriotismo; \u00e9 <strong>nativismo<\/strong>, uma ideologia que define quem merece direitos plenos e quem deve ser tratado como suspeito, secund\u00e1rio ou descart\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando um pol\u00edtico diz que um grupo deve vir \u201c\u00e0 frente\u201d, est\u00e1 necessariamente a dizer que outros devem vir <strong>atr\u00e1s<\/strong>. E quando essa divis\u00e3o coincide com linhas raciais ou \u00e9tnicas, estamos perante racismo pol\u00edtico, mesmo que o orador tenha amigos africanos ou evite insultos diretos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pakisi recorre ao argumento cl\u00e1ssico: Ventura n\u00e3o pode ser racista porque tem amigos africanos. <\/p>\n\n\n\n<p>Este racioc\u00ednio \u00e9 fr\u00e1gil e ultrapassado. Racismo n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es pessoais, mas de <strong>estruturas, discursos e pol\u00edticas<\/strong>. Uma pessoa pode ter amigos de v\u00e1rias origens e, ainda assim, defender pol\u00edticas que prejudicam sistematicamente essas mesmas comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Pakisi tem uma  trajet\u00f3ria de cr\u00edtica ao MPLA. Mas a oposi\u00e7\u00e3o ao MPLA n\u00e3o deve transformar-se em apoio autom\u00e1tico a qualquer figura que critique Angola ou os seus dirigentes. Ser contra um regime n\u00e3o significa abra\u00e7ar quem instrumentaliza \u00c1frica para fins eleitorais, nem legitimar discursos que colocam comunidades africanas como problema.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao tentar apresentar Ventura como um \u201cnacionalista puro\u201d, Pakisi contribui para normalizar discursos que, na Europa contempor\u00e2nea, t\u00eam servido de porta de entrada para pol\u00edticas anti\u2011imigra\u00e7\u00e3o, eros\u00e3o de direitos civis e aumento da viol\u00eancia contra minorias.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 apenas Ventura. O problema \u00e9 quando intelectuais africanos, por ingenuidade ou proximidade pessoal, ajudam a legitimar discursos que, na pr\u00e1tica, prejudicam africanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Albino Pakisi erra ao tentar despolitizar o discurso de Andr\u00e9 Ventura. <\/p>\n\n\n\n<p>Erra ao confundir nacionalismo com exclus\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Erra ao ignorar o impacto real das palavras num contexto europeu marcado por desigualdades raciais. <\/p>\n\n\n\n<p>E erra, sobretudo, ao acreditar que ser contra o MPLA justifica apoiar qualquer figura que critique Angola.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocar \u201cos portugueses \u00e0 frente\u201d n\u00e3o \u00e9 uma frase neutra. \u00c9 uma hierarquia. E toda hierarquia baseada na origem \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, discriminat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Pakisi  \u00e9 tolo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As redes sociais, entre outras desvantagens, t\u00eam o cond\u00e3o de transformar sacos de vento ou puros faladores em grandes intelectuais. O grande problema (e acaba por ser uma vantagem) \u00e9 que estes pseudo-intelectuais quanto mais abrem a boca mais tolices dizem. Na realidade, n\u00e3o passam de tolos. \u00c9 o caso de Albino Pakisi. 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