{"id":16027,"date":"2026-01-13T10:00:07","date_gmt":"2026-01-13T09:00:07","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16027"},"modified":"2026-01-16T13:52:54","modified_gmt":"2026-01-16T12:52:54","slug":"a-deriva-perigosa-dos-advogados-de-defesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=16027","title":{"rendered":"A deriva perigosa dos advogados de defesa"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos \u00faltimos tempos tem-se tornado cada vez mais frequente assistir a advogados que, em vez de utilizarem os meios pr\u00f3prios do processo judicial, optam por transformar a comunica\u00e7\u00e3o social no seu principal palco de actua\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Esta tend\u00eancia, que envolve v\u00e1rios profissionais \u2014 entre eles figuras medi\u00e1ticas como Benja Satula \u2014 levanta quest\u00f5es s\u00e9rias sobre o respeito devido ao Estatuto da Ordem dos Advogados e sobre os limites \u00e9ticos da interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica de quem exerce fun\u00e7\u00f5es essenciais \u00e0 administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica p\u00fablica a decis\u00f5es judiciais n\u00e3o \u00e9, por si s\u00f3, problem\u00e1tica. Num Estado de Direito, o escrut\u00ednio \u00e9 leg\u00edtimo e at\u00e9 desej\u00e1vel. <\/p>\n\n\n\n<p>O problema surge quando esse escrut\u00ednio deixa de ser t\u00e9cnico e fundamentado, passando a assumir contornos de press\u00e3o pol\u00edtica, manipula\u00e7\u00e3o emocional e tentativa de substituir o tribunal pela opini\u00e3o p\u00fablica. Quando um advogado utiliza a imprensa para insinuar irregularidades, sugerir persegui\u00e7\u00f5es ou lan\u00e7ar suspeitas sobre magistrados sem apresentar provas, n\u00e3o est\u00e1 a defender o seu constituinte \u2014 est\u00e1 a fragilizar as institui\u00e7\u00f5es que garantem a todos um julgamento justo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais grave ainda \u00e9 a normaliza\u00e7\u00e3o de discursos que evocam, repetidamente, alegadas interfer\u00eancias da Seguran\u00e7a do Estado nos tribunais. Tais afirma\u00e7\u00f5es, quando n\u00e3o acompanhadas de evid\u00eancia concreta, n\u00e3o s\u00f3 violam o dever de rigor e responsabilidade profissional, como alimentam narrativas de desconfian\u00e7a que corroem a credibilidade do sistema judicial. A invoca\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de \u201cfor\u00e7as ocultas\u201d ou \u201cpress\u00f5es invis\u00edveis\u201d transforma-se, assim, num mecanismo ret\u00f3rico que substitui a argumenta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica por teorias conspirativas.<\/p>\n\n\n\n<p>A Ordem dos Advogados estabelece de forma clara que o advogado deve contribuir para a dignifica\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, respeitar a verdade e evitar comportamentos que comprometam a confian\u00e7a p\u00fablica nas institui\u00e7\u00f5es. Quando determinados profissionais utilizam os meios de comunica\u00e7\u00e3o para criar ambientes de \u201cjusti\u00e7a popular\u201d, para pressionar magistrados ou para sugerir interfer\u00eancias sem qualquer demonstra\u00e7\u00e3o factual, est\u00e3o a violar n\u00e3o apenas normas \u00e9ticas, mas o pr\u00f3prio esp\u00edrito da advocacia.<\/p>\n\n\n\n<p>Num Estado de Direito, a liberdade de express\u00e3o n\u00e3o \u00e9 licen\u00e7a para destruir reputa\u00e7\u00f5es, nem para lan\u00e7ar suspeitas infundadas sobre \u00f3rg\u00e3os de soberania. A responsabilidade profissional exige que cada afirma\u00e7\u00e3o p\u00fablica seja sustentada, ponderada e proporcional. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por isso, \u00e9 leg\u00edtimo defender que declara\u00e7\u00f5es que imputem interfer\u00eancias da Seguran\u00e7a do Estado \u2014 quando n\u00e3o acompanhadas de provas \u2014 devem ter consequ\u00eancias disciplinares. N\u00e3o se trata de limitar a cr\u00edtica, mas de impedir que a arena medi\u00e1tica seja usada como arma para deslegitimar institui\u00e7\u00f5es sem fundamento.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A justi\u00e7a n\u00e3o pode ser feita nos est\u00fadios de televis\u00e3o, nem nos microfones das r\u00e1dios. A justi\u00e7a faz-se nos tribunais, com factos, com provas e com contradit\u00f3rio. <\/p>\n\n\n\n<p>A advocacia que procura substituir esse espa\u00e7o por um tribunal medi\u00e1tico n\u00e3o est\u00e1 a servir o interesse p\u00fablico \u2014 est\u00e1 a instrumentaliz\u00e1-lo. E quando isso acontece, quem perde n\u00e3o s\u00e3o apenas os magistrados ou os \u00f3rg\u00e3os de soberania: perde a sociedade inteira, que v\u00ea a confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es corro\u00edda por discursos irrespons\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos tempos tem-se tornado cada vez mais frequente assistir a advogados que, em vez de utilizarem os meios pr\u00f3prios do processo judicial, optam por transformar a comunica\u00e7\u00e3o social no seu principal palco de actua\u00e7\u00e3o. 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