{"id":15923,"date":"2025-12-21T12:17:40","date_gmt":"2025-12-21T11:17:40","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=15923"},"modified":"2025-12-24T13:52:51","modified_gmt":"2025-12-24T12:52:51","slug":"os-novos-donos-da-unita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=15923","title":{"rendered":"Os novos donos da UNITA"},"content":{"rendered":"\n<p>A hist\u00f3ria da UNITA, desde a sua funda\u00e7\u00e3o por Jonas Savimbi em 1966, \u00e9 tamb\u00e9m a hist\u00f3ria das pot\u00eancias estrangeiras que, em diferentes momentos, a instrumentalizaram para fins estrat\u00e9gicos pr\u00f3prios.<\/p>\n\n\n\n<p> Longe de ser um movimento nacionalista angolano, a UNITA foi sucessivamente integrada em agendas externas \u2014 portuguesas, sul\u2011africanas, norte\u2011americanas e, mais recentemente, russas \u2014 que moldaram e determinaram a sua sobreviv\u00eancia e capacidade militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos da presen\u00e7a colonial, a UNITA foi tratada pelas autoridades portuguesas como um aliado \u00fatil contra o MPLA. O ent\u00e3o comandante\u2011em\u2011chefe em Angola, general Costa Gomes, autorizou contactos operacionais com Savimbi, incluindo fornecimento de medicamentos e apoio log\u00edstico. <\/p>\n\n\n\n<p>Oficiais portugueses no Leste relataram que Savimbi recebia n\u00e3o apenas f\u00e1rmacos, mas tamb\u00e9m facilidades de circula\u00e7\u00e3o, prote\u00e7\u00e3o em zonas de opera\u00e7\u00e3o e, em alguns casos, muni\u00e7\u00f5es para autodefesa. A l\u00f3gica era simples: dividir a frente nacionalista e impedir que o MPLA consolidasse hegemonia militar antes do 25 de Abril.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a independ\u00eancia, a UNITA passou rapidamente para a esfera de influ\u00eancia do regime do apartheid. <\/p>\n\n\n\n<p>A \u00c1frica do Sul racista tornou\u2011se o principal sustent\u00e1culo militar de Savimbi durante a d\u00e9cada de 1980, integrando a UNITA na sua estrat\u00e9gia regional de conten\u00e7\u00e3o do ANC e de desestabiliza\u00e7\u00e3o de Angola. Tropas sul\u2011africanas combateram lado a lado com a UNITA em opera\u00e7\u00f5es no Sudeste, fornecendo armamento pesado, treino, intelig\u00eancia e cobertura a\u00e9rea. A presen\u00e7a sul\u2011africana na Jamba, o quartel\u2011general de Savimbi, era t\u00e3o intensa que a UNITA se tornou, de facto, uma for\u00e7a auxiliar da SADF.<\/p>\n\n\n\n<p>A terceira fase de tutela externa surge com a administra\u00e7\u00e3o Reagan. No contexto da Guerra Fria, Savimbi foi promovido como \u201cfreedom fighter\u201d e integrado na chamada <em>Reagan Doctrine<\/em>. Reagan autorizou o envio de m\u00edsseis Stinger para a UNITA, decis\u00e3o anunciada publicamente em 1986 e documentada por testemunhos diretos. Estes m\u00edsseis alteraram temporariamente o equil\u00edbrio t\u00e1tico, permitindo \u00e0 UNITA abater aeronaves sovi\u00e9ticas e angolanas e refor\u00e7ando a narrativa norte\u2011americana de resist\u00eancia anticomunista. A pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o da <em>Democratic International<\/em>  na Jamba, em 1985 \u2014 com a presen\u00e7a de ativistas conservadores e representantes de movimentos armados apoiados pelos EUA \u2014 consolidou a UNITA como pe\u00e7a simb\u00f3lica da pol\u00edtica externa de Washington.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o fim da Guerra Fria e a morte de Savimbi, a UNITA perdeu relev\u00e2ncia militar, mas n\u00e3o deixou de ser objeto de interesse externo. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>A fase mais recente da UNITA envolve a aproxima\u00e7\u00e3o a redes russas p\u00f3s\u2011Wagner, num contexto de competi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica em \u00c1frica. <\/strong>A presen\u00e7a de emiss\u00e1rios ligados ao ecossistema de seguran\u00e7a russo em Luanda  tem sido acompanhada por relatos de reuni\u00f5es discretas entre figuras da UNITA e operadores russos, incluindo <strong>encontros atribu\u00eddos com ACJ e Gato, que procuram reposicionar o partido como intermedi\u00e1rio \u00fatil num eventual realinhamento pol\u00edtico angolan<\/strong>o. Estas reuni\u00f5es, comprovadas por fontes judiciais, integram um padr\u00e3o mais vasto de expans\u00e3o russa em \u00c1frica atrav\u00e9s de parcerias com atores oposicionistas ou marginais ao poder central.<\/p>\n\n\n\n<p>A trajet\u00f3ria da UNITA revela uma constante: a sua instrumentaliza\u00e7\u00e3o por pot\u00eancias externas que, em cada \u00e9poca, viram no movimento uma ferramenta para agendas pr\u00f3prias \u2014 coloniais, regionais, ideol\u00f3gicas ou geopol\u00edticas. A organiza\u00e7\u00e3o, que sempre se apresentou, falsamente, como express\u00e3o da vontade popular, tem sido sucessivamente moldada por interesses estrangeiros que condicionaram a sua estrat\u00e9gia, a sua narrativa e a sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. Agora chegou a vez dos Russos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria da UNITA, desde a sua funda\u00e7\u00e3o por Jonas Savimbi em 1966, \u00e9 tamb\u00e9m a hist\u00f3ria das pot\u00eancias estrangeiras que, em diferentes momentos, a instrumentalizaram para fins estrat\u00e9gicos pr\u00f3prios. 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