{"id":14084,"date":"2025-02-15T23:06:50","date_gmt":"2025-02-15T22:06:50","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=14084"},"modified":"2025-02-19T12:58:50","modified_gmt":"2025-02-19T11:58:50","slug":"memorias-africanas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=14084","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias Africanas"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c0 medida que a idade avan\u00e7a, esbo\u00e7a-se paulatinamente um recurso sobre a viv\u00eancia no passado. A mem\u00f3ria \u00e9 uma extraordin\u00e1ria faculdade com uma dupla fun\u00e7\u00e3o. Ela possui a possibilidade de recordar esse passado e, por outro lado, provocar o esquecimento, de forma a aliviar o peso sobre ela, uma vez que a mielina do c\u00e9rebro tamb\u00e9m vai diminuindo a quantidade e a qualidade do l\u00edquido que irriga as suas c\u00e9lulas.<\/p>\n\n\n\n<p>Estive uma d\u00fazia de anos, dos quais tr\u00eas como militar na guerra, oficial paraquedista, e nove como Director da Escola Prim\u00e1ria n\u00b0 232, no Bairro da Cazenga, da cidade de Luanda, com 2800 alunos e 70 professores, o que constitu\u00eda a maior escola desse ensino, desde o Minho a Timor. Depois, na Samba, criei o Col\u00e9gio Jos\u00e9 R\u00e9gio, do ensino secund\u00e1rio com cerca de 400 alunos, e um laborat\u00f3rio de l\u00ednguas, \u00fanico em Angola.<\/p>\n\n\n\n<p>Regressado ao pa\u00eds que me viu nascer, ap\u00f3s o processo de descoloniza\u00e7\u00e3o, completei a licenciatura em Hist\u00f3ria na Faculdade de Letras de Lisboa, depois de ter adquirido o bacharelato na Universidade de S\u00e1 da Bandeira, hoje cidade da Hu\u00edla. Terminado o curso em 1977 rumei a Fran\u00e7a em Novembro desse ano, por concurso documental, para a\u00ed lecionar L\u00edngua e Cultura Portuguesas.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocado em Lyon, durante quatro anos, fui convidado para dirigir o Sector de Orienta\u00e7\u00e3o Pedag\u00f3gica para a Cultura da Coordena\u00e7\u00e3o Geral do Ensino do Portugu\u00eas em Paris, servi\u00e7o da Embaixada de Portugal na capital francesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em boa hora, conheci um amigo, com um ADN angolano infiltrado no corpo e na alma, e moramos na mesma rua, no mesmo pr\u00e9dio, no mesmo bairro da capital gaulesa. Cedo descobrimos um h\u00e1bito comum, que era a leitura de jornais e a escrita neles. Alc\u00eddio Kuma Gomes criou em Paris a revista lus\u00f3fona Not\u00edcia e logo me convidou para nela escrever artigos, o que fiz com prazer. Para a citada revista n\u00e3o se confundir com a publicada em Luanda, da autoria de Charulla de Azevedo, mudou ent\u00e3o o t\u00edtulo para revista TAKI TAL\u00c1. E nesta escrevi variad\u00edssimos artigos, nomeadamente do \u00e2mbito da educa\u00e7\u00e3o, que se praticava em Fran\u00e7a \u00e0s crian\u00e7as e jovens descendentes dos portugueses imigrados.<\/p>\n\n\n\n<p>Consolidou-se a amizade em almo\u00e7os e jantares com as variadas conversas sobre a prodigiosa Angola, considerada a joia da coroa do Imp\u00e9rio. Numa dessas refei\u00e7\u00f5es lembr\u00e1mos o passado militar, onde tive oportunidade de lhe lembrar algo estranho, com situa\u00e7\u00f5es rocambolescas, como era deixar cunhetes de balas, cobertores, na picada, destinadas aos guerrilheiros de Jonas Savimbi, bem como ra\u00e7\u00f5es de combate, para que na actividade guerrilheira fustigassem os seus considerados inimigos e que eram os elementos do MPLA.<\/p>\n\n\n\n<p>A continuidade da nossa presen\u00e7a em Paris, tive a oportunidade e atrav\u00e9s do Alc\u00eddio Gomes, conhecer elementos ligados \u00e0 UNITA, depois desta ter sido vencida em Angola, pelo MPLA com armas jugoslavas e outras deixadas em Luanda por barcos que ali atracavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Fran\u00e7a vim a conhecer um dos l\u00edderes da UNITA, que foi ISA\u00cdAS SAMAKUVA, e o General GATO. Este \u00faltimo com o apoio de F\u00e1tima Roque, que em Portugal me forneceu o n\u00famero do telefone para que eu o pudesse contactar em Paris. E deu-se um caso de humor, quando lhe telefonei para um poss\u00edvel encontro. Perguntei-lhe se era o General Gato ao que ele respondeu que era o RATO. Rimos ambos e foi mais um conhecimento. Contudo, com o ISAIAS SAMAKUVA a amizade foi mais longa, uma vez que o trio se encontrou em restaurantes e o Alc\u00eddio Kuma Gomes conseguiu que num jantar ele aceitasse uma entrevista que eu publiquei no jornal O DIA, dirigido por Silva Resende, em Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>Os encontros continuaram e cheguei a transportar no meu carro o Samakuva e o Alc\u00eddio em viagens a Antu\u00e9rpia e Luxemburgo, a solicita\u00e7\u00e3o deste \u00faltimo. Foi assim que fiquei a conhecer tamb\u00e9m o Armando Pilartes. Dava-me prazer este tipo de encontros de natureza pol\u00edtica e a este tamb\u00e9m se juntou o cantor BONGA, at\u00e9 porque o Gomes contratava cantores africanos para atuarem em Paris, e recordo um deles no Bataclan, que viria a ficar famoso pelos piores motivos, devido a um ataque de terroristas mu\u00e7ulmanos, onde foi assassinada uma antiga aluna minha.<\/p>\n\n\n\n<p>Vivi como Alc\u00eddio Kuma Gomes momentos que nunca vou esquecer, em contatos sempre com Angola na agenda, viajei para o Dubai, Paquist\u00e3o, Tail\u00e2ndia e at\u00e9 \u00e0 Ilha caribenha de Guadalupe.<\/p>\n\n\n\n<p>Dado o seu conhecimento do mundo empresarial, organizou uma s\u00e9rie de iniciativas em Paris, para estar sempre ligado aos meios pol\u00edticos. Neste tipo de festas, convidou o Eus\u00e9bio, o Fernando Gomes, o Manuel Fernandes, o Carlos Lopes e outros que \u00e0 mem\u00f3ria n\u00e3o me acodem.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando da morte do Presidente Mitterrand, esteve no Hotel Crillon com o MNE de Portugal e que viria a ser o Presidente da Comiss\u00e3o Europeia, Dur\u00e3o Barroso. Esteve com M\u00e1rio Soares, Ant\u00f3nio Guterres, e o Secret\u00e1rio Geral da ONU, Boutros Boutros Ghali. Eu fiz de fot\u00f3grafo.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra ocasi\u00e3o, no Hotel Royal Monceau, fez uma confer\u00eancia de imprensa em Paris, o l\u00edder da UNITA, Jonas Malheiro Savimbi. Alc\u00eddio Gomes e eu estivemos presentes. A certa altura, Alc\u00eddio fez uma pergunta a Savimbi e este logo respondeu, quando o Alc\u00eddio se levantou da cadeira, e disse: &#8220;Agora vamos ouvir o branco mais preto de Angola&#8221;. Alc\u00eddio Gomes arranjou-me uma entrevista em privado com o l\u00edder da UNITA e cuja conversa publiquei no jornal O DIA.<\/p>\n\n\n\n<p>O meu amigo de longa data, general Pezarat Correia, disse-me sempre que eu andava enganado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 UNITA, acredito que o Alc\u00eddio Kuma Gomes tamb\u00e9m, e ap\u00f3s a morte de Jonas Savimbi, tudo quanto ele previra aconteceu, logo se deu conta da saga de traidores que o rodeavam, e foi o Alc\u00eddio Kuma Gomes que me fez ver as coisas. A partir da\u00ed entendi muita coisa que me geraram confus\u00e3o, ainda hoje quando nos encontramos, Angola \u00e9 o tema de conversa.<\/p>\n\n\n\n<p>Professor Doutor Isa\u00edas Gon\u00e7alves Afonso<\/p>\n\n\n\n<p>Alentejo &#8211; Portugal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 medida que a idade avan\u00e7a, esbo\u00e7a-se paulatinamente um recurso sobre a viv\u00eancia no passado. 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