{"id":14073,"date":"2025-02-15T10:36:49","date_gmt":"2025-02-15T09:36:49","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=14073"},"modified":"2025-02-17T12:23:40","modified_gmt":"2025-02-17T11:23:40","slug":"a-entrevista-de-joao-lourenco-a-jeune-afrique-traducao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunadeangola.org\/?p=14073","title":{"rendered":"A entrevista de Jo\u00e3o Louren\u00e7o \u00e0 Jeune Afrique (tradu\u00e7\u00e3o)"},"content":{"rendered":"\n<p> Uma entrevista exclusiva.<br>Fran\u00e7ois Soudan<br>e Estelle Maussion<br>Publicado em 13 de fevereiro de 2025<br>Modificado em 14 Fev 2025 \u00e0s 11h58<\/p>\n\n\n\n<p><br>N\u00e3o se deixem enganar pelas apar\u00eancias. Por detr\u00e1s do exterior taciturno e suave do modelo de apparatchik que \u00e9 h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas, esconde-se um personagem astuto, formidavelmente h\u00e1bil, indubitavelmente inteligente e mais franco do que se possa pensar. Nascido h\u00e1 70 anos no Lobito, filho de uma enfermeira e de uma costureira, que participou nos \u00faltimos epis\u00f3dios da luta de liberta\u00e7\u00e3o antes de ser mergulhado no inferno da guerra civil, subiu um a um os degraus do partido do Estado at\u00e9 se tornar seu vice-presidente, antes de aceder ao poder supremo em agosto de 2017, com a relut\u00e2ncia do seu sucessor, Jos\u00e9 Eduardo dos Santos.<\/p>\n\n\n\n<p>Oito anos depois, Jo\u00e3o Louren\u00e7o det\u00e9m a maior parte do poder. Demitiu a maior parte das figuras influentes do reinado de trinta e oito anos do seu antecessor e rejuvenesceu, feminizou e tecnocratizou todo o pessoal pol\u00edtico. Reeleito em 2022 para um segundo mandato de cinco anos, ap\u00f3s uma elei\u00e7\u00e3o aberta que viu a oposi\u00e7\u00e3o, encarnada pela Uni\u00e3o Nacional para a Independ\u00eancia Total de Angola (Unita), aumentar substancialmente a sua pontua\u00e7\u00e3o ao conquistar 90 lugares no Parlamento, este general de forma\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica (especialidade: artilharia pesada) est\u00e1 a viver o campo de batalha democr\u00e1tico com serenidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabe que ao entusiasmo dos primeiros anos se segue sempre um certo desencanto, sobretudo quando ainda h\u00e1 muito a fazer nas frentes das desigualdades sociais, da luta contra a corrup\u00e7\u00e3o e da diversifica\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, num pa\u00eds ainda dependente dos hidrocarbonetos (90% das exporta\u00e7\u00f5es) e fortemente endividado. \u00c9 um chefe de Estado que tem a no\u00e7\u00e3o clara da dimens\u00e3o dos desafios, determinado a fazer do seu pa\u00eds de 38 milh\u00f5es de habitantes a pot\u00eancia dominante na \u00c1frica Central &#8211; o equivalente \u00e0 \u00c1frica do Sul na parte sul, \u00e0 Nig\u00e9ria na \u00c1frica Ocidental e ao Qu\u00e9nia na \u00c1frica Oriental &#8211; e que assume a presid\u00eancia da Uni\u00e3o Africana (UA) a 15 de fevereiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Na v\u00e9spera deste evento, Jo\u00e3o Louren\u00e7o falou longamente com a Jeune Afrique no pal\u00e1cio presidencial em Luanda. E embora prefira exprimir-se em portugu\u00eas, a l\u00edngua oficial de Angola, este entusiasta do xadrez, licenciado em Hist\u00f3ria pela Academia Superior Lenine de Moscovo, compreende perfeitamente ingl\u00eas, franc\u00eas, espanhol e russo. Tudo trunfos para a dif\u00edcil miss\u00e3o que o espera.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jeune Afrique: Vai iniciar o seu mandato com um dossi\u00ea dif\u00edcil de gerir, sobre o qual tem vindo a trabalhar desde junho de 2022: a crise no Leste da RDC. O Presidente do Burundi e v\u00e1rios observadores receiam que a crise possa degenerar num conflito regional. Tamb\u00e9m tem esse receio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o Louren\u00e7o: O risco de cont\u00e1gio \u00e9 real. \u00c9 por isso que precisamos n\u00e3o s\u00f3 de o evitar, mas sobretudo de voltar a uma situa\u00e7\u00e3o em que se possa prever o fim dos combates. Em meados de dezembro, no \u00e2mbito do processo de Luanda, uma reuni\u00e3o ministerial registou dois avan\u00e7os: o acordo do Ruanda em retirar as suas tropas do territ\u00f3rio congol\u00eas e o compromisso da RDC em neutralizar as FDLR [Forces d\u00e9mocratiques de lib\u00e9ration du Rwanda], que Kigali considera uma amea\u00e7a \u00e0 sua seguran\u00e7a. Temos de aproveitar esta oportunidade e chegar a um acordo de paz assinado pelos dois chefes de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O nosso continente est\u00e1 a atravessar um per\u00edodo dif\u00edcil marcado por conflitos &#8211; entre a RDC e o Ruanda, mas tamb\u00e9m em Mo\u00e7ambique e no Sud\u00e3o -, terrorismo e mudan\u00e7as de regime inconstitucionais. Todas estas s\u00e3o quest\u00f5es que t\u00eam de ser abordadas no \u00e2mbito da Presid\u00eancia da UA. Chegou, portanto, o momento de passar o testemunho a outro chefe de Estado para a media\u00e7\u00e3o entre Kinshasa e Kigali.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-Pela primeira vez, apelou explicitamente \u00e0 sa\u00edda das for\u00e7as ruandesas do territ\u00f3rio congol\u00eas. Se tal n\u00e3o acontecer, ser\u00e1 que, na qualidade de Presidente da UA, \u00e9 a favor da aplica\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es, tal como exigido pela RDC?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Antes de se chegar a um resultado extremo, devem ser dadas todas as hip\u00f3teses de negocia\u00e7\u00e3o. No caso atual, estou convencido de que o reatamento do di\u00e1logo com vista \u00e0 assinatura de um acordo de paz continua a ser poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-H\u00e1, no entanto, a quest\u00e3o do M23, considerado um movimento terrorista por Kinshasa. Ser\u00e1 que devemos negociar com ele?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A minha miss\u00e3o de mediador, que me foi confiada pela UA, \u00e9 trabalhar no sentido de normalizar as rela\u00e7\u00f5es entre os dois Estados vizinhos. A proposta de acordo de paz apresentada vai, logicamente, nessa dire\u00e7\u00e3o e n\u00e3o menciona a quest\u00e3o do M23, que obviamente tem de ser resolvida, mas que est\u00e1 a ser tratada no \u00e2mbito do processo de Nairobi.<br>No entanto, as autoridades congolesas est\u00e3o conscientes da necessidade de falar com todas as partes, incluindo o M23. E n\u00f3s defendemos essa necessidade junto do Presidente F\u00e9lix Tshisekedi, recordando o nosso pr\u00f3prio exemplo. Como sabem, Angola viveu uma longa guerra civil. Para lhe p\u00f4r termo, tivemos de falar com toda a gente. Apesar da sua incurs\u00e3o no nosso territ\u00f3rio, cheg\u00e1mos a negociar com as for\u00e7as sul-africanas do regime do apartheid, discuss\u00f5es conduzidas sob a \u00e9gide dos Estados Unidos e que conduziram \u00e0 assinatura dos acordos de Nova Iorque em 1988. Depois, como um movimento angolano, a Unita, tamb\u00e9m fazia parte do problema, tamb\u00e9m discutimos com ele quando chegou a altura.<\/p>\n\n\n\n<p>O Presidente Tshisekedi foi recordado deste exemplo em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. Para resolver um conflito entre filhos do mesmo pa\u00eds, n\u00e3o h\u00e1 outra solu\u00e7\u00e3o sen\u00e3o falarem uns com os outros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-Outro desafio espera-o: o financiamento dos programas da UA. \u201cA nossa depend\u00eancia financeira do exterior \u00e9 insustent\u00e1vel\u201d, afirmou o Presidente cessante da Comiss\u00e3o, Moussa Faki Mahamat. Como \u00e9 que se pode remediar esta situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tencionamos lutar arduamente para obter um lugar permanente para \u00c1frica no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. Atualmente, o continente \u00e9 incapaz de defender os seus interesses.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos trabalhar com as institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais, o Banco Mundial e o Fundo Monet\u00e1rio Internacional, e sobretudo com os pa\u00edses ocidentais, em particular os Estados Unidos, o Jap\u00e3o e a Europa, para levar a cabo a necess\u00e1ria reforma das institui\u00e7\u00f5es de Bretton Woods. O facto de os nossos pa\u00edses terem sido colonizados e os nossos recursos pilhados justifica a introdu\u00e7\u00e3o de compensa\u00e7\u00f5es para financiar as nossas economias e reduzir a nossa d\u00edvida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-E quanto \u00e0 exig\u00eancia de um lugar permanente para \u00c1frica no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tencionamos lutar por ele. A atual composi\u00e7\u00e3o do Conselho, onde apenas os vencedores da Segunda Guerra Mundial t\u00eam um lugar permanente, n\u00e3o reflecte a realidade do mundo de hoje. A \u00c1frica, que n\u00e3o est\u00e1 representada, encontra-se em desvantagem, incapaz de defender os seus interesses. E n\u00e3o est\u00e1 sozinha nesta situa\u00e7\u00e3o. Na cimeira EUA-\u00c1frica de 2022, Washington comprometeu-se a ajudar nesta quest\u00e3o. Estamos \u00e0 espera que esta promessa seja cumprida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-O continente tamb\u00e9m procura o reconhecimento do seu papel na luta contra o aquecimento global, uma vez que a bacia do Congo \u00e9 um importante sumidouro de carbono a n\u00edvel mundial. Qual \u00e9 o vosso objetivo neste dom\u00ednio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Juntamente com a Amaz\u00f3nia, a bacia do Congo \u00e9 um dos pulm\u00f5es verdes do planeta. Como tal, contribui significativamente para a luta contra o aquecimento global, que tem efeitos devastadores em todo o mundo e, em particular, em \u00c1frica. Por conseguinte, tenciono fazer tudo o que estiver ao meu alcance para garantir que a nossa contribui\u00e7\u00e3o para esta luta seja reconhecida e que os servi\u00e7os prestados em mat\u00e9ria de clima sejam remunerados pelo seu justo valor.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-O regresso de Donald Trump ao poder foi marcado por numerosos an\u00fancios, incluindo a suspens\u00e3o da ajuda ao desenvolvimento dos EUA durante tr\u00eas meses. Trata-se de um duro golpe para muitos pa\u00edses africanos. Lamenta esta decis\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Claro que sim. Enquanto pa\u00edses benefici\u00e1rios, somos diretamente afectados. \u00c9 por isso que precisamos de dialogar com a administra\u00e7\u00e3o americana para a convencer a reconsiderar e a restabelecer a ajuda que faz uma verdadeira diferen\u00e7a no continente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-A diversifica\u00e7\u00e3o da economia angolana \u00e9 um objetivo h\u00e1 anos. Houve algum progresso desde a sua chegada ao poder?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, a contribui\u00e7\u00e3o das actividades n\u00e3o petrol\u00edferas para o PIB \u00e9 muito maior hoje do que no passado. No entanto, n\u00e3o estamos satisfeitos. Temos de ir mais longe para atingir o nosso objetivo: queremos que, no futuro, esta contribui\u00e7\u00e3o seja superior \u00e0 do sector petrol\u00edfero.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-A economia angolana continua a ser altamente dependente dos hidrocarbonetos e das flutua\u00e7\u00f5es do pre\u00e7o do crude. Teme uma nova descida do pre\u00e7o do petr\u00f3leo com o regresso de Donald Trump?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de ter medo, mas de estar preparado para qualquer adversidade. \u00c9 isso que estamos a fazer. J\u00e1 pass\u00e1mos por per\u00edodos em que o pre\u00e7o do petr\u00f3leo esteve abaixo dos 30 d\u00f3lares e sobrevivemos, embora a nossa economia n\u00e3o fosse t\u00e3o diversificada como \u00e9 hoje. Se isso voltasse a acontecer, sobreviver\u00edamos de novo, e talvez at\u00e9 melhor do que antes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-A mudan\u00e7a de administra\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos pode tamb\u00e9m enfraquecer o Corredor do Lobito, um mega-projeto destinado a explorar os recursos minerais de Angola e de dois pa\u00edses vizinhos, a Z\u00e2mbia e a RDC. Se o apoio de Joe Biden, que recebeu em Luanda em dezembro passado, era um dado adquirido, o que dizer de Donald Trump?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada que indique que o apoio americano ser\u00e1 posto em causa. Estamos convencidos de que os Estados Unidos continuar\u00e3o empenhados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-Herdou uma d\u00edvida externa que, no ano passado, absorveu mais de um quarto das receitas do Estado. Como \u00e9 que lida com esta situa\u00e7\u00e3o?\u202f<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos indicadores-chave neste dom\u00ednio, o r\u00e1cio d\u00edvida\/PIB, era de 75% no ano passado. At\u00e9 2025, baixar\u00e1 para 62%. Este facto ilustra os esfor\u00e7os que temos vindo a desenvolver nos \u00faltimos anos para reduzir a nossa d\u00edvida, tanto externa como interna, ao mesmo tempo que fazemos quest\u00e3o de a pagar sistematicamente. Posso mesmo dizer religiosamente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-Esta quest\u00e3o da d\u00edvida est\u00e1 muito ligada \u00e0 China, que \u00e9 simultaneamente o vosso maior parceiro comercial e o vosso maior credor &#8211; quase 40% da d\u00edvida externa de Angola est\u00e1 contra\u00edda com Pequim. N\u00e3o estar\u00e1 Angola demasiado dependente da China? Como \u00e9 que podem equilibrar as vossas rela\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se esta d\u00edvida pode ter atingido os 24 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares, est\u00e1 agora num patamar mais baixo e ronda atualmente os 14,9 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares, tendo em conta que o servi\u00e7o da d\u00edvida &#8211; de 3,4 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares em 2024 &#8211; vai aumentar ligeiramente este ano, atingindo os 3,9 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m dos n\u00fameros e do facto de as nossas rela\u00e7\u00f5es bilaterais serem boas, \u00e9 preciso recordar o contexto em que esta d\u00edvida foi contra\u00edda. Ap\u00f3s a guerra civil, Angola era um pa\u00eds devastado. Era preciso reconstru\u00ed-lo, a come\u00e7ar pelas infra-estruturas, que exigem grandes investimentos. Falou-se na organiza\u00e7\u00e3o de uma confer\u00eancia internacional de doadores em Bruxelas. Nunca cheg\u00e1mos a saber porqu\u00ea, mas nunca se realizou. Isso levou-nos a contactar a China, que respondeu de imediato.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-Entre as reformas macroecon\u00f3micas lan\u00e7adas est\u00e1 a aboli\u00e7\u00e3o gradual dos subs\u00eddios aos combust\u00edveis, que levou a uma onda de manifesta\u00e7\u00f5es no pa\u00eds em 2023. Acha que o choque j\u00e1 foi absorvido?\u202f<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, ainda n\u00e3o. At\u00e9 porque o pre\u00e7o do litro de combust\u00edvel em Angola, um dos mais baixos do mundo, n\u00e3o cobre o custo real da produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. Esta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 insustent\u00e1vel para qualquer economia do mundo. \u00c9 por isso que estamos a prosseguir os nossos esfor\u00e7os para baixar gradualmente o pre\u00e7o dos combust\u00edveis para o pre\u00e7o justo de mercado. Temos de fazer passar a ideia de que o combust\u00edvel \u00e9 um produto como qualquer outro, cujo pre\u00e7o n\u00e3o \u00e9 fixo nem eterno.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-Desde a sua chegada ao poder em 2017, lan\u00e7ou uma cruzada contra a corrup\u00e7\u00e3o. Tem uma estimativa do montante total de fundos desviados?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me atreveria a dar um n\u00famero, mas as somas s\u00e3o consider\u00e1veis. Estamos a falar de milhares e milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares. Para perceber isso, basta lembrar que um arresto decretado pela justi\u00e7a a um \u00fanico indiv\u00edduo [Carlos Manuel de S\u00e3o Vicente, empres\u00e1rio e marido de Irene Neto, filha de Agostinho Neto, o primeiro presidente angolano] resultou na recupera\u00e7\u00e3o de 900 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Mas h\u00e1 muitos outros casos em curso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-De acordo com os \u00faltimos dados, foram devolvidos 7,6 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares aos cofres do Estado. N\u00e3o parece muito\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pode n\u00e3o parecer muito, sobretudo porque se esperam muitas mais descobertas. Embora tenhamos podido contar com a coopera\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios pa\u00edses nesta mat\u00e9ria, infelizmente n\u00e3o \u00e9 o caso de todos eles, tendo em conta que alguns dos fundos est\u00e3o em para\u00edsos fiscais. No entanto, os nossos esfor\u00e7os n\u00e3o t\u00eam sido em v\u00e3o: uma a\u00e7\u00e3o, por exemplo, levou \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o de 2 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares, domiciliados de forma fraudulenta num banco brit\u00e2nico, que est\u00e3o agora a ser utilizados para financiar a constru\u00e7\u00e3o de infra-estruturas sociais, escolas e hospitais, etc., nas prov\u00edncias do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-Esta luta, que tem como alvo principal a fam\u00edlia do seu antecessor, Jos\u00e9 Eduardo dos Santos, e os seus pr\u00f3ximos, tem sido criticada por ser selectiva. Como \u00e9 que responde a isso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se assim fosse, a fam\u00edlia dos Santos teria milh\u00f5es de membros\u2026 Trata-se de pura especula\u00e7\u00e3o por parte das pessoas acusadas ou dos seus familiares; \u00e9 tamb\u00e9m uma acusa\u00e7\u00e3o infundada. O caso j\u00e1 referido, ou o do ex-ministro dos Transportes [Augusto da Silva Tom\u00e1s], ou a recente descoberta de pr\u00e1ticas fraudulentas no seio da administra\u00e7\u00e3o fiscal\u2026 Nenhum destes casos, em que foram instaurados processos, diz diretamente respeito \u00e0 fam\u00edlia dos Santos. Sejamos s\u00e9rios! O Presidente dos Santos n\u00e3o nos fez mal ao ponto de querermos agora perseguir a sua fam\u00edlia. S\u00e3o os tribunais que fazem justi\u00e7a, n\u00e3o o Presidente ou qualquer outro \u00f3rg\u00e3o pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-No final do ano passado, perdoou o filho do antigo presidente, Jos\u00e9 Filomeno, que tinha sido condenado por fraude em 2020. A sua meia-irm\u00e3, Isabel dos Santos, continua a ser processada em v\u00e1rios casos de corrup\u00e7\u00e3o e encontra-se exilada no Dubai. Poderia beneficiar do mesmo perd\u00e3o se regressasse a Angola?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o quero entrar nesse caso espec\u00edfico\u2026 Dito isto, conv\u00e9m lembrar que um perd\u00e3o s\u00f3 pode ser concedido a algu\u00e9m que j\u00e1 tenha sido julgado e condenado. Portanto, a resposta \u00e9 clara.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-As elei\u00e7\u00f5es gerais de 2022 foram dif\u00edceis para o Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (MPLA), com uma pontua\u00e7\u00e3o mais baixa e um n\u00famero de deputados inferior ao de 2017. A que atribui este decl\u00ednio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O MPLA ganhou as elei\u00e7\u00f5es com mais de 50% dos votos [51% contra 61% em 2017], o que lhe confere incontestavelmente a legitimidade necess\u00e1ria para governar. No estrangeiro, e nomeadamente na Europa, h\u00e1 quem defenda o contr\u00e1rio, apelando a uma alian\u00e7a com o partido que ficou em segundo lugar, em nome de uma governa\u00e7\u00e3o pac\u00edfica. Exceto que, no seu pa\u00eds, se v\u00eaem a governar o seu pa\u00eds com, por vezes, menos de 30% dos votos\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>A eros\u00e3o eleitoral \u00e9 um fen\u00f3meno bem conhecido e reflecte o facto de o contexto atual ser diferente do de h\u00e1 quarenta anos. No passado, o MPLA obteve mais de 80% dos votos. O que \u00e9 que dir\u00edamos se tiv\u00e9ssemos esse resultado hoje? Estar\u00edamos a falar de fraude\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-O Congresso Nacional Africano (ANC) na \u00c1frica do Sul e a Frente de Liberta\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique (Frelimo) est\u00e3o na mesma situa\u00e7\u00e3o que o MPLA. H\u00e1 um cansa\u00e7o crescente em rela\u00e7\u00e3o aos partidos nascidos das lutas de liberta\u00e7\u00e3o, associado a uma diminui\u00e7\u00e3o da aflu\u00eancia \u00e0s urnas. N\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1rio renovar a oferta pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Cabe a cada um de n\u00f3s fazer a sua pr\u00f3pria an\u00e1lise e encontrar as respostas adequadas. Mas, na minha opini\u00e3o, esta evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 normal. Reflecte a evolu\u00e7\u00e3o das nossas sociedades ao longo do tempo e, por vezes, resulta numa mudan\u00e7a. No que diz respeito \u00e0 absten\u00e7\u00e3o, trata-se de um fen\u00f3meno global que todos os pa\u00edses, ricos e pobres, t\u00eam de enfrentar, mesmo que seja mais vis\u00edvel nos pa\u00edses desenvolvidos do que em \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-De acordo com a \u00faltima an\u00e1lise de Angola efectuada pela seguradora de cr\u00e9dito Coface, a situa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a no enclave de Cabinda, onde actua a Frente Separatista de Liberta\u00e7\u00e3o do Estado de Cabinda (Flec), continua a preocupar os investidores. Devemos negociar com a Flec, como fizemos com o M23?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, e n\u00e3o concordo com esta interpreta\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o. Por um lado, a Flec n\u00e3o representa uma amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a. Por outro lado, a sua presen\u00e7a n\u00e3o desencoraja o investimento. A prova disso \u00e9 que a grande empresa americana Chevron est\u00e1 presente na regi\u00e3o h\u00e1 mais de setenta anos e nunca pensou em sair. E n\u00e3o \u00e9 tudo: at\u00e9 ao final do ano, a cidade de Cabinda ter\u00e1 uma refinaria, um facto in\u00e9dito nesta prov\u00edncia e, mais uma vez, fruto do investimento privado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-A quest\u00e3o do seu pr\u00f3prio futuro pol\u00edtico \u00e9 objeto de especula\u00e7\u00e3o. De acordo com a Constitui\u00e7\u00e3o angolana, um presidente n\u00e3o pode exercer mais de dois mandatos sucessivos, o que significa que o seu atual mandato, que termina em 2027, ser\u00e1 o \u00faltimo. \u00c9 mesmo isso que tem em mente?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada de complicado nesta pergunta. Pela simples raz\u00e3o de que, se a Constitui\u00e7\u00e3o dita algo, basta obedecer-lhe. Se o MPLA tivesse tido a inten\u00e7\u00e3o de alterar a Constitui\u00e7\u00e3o, teria sido muito oportuno faz\u00ea-lo durante o meu primeiro mandato, quando o partido tinha uma maioria qualificada na Assembleia Nacional. Muitas reformas constitucionais foram adoptadas, mas n\u00e3o sobre este assunto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-J\u00e1 pensou num perfil para o suceder?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Claro que sim, e isso \u00e9 normal. \u00c9 claro que n\u00e3o vou dizer nomes, mas ter\u00e1 de ser algu\u00e9m que sirva o pa\u00eds t\u00e3o bem como eu e, se poss\u00edvel, ainda melhor.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-O que tenciona fazer depois de 2027?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Continuar a servir o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-Como \u00e9 que posso fazer isso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muitas formas de o fazer, e n\u00e3o tem necessariamente de ser atrav\u00e9s de um cargo eletivo. Como patriota e enquanto a minha sa\u00fade o permitir, tenciono continuar a servir o meu pa\u00eds e a contribuir para o seu desenvolvimento. Pode ser atrav\u00e9s da palavra ou da escrita, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-Vinte e tr\u00eas anos ap\u00f3s o fim da guerra civil, a reconcilia\u00e7\u00e3o est\u00e1 conclu\u00edda?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um processo que tem uma data de in\u00edcio mas n\u00e3o tem uma data de fim. E, mesmo que nem tudo seja perfeito, este processo conduziu a uma grande conquista: a manuten\u00e7\u00e3o da paz.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-Apresentou o pedido oficial de desculpas do Estado \u00e0s v\u00edtimas da repress\u00e3o da tentativa de golpe de Nito Alves em 1977. Ser\u00e1 isso suficiente para resolver o passado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este pedido de desculpas oficial n\u00e3o foi apenas para as v\u00edtimas dos acontecimentos de 27 de maio de 1977, mas para todos os conflitos pol\u00edticos e assassinatos ocorridos desde a independ\u00eancia. Trata-se de um passo em frente fundamental. Ao mesmo tempo, e com a colabora\u00e7\u00e3o da sociedade civil, o Estado comprometeu-se a localizar, identificar &#8211; atrav\u00e9s de testes de ADN &#8211; e devolver os restos mortais das v\u00edtimas \u00e0s suas fam\u00edlias. Trata-se de uma tarefa consider\u00e1vel, tendo em conta o n\u00famero de v\u00edtimas, mas tem de ser feita e est\u00e1 a ser feita.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-H\u00e1 quase cinquenta anos, a 11 de novembro de 1975, Angola proclamou a sua independ\u00eancia. O que estava a fazer nesse dia e como viveu esse momento hist\u00f3rico?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como soldado, estava estacionado em Cabinda, a repelir a ofensiva do ex\u00e9rcito zairense de Mobutu na fronteira sul, perto da cidade de Iema. Os invasores estavam a menos de 30 quil\u00f3metros da capital da prov\u00edncia. A situa\u00e7\u00e3o era t\u00e3o cr\u00edtica como a enfrentada pelas nossas for\u00e7as em Luanda, que tamb\u00e9m estavam envolvidas numa batalha nos arredores da capital, em Kifangondo. Em ambos os casos, n\u00e3o havia outra alternativa sen\u00e3o ganhar a batalha.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-\u00c9 pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m \u00e9 um general que combateu a Unita de Jonas Savimbi nos anos oitenta. Ainda se considera um militar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida, apesar de ao longo da minha carreira ter alternado constantemente entre fun\u00e7\u00f5es militares e pol\u00edticas. Ap\u00f3s quatro anos de treino militar em Moscovo, regressei a Angola antes de ser enviado para a frente de combate no centro do pa\u00eds. Depois disso, tornei-me governador da prov\u00edncia do Moxico, ainda com o meu bon\u00e9 militar. Nos anos que se seguiram, as minhas responsabilidades tornaram-se cada vez mais pol\u00edticas, na lideran\u00e7a do partido, depois como primeiro vice-presidente da Assembleia Nacional e, finalmente, como Ministro da Defesa, cargo que ocupei at\u00e9 ser candidato \u00e0 presid\u00eancia do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-De acordo com a sua nota biogr\u00e1fica, tem dois hobbies principais: equita\u00e7\u00e3o e xadrez. Ainda \u00e9 assim?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, embora seja imposs\u00edvel praticar equita\u00e7\u00e3o no pal\u00e1cio presidencial\u2026 Quanto ao xadrez, embora ainda o jogue ocasionalmente, \u00e9 raro, por falta de tempo. Mas, afinal, a pol\u00edtica tamb\u00e9m \u00e9 um jogo de xadrez!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>-\u00c9 o primeiro chefe de Estado angolano a presidir \u00e0 UA. Um motivo de orgulho, mas tamb\u00e9m uma fonte de incerteza: ser\u00e1 que vai ser o \u00fanico a restaurar a efic\u00e1cia e a credibilidade da organiza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Deixem-me assumir as minhas fun\u00e7\u00f5es e terminar o meu mandato antes de fazer um balan\u00e7o! Dito isto, \u00e9 de facto um motivo de orgulho para mim. O primeiro presidente de Angola, Agostinho Neto, que infelizmente n\u00e3o permaneceu no poder o tempo suficiente, n\u00e3o teve essa oportunidade. O seu sucessor, Jos\u00e9 Eduardo dos Santos, teve de lidar com a agress\u00e3o externa e o conflito com a UNITA. Agora que chegou a minha vez de liderar o pa\u00eds, tenho a sorte de poder exercer esta responsabilidade continental. Tenciono dar o meu melhor, n\u00e3o s\u00f3 por Angola, mas tamb\u00e9m por \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma entrevista exclusiva.Fran\u00e7ois Soudane Estelle MaussionPublicado em 13 de fevereiro de 2025Modificado em 14 Fev 2025 \u00e0s 11h58 N\u00e3o se deixem enganar pelas apar\u00eancias. 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